Luciana Genro

Seminário sobre fascismo discute perspectivas de resistência a Bolsonaro e analisa experiências autoritárias

08 de dezembro de 2018 15h16

Luciana Genro falou sobre a ascensão de partidos e políticos de extrema-direita no mundo | Foto: Samir Oliveira

Atendendo a uma demanda da população ansiosa em debater os rumos políticos do país após a eleição de Jair Bolsonaro como presidente, o PSOL gaúcho e o Emancipa promoveram neste sábado (08/12) o Seminário sobre Fascismo: “História, teoria política, situação nacional e perspectivas de um governo Bolsonaro”, no Plenário Otávio Rocha da Câmara Municipal de Porto Alegre. Participaram do evento a deputada estadual eleita Luciana Genro, o vereador de Porto Alegre Roberto Robaina, o professor de Ciência Política, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e doutor em Ciências Sociais Alvaro Bianchi, o sociólogo Israel Dutra, também presidente do PSOL-RS, Marcus Vianna, professor de História e integrante da coordenação da rede Emancipa, de educação popular, e o mestre em Sociologia Bernardo Correa. As atividades foram conduzidas por Camila Goulart, professora de História e vice-presidente do PSOL gaúcho.

A deputada estadual eleita Luciana Genro foi a primeira painelista do evento e apresentou uma introdução ao nazi-fascismo e da experiência do nazismo na Alemanha. Luciana destacou, no início do painel, uma das fotos que o cantor Roger Waters exibia em seus shows criticando a ascensão da extrema-direita em todo o mundo.

– O fascismo não é uma excepcionalidade. Ele está presente nas nossas democracias, quase sempre de forma silenciosa e ameaçadora, inclusive em países mais desenvolvidos. Os exemplos de Trump nos Estados Unidos e Marine Le Pen na França são os mais conhecidos, mas há ainda os exemplos de Rodrigo Duterte nas Filipinas, que se elegeu prometendo acabar com as drogas, mas a política que aplica na prática é a de extermínio dos dependentes químicos. Ele chegou a recomendar o absurdo de que o Exército dispare contra a vagina das guerrilheiras, argumentando que sem vagina elas são inúteis. Há também os exemplos da Áustria, da Itália, da Alemanha, da Polônia, entre outros, que investem em atacar migrantes e fundamentam sua atuação em bases religiosas para propor leis para a população.

A deputada eleita seguiu sua explanação falando sobre o cenário de crise econômica em que se desenvolve a extrema-direita: o da concentração do poder econômico em pouquíssimas empresas, principalmente nos países desenvolvidos.

– No Brasil, há seis bilionários que concentram a riqueza de um universo de 100 milhões de pessoas. Há quase 55 milhões de brasileiros que vivem com R$ 400 por mês. É nesse cenário de desigualdade, crise e concentração que o fascismo tem maiores condições de se desenvolver – contextualiza Luciana, destacando ainda o fracasso da esquerda, o descrédito das instituições a partir de casos reais de corrupção e a militarização como outras características propícias para o desenvolvimento do fascismo.

Luciana encerrou sua fala citando o economista inglês, crítico do imperialismo e um dos principais representantes do reformismo burguês John Atkinson Hobson, que diz que “a defesa do capitalismo está ligada, em cada país, à destruição ou ao enfraquecimento das liberdades públicas e do governo representativo”.

O vereador Roberto Robaina foi o segundo a falar, destacando que a eleição de Bolsonaro significa uma mudança brusca de período histórico no Brasil. Robaina complementou a explanação de Luciana sobre a experiência do nazismo na Alemanha.

– As negociações do Tratado de Versalhes que deram fim à Primeira Guerra Mundial causaram uma profunda crise na Europa, penalizando países como a Alemanha que tinha que pagar dívidas para a França e Inglaterra. O capitalismo produz o fascismo. Se o nazismo triunfasse, haveria outro regime pior do que o capitalismo, quiçá utilizando a mão de obra dos campos de concentração, que serviram inicialmente para atacar diretamente os integrantes do Partido Comunista, que teve 100 deputados cassados antes mesmo de Hitler assumir o poder.

Painel na parte da tarde debateu as experiências brasileiras com o autoritarismo e as perspectivas de resistência. | Foto: Samir Oliveira

Robaina relembrou ainda que o stalinismo subestimou o perigo do nazismo, comportamento semelhante ao da esquerda no Brasil, que não levou a sério o crescimento de Bolsonaro e dos deputados de extrema-direita no país.

– O stalinismo dizia que o nazismo não ia crescer tanto, mas o que vimos foi o oposto. O nazismo se tornou a ala mais combativa para enfrentar a classe operária. O Partido Comunista foi a primeira vítima do nazismo, seguido dos ataques aos interesses da classe trabalhadora, semelhante ao que está se desenhando do Brasil.

O painel da manhã foi encerrado pelo professor Alvaro Bianchi, da Unicamp, dando praticamente uma aula sobre os estudos de Antonio Gramsci sobre o fascismo na Itália.

– O avanço do fascismo mostra o declínio das classes médias. Gramsci começa a analisar o fascismo como fenômeno social no começo de 1920, como o resultado da crise, do esfacelamento e do enfraquecimento político da pequena burguesia, e do desenvolvimento da grande indústria e da vida moderna. Havia também uma onda patriótica depois da primeira guerra mundial.

O professor destacou ainda que o fascismo pode ser caracterizado como o primeiro programa político próprio da pequena burguesia.

– Organizativamente ele (fascismo) não existiria sem conquistar o Estado, sem garantir que se instalasse uma maioria parlamentar. Gramsci apontou ainda que no interior do fascismo haviam dois grupos: o que era urbano, parlamentar e conciliador, e tinha a figura de Mussolini como principal, e um grupo rural radical armados de repressão aos movimentos de camponeses – explicou Bianchi.

O professor encerrou sua fala destacando que os estudos de Gramsci podem ser caracterizados como o primeiro estudo marxista do fascismo.

Veja como foi o painel da manhã: https://www.facebook.com/LucianaGenroPSOL/videos/773195876354023/

Experiências brasileiras e perspectivas de resistência

Na parte da tarde, o seminário prosseguiu com um painel do historiador Marcus Vianna sobre o integralismo e a experiência brasileira com organizações fascistas na década de 1930. O professor lembrou que o movimento fundado por Plinio Salgado em 1932 tentou construir uma ideia de “modernização conservadora” no Brasil e defendia um nacionalismo baseado em valores católicos e na defesa da família tradicional.

Integrante da coordenação do Emancipa, Marcus Vianna entende que o fascismo pregado pela Ação Integralista Nacional nunca chegou a se concretizar em sua essência, mas acabou apoiando a ditadura do Estado Novo implantada por Getúlio Vargas – para, em seguida, após uma tentativa de golpe, ser proscrito pelo regime. “O Estado brasileiro soluciona a hipótese fascista com o autoritarismo do Estado Novo. Plinio Salgado teve que se exilar em Portugal”, recordou.

Em seguida, os sociólogos Bernardo Corrêa e Israel Dutra falaram sobre a natureza do governo Bolsonaro e as tarefas políticas na recomposição da esquerda socialista. Para Israel, que também é presidente do PSOL-RS, o Brasil vive um momento de transição de regime, rompendo com a Nova República consagrada após o fim da ditadura.

Ele entende que a reação a Bolsonaro deve colocar na ordem do dia a defesa das conquistas democráticas da Constituição de 1988 e dos direitos sociais assegurados. Porém, critica os limites do texto constitucional, que “não rompeu com o entulho autoritário da ditadura, diferentemente da Argentina, onde houve Justiça de Transição”.

Já Bernardo Corrêa reiterou que “os setores que defendem a ditadura nunca deixaram de conspirar” e destacou a importância das jornadas de Junho de 2013 como um marco da insatisfação popular contra o regime político.

Ele também refletiu sobre os desafios colocados na construção de uma alternativa política capaz de canalizar pela esquerda a revolta contra o sistema. “Uma das nossas principais tarefas é construir uma esquerda anticapitalista, democrática e antirregime”, disse.

Tanto Israel quanto Bernardo reforçaram a cobrança pela investigação do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Eles entendem que se este crime permanecer impune, será reforçado o poder das milícias e legitimada a ideia defendida por Bolsonaro e pelo governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, de que as forças de segurança possuiriam licença para matar.