Luciana Genro

“É possível começar a mudança pelas cidades”, diz Luciana Genro em Madrid

28 de maio de 2016 12h44
Foto: Julia Sprioli/Divulgação

Luciana Genro participou de conferência sobre Cidades Democráticas em Madrid, representando a plataforma Compartilhe a Mudança | Foto: Julia Sprioli/Divulgação

A cidade de Madri realizou nesta semana o evento “Cidades Democráticas”, reunindo diversos ativistas e autoridades do mundo inteiro para debater novas formas de participação popular e experiências de democracia real nas cidades. O evento ocorreu entre os dias 23 e 28 de maio, no Museu Reina Sofía, e foi organizado pela prefeitura de Madrid, pelo projeto D-CENT e pelo Medialab-Prado.

Convidada para falar sobre a plataforma Compartilhe a Mudança, Luciana Genro participou de uma das conferências internacionais do evento, chamada “Construindo uma rede de cidades da mudança: a nova democracia institucional e o poder constituinte dos comuns“, que ocorreu neste sábado (28/05), às 15h no horário de Madrid e às 10h no horário de Brasília.

Foto: Tiago Madeira/Divulgação

Encontro com a prefeita de Madrid, Manuela Carmena, que representa a plataforma cidadã e democrática #AhoraMadrid, com a participação do Podemos | Foto: Julia Sprioli/Divulgação

“É uma grande alegria e um orgulho enorme representar neste evento o Movimento Compartilhe a Mudança, da nossa cidade de Porto Alegre, que entrou para a história pela sua tradição de participação e de mobilização. Lá nasceu o orçamento participativo e lá também nasceu e foram realizadas diversas edições do Fórum Social Mundial”, disse Luciana.

Em seu pronunciamento, Luciana, que é pré-candidata à prefeitura de Porto Alegre, falou sobre os novos movimentos que reivindicam a participação nas decisões da cidade, como o Cais Mauá de Todos, e defendeu a integração da Capital gaúcha a uma rede internacional de cidades rebeldes e democráticas. “Tenho convicção de que um governo municipal comprometido com a construção de uma democracia real e com novas formas de fazer política, de baixo para cima, que incorpore as formas de participação via Internet, vai recolocar Porto Alegre no mapa global de cidades rebeldes e democráticas”, argumentou.

Foto: Julia Sprioli/Divulgação

Conferência contou, além de Luciana Genro, com a presença de autoridades e ativistas da Finlândia, da Espanha, da Holanda, da França e da Estônia | Foto: Julia Sprioli/Divulgação

Luciana, que na sexta-feira se encontrou com a prefeita de Madrid, Manuela Carmena, disse que a plataforma Compartilhe a Mudança surgiu inspirada nas experiências do Podemos e das plataformas cidadãs desenvolvidas pelos governos de Madrid e de Barcelona. “Abre-se uma luz, na atual conjuntura política global, na perspectiva da renovação das práticas políticas, de experiências de novas estruturas e organizações com democracia mais direta, típicas das sociedades em rede. Queremos que Porto Alegre seja parte da construção de uma rede de cidades protagonistas de uma mudança que precisa ser nacional e, mais ainda, global”, manifestou.

Ao comentar sobre a crise mundial da democracia representativa, Luciana Genro disse que este é um momento propício à inovação e à mudança. “A velha forma de democracia não representa mais o povo. Isso ficou muito claro quando as ruas disseram à classe política, em junho de 2013, no Brasil, que ela não os representava. Uma nova forma de democracia ainda está nascendo”, disse.

Por fim, Luciana terminou seu pronunciamento falando sobre a necessidade de se começar esta mudança no sistema político e econômico global através das cidades, retirando o poder das castas políticas e convocando a cidadania a tomar as decisões importantes do governo. “Se a nossa proposta for vitoriosa nas eleições municipais de outubro próximo não tenho dúvida de que estaremos dando um passo no fortalecimento, em todo o Brasil, de uma proposta inovadora e de uma nova política que rejeita as castas tradicionais e busca o empoderamento popular, único caminho para garantir que não mais o 0,01% siga comandando o planeta e destruindo suas riquezas em nome do lucro e da ganância e que finalmente os 99% tomem as rédeas do seus destinos”, finalizou.

Também participaram da conferência autoridades municipais e nacionais e ativistas de Madrid, Barcelona, Estônia, Amsterdã, Finlândia e Paris, que contaram as experiências inovadoras de participação popular e justiça social desenvolvidas em seus países e cidades.

Confira abaixo a íntegra do discurso de Luciana Genro em Madrid

É uma grande alegria e um orgulho enorme representar neste evento o Movimento Compartilhe a Mudança, da nossa cidade de Porto Alegre. Porto Alegre é uma cidade que entrou para a história pela sua tradição de participação e de mobilização. Lá nasceu o orçamento participativo e lá também nasceu e foram realizadas diversas edições do Fórum Social Mundial. É um orgulho muito grande ser pré-candidata à prefeitura de uma cidade tão especial como Porto Alegre. Quero também saudar a presença de outros brasileiros neste evento: a professora Raquel Rolnik, o sociólogo e ativista de software livre Sérgio Amadeu, o ativista David Miranda do Snowdentreaty.org, o ativista de software livre do Conexões Globais Marcelo Branco e o programador do Compartilhe a Mudança Tiago Madeira.



O Brasil vive um momento decisivo da sua história. No dia 11 de maio o senado brasileiro decidiu, por ampla maioria de votos, afastar a presidente Dilma Rousseff, numa manobra reacionária capitaneada pelos até então aliados do PT e pelo próprio vice-presidente, numa espécie de golpe palaciano e parlamentar. Mas isso não alterou a relação de forças entre as classes. Por isso, embora possamos definir como golpe palaciano, o mais preciso é dizer que foi uma manobra para mudar o governo e que esta mudança não mudou o regime político nem estabilizou o domínio burguês.

O objetivo do novo governo é aumentar o ajuste contra o povo e fechar o período aberto no pais com a irrupção do movimento de massas nas jornadas de junho de 2013, momento em que o regime burguês foi fraturado, quando milhões de jovens, com amplo apoio popular, saíram às ruas. No início para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, numa espiral de mobilização que foi muito além desta reivindicação e colocou em cheque e causou uma fratura no regime político das castas partidárias totalmente afastadas do interesse popular.

Ao mesmo tempo em que vivemos em nossa cidade um período de retrocessos e estagnação nas políticas públicas, resultado da falta de participação direta da população na tomada das decisões, vemos também o surgimento de novos movimentos sociais, uma nova força vinda dos “comuns”, que exige participar nas decisões da cidade. Um exemplo disso é o movimento Cais Mauá de Todos, que questiona a decisão da prefeitura de construir um shopping center na beira do nosso lago Guaíba, lugar do por do sol mais lindo do mundo. E que me perdoem pela falta de modéstia.

Outro exemplo são os movimentos pela moradia que protagonizam em Porto Alegre dezenas de ocupações de áreas urbanas abandonadas, e ainda o exemplo dos estudantes secundaristas que ocupam as escolas em defesa da educação. Como estes movimentos, há diversas outras iniciativas vindas das pessoas, de ativistas auto-organizados, que estão ocorrendo em Porto Alegre, ocupando os espaços públicos como uma forma de lutar contra a privatização da cidade, das nossas vidas, e de fortalecer a segurança através de experiências comunitárias, rejeitando um modelo de segurança baseado somente na repressão. Quanto mais as pessoas tomarem para si os espaços da cidade, mais a área ubana se tornará mais segura. E as tecnologias digitais podem ser fortes aliadas neste processo.

Estes movimentos são a base social concreta que nos dá a certeza de que podemos sim construir uma nova institucionalidade, verdadeiramente democrática. Tenho convicção de que um governo municipal comprometido com a construção de uma democracia real e com novas formas de fazer política, de baixo para cima, que incorpore as formas de participação via Internet, vai recolocar Porto Alegre no mapa global de cidades rebeldes e democráticas.

Desde a eclosão do movimento dos Indignados #15M de 2011 a Espanha tem sido um exemplo de emergência de novas e inéditas iniciativas tecnopolíticas encabeçadas pela cidadania, com mais participação social e democracia direta. Os novos partidos políticos como #Podemos e a nova onda de iniciativas cidadãs municipalistas como #BarcelonaEnComú e #AhoraMadrid expressam esse novo tipo de política, que se caracteriza pela priorização da democracia participativa, pelo empoderamento cidadão e pela justiça social. Abre-se uma luz, na atual conjuntura política global, na perspectiva da renovação das práticas políticas, de experiências de novas estruturas e organizações com democracia mais direta, típicas das sociedades em rede. Queremos que Porto Alegre seja parte da construção de uma rede de cidades protagonistas de uma mudança que precisa ser nacional e, mais ainda, global.

Foi inspirado nesses movimentos e iniciativas e com a ambição de ser parte da construção desta rede de mudanças que construímos a plataforma de participação social “Compartilhe a Mudança”- uma alternativa para Porto Alegre -, que combina a participação online com o envolvimento presencial e territorial da cidade. Juntos estaremos aprendendo e estimulando novas formas de participação descentralizadas para construção de propostas e programas para um novo governo de participação social. E estamos assumindo o compromisso de colocarmos em prática uma gestão de baixo para cima, invertendo prioridades na gestão da Prefeitura de Porto Alegre, aperfeiçoando e desburocratizando o Orçamento Participativo, combinando-o com as novas formas digitais de participação.

Se a nossa proposta for vitoriosa nas eleições municipais de outubro próximo não tenho dúvida de que estaremos dando um passo no fortalecimento, em todo o Brasil, de uma proposta inovadora e de uma nova política que rejeita as castas tradicionais e busca o empoderamento popular, único caminho para garantir que não mais o 0,01% siga comandando o planeta e destruindo suas riquezas em nome do lucro e da ganância e que finalmente os 99% tomem as rédeas do seus destinos.