Luciana Genro

“Para Luciana Genro, impeachment é opção retrógrada”

25 de janeiro de 2016 12h57

*Entrevista feita pela jornalista Fernanda Mena, publicada originalmente nesta segunda-feira (25/01) no site e na edição impressa da Folha de São Paulo.

Ex-candidata à presidência da República pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), Luciana Genro publicou há pouco mais de um mês artigo em que se posicionava contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), mas a favor de sua renúncia e da convocação de eleições gerais no país.

“A melhor forma de resolver a crise política é devolver a soberania a quem ela pertence: o povo”, diz.

A proposta gerou debate dentro do partido e, passada a tormenta política do final de 2015, Genro defende que a remoção de quem quer que seja do Executivo não resolverá a situação do país. “O Congresso Nacional está contaminado pelas mesmas indecências permitidas pela chapa Dilma-Temer.”

Para ela, imprescindível é o “debate sobre como sair da crise”. Segundo Genro, diante recessão econômica, da corrupção sistêmica que “toma conta do governo atual e chega, de forma cada vez mais clara, ao governo FHC”, e da crise de legitimidade, é necessária a discussão de uma “mudança profunda na estrutura dos sistemas político e econômico” do país.

Genro, hoje candidata às eleições municipais em Porto Alegre (RS), diz que mudanças só ocorrerão quando houver mobilização popular. “Isso nunca será obra das elites políticas e econômicas do país.” Leia, a seguir, trechos da entrevista à Folha.

Folha – Por que você se posicionou a favor da convocação de eleições gerais para 2016 e não a favor do impeachment de Dilma?

Luciana Genro – Vivemos uma crise econômica muito grave e uma crise política tão grave quanto a econômica.

Sua origem é uma campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff, na qual não se permitiu a discussão sobre saídas para a crise econômica porque simplesmente negou-se sua existência.

Dilma se comprometeu com medidas opostas àquelas que veio a tomar após a vitória. Na verdade, ela implementou o programa de Aécio [Neves] e do PSDB, o que causou indignação.

Somado a isso temos a corrupção, que toma conta do governo atual e chega, de forma cada vez mais clara, ao governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. Isso demonstra que temos um sistema político apodrecido.

Diante da crise econômica e de legitimidade, não só do governo, mas das instituições da República –com um Congresso Nacional presidido por um bandido, como Eduardo Cunha– a melhor forma de resolver o imbróglio é devolver a soberania a quem ela pertence: o povo.

Impeachment não resolveria?

Sou contra o impeachment porque, para que tenha legitimidade, tem de ser fruto da mobilização popular que aponte para uma saída positiva, progressiva, e não para um retrocesso.

Esse impeachment é retrógrado: vai fazer com que o sistema sobreviva dando poder a figuras que não têm representatividade política nem legitimidade. E não vai oferecer saída real dessa situação de crise econômica e de corrupção sistêmica.

As propostas apresentadas por quem impulsiona o impeachment, e pelo próprio Michel Temer, que é um inimigo na trincheira do governo, são para aprofundar esse modelo. A Agenda Temer propõe flexibilização de direitos trabalhistas, desvinculação das receitas orçamentárias que são constitucionalmente destinadas a saúde e educação…
Ou seja, é um modelo que só vai piorar a situação do povo.

Não dá para dizer que não haja mobilização popular em torno do impeachment…

Há setores indignados com o governo por diversas razões. Alguns querem o impeachment, em especial os que se alinham às propostas do PSDB e da Agenda Temer, que reforçam um modelo econômico perverso.

O grande debate que precisamos fazer agora é sobre qual é a saída para a crise. Quais as medidas econômicas que o governo, seja este ou outro, deve tomar para que o país não afunde no desemprego, na recessão, na inflação e na destruição dos serviços públicos.

Não é improvável que Dilma renuncie e convoque eleições gerais?

Agora, eu acho. [Há pouco mais de um mês] Quando essa proposta, a situação política era muito mais grave e situação da presidente, mais frágil. A possibilidade de o impeachment ter um desfecho desfavorável a ela era muito maior do que agora.

Como vê o cenário atual?

Dilma conseguiu reverter parcialmente a instabilidade total que havia no final de 2015, e a situação de Eduardo Cunha está mais difícil, sendo sua queda iminente.

A troca do [Joaquim] Levy, [então ministro da Fazenda] foi uma tentativa de Dilma de sinalizar aos movimentos sindicais que está escutando o que eles pedem, mas não mudou nada. Ao contrário, mostrou que sua política econômica e seu ajuste é, na verdade, da Dilma e do governo. Essa política que sacrifica os debaixo e protege os de cima não tem condições de ser defendida por nenhum movimento sindical, popular ou de esquerda.

Mas não acho que essa situação de semiestabilidade vá se manter. Vai piorar.

A deterioração da situação econômica deve continuar, por isso o debate sobre como sair da crise é mais necessário do que nunca.

Como avalia a proposta, encabeçada pela ex-senadora Marina Silva, de cassação da chama Dilma-Temer por irregularidades na campanha?

O que precisamos é rediscutir o funcionamento do sistema político brasileiro. Não adianta só mudar Executivo. O Congresso Nacional está contaminado pelas mesmas indecências permitidas pela chapa Dilma-Temer: o abuso do poder econômico, as distorções proporcionadas pelo sistema eleitora, que favorece candidatos e partidos financiados pelas grandes empresas e empreiteiras corruptas…

Inclusive o PSOL é o único partido que elegeu deputados sem o dinheiro das empreiteiras. Nosso estatuto proíbe isso desde a fundação do partido em 2004.

Não acho que a solução para o país passe simplesmente pela cassação da chapa Dilma-Temer, por essa remoção cirúrgica. Mas, sim, por uma mudança profunda na estrutura do sistema como um todo. Discutir o conjunto do funcionamento das instituições, o sistema político, a lógica de castas partidárias que se apropriam do sistema e do dinheiro público em proveito próprio e de seus financiadores.

Isso só será viável se essa ideia de mudança profunda e estrutural se disseminar enquanto vontade popular.

Como?

O elemento fundamental é o povo se apropriar da política. Tirarem a política das mãos das castas partidárias e dos acordos de bastidores.

Precisamos no Brasil de um Junho de 2013 com um programa, uma proposta, uma direção clara. Que programa e que proposta são estes? Eu posso apresentar as minhas ideias e as do meu partido, mas elas têm de ser construídas neste processo.

É tirar o poder econômico do controle dos bancos e do mercado financeiro. É fazer uma profunda mudança na estrutura tributária do país, acabando com os benefícios que mantém privilégios para grandes especuladores e multinacionais, aliviando a tributação sobre as classes trabalhadora e média. É distribuir renda real, e não apenas bordas de um bolo cujo miolo nunca foi mexido.

Isso nunca será obra das elites políticas e econômicas do país. Passa, antes de tudo, pela mobilização popular.

Por que o PSOL não participa das mobilizações contra nem a favor do impeachment?

O PSOL não se alinha com a oposição de direita, que é quem está patrocinando este impeachment. E também não serve de linha auxiliar do PT ou do governo. Então, quando há mobilizações independentes do governo, contra o impeachment, nós participamos.

Existe um racha no partido sobre essa questão?

De forma alguma. Nenhum partido consegue chegar a consensos a não ser quando há coronéis que ditam a linha. O PSOL não tem coronel e não tem chefe. Tem uma variedade muito rica de vertentes da esquerda socialista, onde o debate político floresce. Há um acordo no partido que é a necessidade de se construir um terceiro campo na política nacional. E é ele que nos permite enfrentar o governo com tranquilidade, sem fazer linha auxiliar ao PT, e propor um novo caminho: uma esquerda coerente, autêntica, que não esteja presa às estruturas de um sistema político viciado. Este acordo faz com que tenhamos grande unidade interna ao mesmo tempo em que há debates, que são salutares e necessários para que se possa chegar a novos consensos.

Todo seu discurso é de enfrentamento do PT ao mesmo tempo em que você é filha de uma figura história do partido. Como fica a relação familiar nessa batalha política?

Minha relação com meu pai é absolutamente normal, de filha e pai que se amam e se respeitam. Ele também tem muitas críticas ao PT e ao governo. Mas independente da postura política que ele assuma, isso não interfere na minha relação familiar nem na minha militância política. Temos muitas ideias em comum, mas tantas outras bastante divergentes e tratamos disso com muito respeito dentro da família.

Pretende disputar as eleições municipais de 2016 ou a corrida presidencial de 2018?

Vou disputar as eleições municipais em Porto Alegre (RS). Tenho muita vontade de ser prefeita para poder mostrar que é possível fazer diferente. Que o que a gente fala em relação às mudanças que são necessárias para o país, mesmo no âmbito restrito de uma prefeitura, é possível dar exemplos importantes.