Luciana Genro

Do apagão do futebol ao apagão da política: o Sistema é o mesmo

12 de julho de 2014 21h39

Por Luciana Genro

O desastre da Seleção Brasileira na Copa do Mundo pode servir a uma causa nobre: é a hora de democratizar a CBF e dar adeus a Marin e seus amigos. Agora todos vão debater sobre o que, afinal, aconteceu. Foi um apagão? Um momento excepcional ou uma expressão de problemas estruturais? Resposta do jogador Paulo André, líder do Bom Senso FC: “O buraco é mais embaixo”.

A direção da CBF é uma máfia composta por homens que pensam no futebol apenas como negócio e promovem tenebrosas transações. São protegidos pelo Ministério dos Esportes que não faz nada pelo Esporte e cujas ações irregulares já foram denunciadas inúmeras vezes. A corrupção corre solta, vai desde a venda dos jogadores, dos ingressos, passa pelos programas do Ministério dos Esportes, até o superfaturamento das obras nos estádios. Estádios que custaram bilhões e, segundo Dilma, só abrigam a “elite branca” do país.

Os clubes, quase falidos, pedem perdão das dívidas tributárias e o governo acena com um sim, numa verdadeira irresponsabilidade fiscal. Ao mesmo tempo, muitos dos dirigentes dos clubes endividados estão milionários. Uma verdadeira casta que enriquece com o futebol. E ela não faz parte da torcida, faz apenas grandes negócios, sonega impostos, não paga dívidas trabalhistas e lava dinheiro com a compra e venda de atletas.

Alguns poucos jogadores ganham milhões, mas a grande maioria ganha uma miséria e, às vezes, nem recebe o salário. Não há incentivo para o futebol de base e nem para os craques ficarem no Brasil. O Bom Senso FC, a verdadeira Seleção Brasileira, tem denunciado e apresentado propostas que têm sido ignoradas pelos dirigentes e pelo governo.
A situação do nosso futebol ilustra alguns dos problemas estruturais do sistema político brasileiro. Vivemos o apagão da política? Ou, ainda mais do que isso, é o Sistema que está todo errado?

As manifestações de junho do ano passado geraram promessas em meio ao susto das elites dirigentes diante da força da multidão. Promessas engavetadas e que agora voltam à baila pela boca dos candidatados, como se eles não fossem responsáveis pela situação atual. Aécio, Eduardo Campos e Dilma, os três candidatos do sistema que comanda o Brasil, insistem em fazer de conta que não têm responsabilidade nenhuma no surgimento, no agravamento ou na continuidade das mazelas do Brasil.

Depois da derrota vexatória do Brasil para a Alemanha a presidente Dilma falou da necessidade de reformar o futebol, assim como já havia falado em meio às manifestações de junho de 2013, sem levar adiante, do plebiscito para a reforma política. Fala e vai falar mais, na campanha, que o Brasil precisa disto ou daquilo, como se o PT não fosse governo há 12 anos nem o responsável por ter dado estabilidade à dominação burguesa durante todos estes anos! A única resposta concreta aos protestos e à insatisfação do povo são as promessas vazias. E para quem não acredita nelas, a repressão da polícia e a prisão de ativistas.

A situação econômica não é diferente. Os bancos lucraram R$ 70 bilhões no ano passado e também são verdadeiras máfias, parasitas que nada produzem e só sugam dinheiro do povo, seja através dos juros da dívida pública, seja através dos juros cobrados dos correntistas. Com o BNDES o governo concede generosos empréstimos a juros subsidiados para as empreiteiras e grandes empresas. As primeiras superfaturam obras que até desmoronam, como em BH, e as empresas quebram e demitem, como o império de Eike Batista – um escândalo de proporções trilionárias – ou o JBS/Friboi, que acaba de anunciar demissões em São Paulo depois de ser uma das que mais recebeu dinheiro do BNDES.

O anunciado fim da miséria e saída de milhões da pobreza é uma grande falácia. Basta andar pelas nossas cidades para perceber. Tem gente miserável jogada nas calçadas e tem gente pobre para todo o lado que se olhe. Mas para o governo basta uma renda mensal de R$ 70,00 por mês para sair da miséria e de R$ 240 para sair da pobreza. Valores que, somados, talvez não cubram um único jantar dos burocratas que fazem estes cálculos.

O aumento da violência é resultado direto da desigualdade social e do abismo que separa as castas que vivem no luxo da maioria que batalha a sobrevivência. A resposta dos governos é o encarceramento em massa da juventude pobre e negra que lota os presídios, verdadeiras masmorras e escolas do crime. A dita guerra às drogas é uma verdadeira guerra aos pobres que discrimina e mata Amarildos, Cláudias e tantos anônimos. Neste sistema prospera até a homofobia, uma deformação de caráter provocada por uma sociedade doente. Na sombra de um PT que se entregou para as oligarquias de Sarney, Collor, Maluf, etc, cresce a direita e o fundamentalismo religioso, penal e econômico.

Na Europa, onde a crise joga milhões no desemprego, até o nazismo renasce. Mas também se fortalece uma esquerda coerente. Os exemplos mais avançados são a Grécia e a Espanha, dois dos países mais atingidos pela crise e nos quais, através da Syriza e do Podemos, uma alternativa de esquerda prospera inclusive eleitoralmente. Não precisamos chegar neste nível de crise para que a esquerda coerente também ganhe peso de massas no Brasil.

Nossa proposta tem sido classificada como radical. Sim, somos radicais na medida em que o Brasil necessita de mudanças radicais, que desestruturem as máfias que comandam a política, o futebol, a economia. Nossa proposta é mais que radical. É subversiva. Queremos subverter esta verdadeira desordem que possibilita que a política, a economia e até o futebol sejam dominados por estas variadas máfias e seus sócios, os bancos , as empreiteiras, os “mercados”. Queremos enfrentar e derrotar este Sistema.

Lutamos por uma democracia real, na qual os direitos do povo não sejam objeto de negociatas a serviço do grande capital. Não é encarcerando em prisões imundas que vamos salvar nossos jovens do narcotráfico, mas sim oferecendo oportunidades e futuro. Educação, saúde e transporte não podem ser tratados como mercadorias. Devem ser assegurados como direitos de todos. Ninguém deveria ter que pagar um plano de saúde, ou morrer numa fila do SUS; pagar uma escola particular ou estudar numa caindo aos pedaços; ou ainda deixar de pegar um ônibus por falta de dinheiro. E, ao mesmo tempo, arcar com uma alta carga tributária da qual o retorno que recebe é totalmente desproporcional ao que é pago.

É possível garantir estes direitos, desde que se derrube o balcão de negócios que domina a política e se enfrente os interesses das minorias que se beneficiam deste sistema. Temos que virar a mesa! É possível conquistar mais direitos se tivermos coragem e coerência. Queremos a oportunidade de mostrar ao povo brasileiro que temos esta coragem e coerência, assim como tivemos lá atrás, quando rompemos com o governo para seguir lutando por nossas idéias e bandeiras e seguir construindo uma esquerda digna deste nome.

Além de radicais, alguns também dizem que somos utópicos. E somos. Entendemos a utopia como as possibilidades concretas que estão latentes na realidade e ainda não se desenvolveram plenamente. A chamamos de utopia concreta. Esta utopia concreta nos leva a seguir caminhando, mesmo quando o Sistema conspira contra nós. Acreditamos que através da ação coletiva podemos contribuir para que a utopia se realize.