Luciana Genro

Em entrevista à Folha, Luciana Genro apresenta pontos que nortearão campanha

24 de junho de 2014 13h48

Vídeo e transcrição na íntegra — Em entrevista à Folha de S. Paulo, Luciana Genro apresenta pontos que nortearão sua candidatura à presidência do Brasil pelo PSOL.

A pré-candidata reafirma a necessidade de uma candidatura que vocalize as demandas de junho e a indignação do povo brasileiro, defenda uma democracia real, onde os bancos e os milionários paguem mais impostos, e sua economia seja voltada para o conjunto do país e não para os interesses do capital financeiro, como tem sido hoje.

Defende também uma auditoria da dívida pública brasileira, na qual os bancos são os maiores credores e reafirmou o compromisso do PSOL com pautas como a legalização do aborto e das drogas.


Confira a transcrição:

O PSOL elegeu três deputados federais em 2010. Quantos elegerá em 2014?
Temos o grande desafio de no mínimo dobrar a nossa bancada. E buscar ir além disso, triplicar a bancada.

Os três deputados federais do PSOL são conhecidos. Ivan Valente, de São Paulo, e Jean Wyllys e Chico Alencar, do Rio. A expectativa é que venham deputados federais eleitos pelo PSOL de quais Estados?
Com certeza teremos deputado eleito no Pará. No Distrito Federal, há uma possibilidade real porque temos o Toninho com boa projeção como candidato a governador.

O PSOL tem um senador: Randolfe Rodrigues, pelo Amapá. Há algum candidato a senador competitivo pelo PSOL neste ano?
Quem sabe o Aldemário [Araújo Castro], aqui no Distrito Federal, já que tem uma polarização bem grande entre os candidatos do sistema. Mas é difícil. Senador, a gente sabe que o poder econômico pesa muito, assim como nas eleições majoritárias como um todo. E o PSOL tem uma definição muito clara de cumprimento do seu estatuto nas eleições, de não receber dinheiro de empreiteiras, nem de bancos, nem de empresas multinacionais. Não temos e nem queremos ter esse dinheiro que, aliás, é o que abastece a conta dos grandes partidos, do PT, do PSB, do PMDB, do PSDB. As mesmas empreiteiras que lucraram nas obras superfaturadas abastecem as contas dos grandes partidos. Nós não temos esse dinheiro, por isso a nossa luta é bem mais difícil. Também o tempo de televisão é muito injusto. Esse sistema político está organizado para manter no poder aqueles que estão no poder e não para possibilitar uma verdadeira democracia. Mas nós temos uma coisa que ninguém tem: uma militância que vai para a rua por ideal, que acredita nessa proposta que a gente vai apresentar.

Quando o PSOL surgiu, no início dos anos 2000, havia uma expectativa que a legenda ocupasse um espaço da esquerda que no passado havia sido do PT. Passaram-se dez anos. O PSOL ainda é um partido muito modesto. O PT foi fundado em 1980 e em 1990 já estava com uma robustez maior do que a do PSOL hoje. Por que isso aconteceu?
O PSOL se formou em um momento onde havia uma força do PT muito grande, diferente da época em que o PT se formou, em que havia um ascenso do movimento operário, havia uma luta contra a ditadura militar.
O PSOL vem em um momento muito mais difícil, um momento de refluxo depois daquela década do Fernando Henrique [Cardoso], onde as lutas sociais tiveram um refluxo e, ao mesmo tempo, o PT estava na crista da onda. Nós tivemos uma ousadia muito grande de romper naquele momento. Posso dizer que me orgulho de ter sido expulsa do PT pelo José Dirceu, que hoje está preso.
Acredito que o PSOL agora, a partir de 2013, entrou em uma nova fase. Por quê? Junho de 2013 foi um marco na conjuntura política no país. Eclodiu um movimento de massas que teve seu epicentro na juventude, mas que depois se desdobrou em protestos, em greves de categorias organizadas, como os metroviários de São Paulo, outras não organizadas que se organizaram, como os garis do Rio de Janeiro. Nós entramos em uma nova fase, onde o movimento de massas se desprendeu do PT também e se desprendeu dessas velhas direções. Nós queremos ajudar a organizar essa indignação que está latente nas pessoas e no povo de um modo geral.

Como será financiada sua campanha a presidente da República?
Principalmente com recursos do Fundo Partidário e com doações. Nós pretendemos fazer uma plataforma de doações na internet, de doações de pessoas físicas, e tentar fazer um movimento onde as pessoas se sintam parte da construção de uma candidatura que não está capturada pelo poder econômico.

Qual é o orçamento previsto para a sua candidatura?
Nem temos esse número ainda. Não sabemos o quanto essa plataforma de internet pode captar.

Como deveria ser a divisão do tempo de TV entre os partidos na eleição?
Em primeiro lugar, acabando com as coligações proporcionais que viabilizam esse balcão de negócios. E também fazendo com que o sistema político como um todo seja modificado. Se nós tivermos campanhas eleitorais que não sejam regidas pela lógica do marketing político, onde marqueteiros pagos a peso de ouro transformam os candidatos em produtos, que vão para a televisão vender uma proposta que os marqueteiros identificaram como a mais popular. Se nós tivermos uma campanha eleitoral mais baseada nos debates, na espontaneidade dos candidatos de falar das suas propostas, com certeza diminuiríamos esse leque de partidos fisiológicos.

Teria que proibir a participação de marketing? Como se faria isso?
Na prática se faz isso estabelecendo um limite para os gastos de campanha, um limite baixo. Nós defendemos o financiamento público. Queremos acabar com o financiamento privado das campanhas, mas também não adianta ter um financiamento público com uma desigualdade muito grande.

Pessoas físicas também não poderiam doar?
Pessoas físicas, a gente acha que é bom, é importante, até porque é uma forma de as pessoas se sentirem parte da campanha.

Na sua campanha, a sra. pretende captar doações também de pessoas jurídicas, visto que isso é hoje legal?
Olha, a gente não tem relação com empresas.

Mas se uma empresa fizer uma doação?
Se uma empresa quiser fazer uma doação nós vamos avaliar na nossa coordenação de campanha. Desde que não se enquadre nas proibições do nosso estatuto, que são empreiteiras, bancos e multinacionais.

O PSOL em São Paulo planejava lançar como candidato a governador o professor Vladimir Safatle, que acabou desistindo do projeto e fez duras críticas à direção do partido. O que aconteceu?
O mais importante é que o Safatle, apesar dos percalços nesse processo, continua sendo do PSOL e disposto a colaborar na nossa campanha. Ele é uma figura que tem uma projeção muito importante na intelectualidade, dentro da universidade, como professor e como alguém que buscou também vocalizar nas suas intervenções públicas as vozes de junho. Ele poderia ter sido um ótimo candidato, infelizmente houve uma dificuldade nas negociações. Nesse momento, acredito que é importante nós olharmos para frente. E, olhando para frente, nós temos o Safatle ao nosso lado, temos o [Gilberto] Maringoni como um ótimo candidato e conseguimos constituir a aliança com o PSTU no Estado de São Paulo.

Para quem olha de fora um partido ideológico de esquerda, como é o PSOL, pode ficar com a impressão de que ele é mais fragmentado do que seria aconselhável. Essa impressão é correta?
Não, não é correta. Nós tivemos uma convenção que escolheu o meu nome por unanimidade como candidata à Presidência. E votou diretrizes programáticas também por unanimidade. A esquerda tem uma tradição de debates políticos, agrupamentos políticos com histórias próprias.

A sra. foi escolhida pelo PSOL para ser candidata a presidente neste domingo, 22 de junho, e até outro dia o pré-candidato que poderia vir a ser escolhido era Randolfe Rodrigues, o senador do PSOL do Amapá. O que aconteceu?
O Randolfe avaliou, e essa foi uma decisão individual dele, que ele deveria estar mais envolvido com os assuntos do Amapá. No Amapá há uma polarização muito grande das forças progressistas contra as forças oligárquicas representadas pelo [José] Sarney. Ele identificou que nesse afastamento dele do Amapá e vinda para a candidatura nacional houve um crescimento das forças oligárquicas, e que ele precisava estar lá, até porque nós temos a Prefeitura de Macapá, com o Clécio [Luis], e é uma experiência muito importante para o PSOL, porque é a única capital que o PSOL governa. Não poderíamos descuidar desse trabalho lá e dessa luta política contra o Sarney.

Qual a política de alianças do PSOL para esta eleição?
É a frente de esquerda. Buscamos aliança com o PSTU e com o PCB. Infelizmente, no plano nacional não conseguimos constituir essa aliança. O PSTU decidiu lançar candidatura própria. O PCB, também. Acho uma perda para a esquerda socialista de um modo geral, mas conseguimos fazer alianças em alguns Estados importantes, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Brasília.

No caso do PSOL, quem será seu candidato a vice-presidente?
O companheiro Jorge Paz, membro da Executiva da Apeoesp, o sindicato dos professores do Estado de São Paulo. É professor concursado há muitas décadas. Tem uma história de luta contra a ditadura militar, foi perseguido, militou na clandestinidade. Ele resgata uma história da tradição da esquerda socialista no Brasil.

A Lei Eleitoral no Brasil determina que emissoras de rádio e de televisão que organizam debates eleitorais convidem todos os candidatos de partidos com representantes eleitos na Câmara. Algumas emissoras pretendem negociar com os candidatos com menos pontuação nas pesquisas que não participem em troca de entrevistas. Qual sua posição a respeito disso?
Não vamos abrir mão do nosso direito de estar nos debates. Queremos estar nos debates justamente para fazer esse confronto direto com a Dilma, com o Aécio, com o Eduardo Campos, botar o dedo na ferida, dizer as coisas que eles não vão dizer, as verdades que eles não vão dizer e dizer aquilo que as pessoas querem dizer para eles e não têm a oportunidade de dizer.

Dá um exemplo do que a sra. diria?
Eu diria, por exemplo, que eles três se confrontam com candidaturas diferentes, mas têm em comum a decisão política de manter este sistema político e este sistema econômico. Eles têm a convicção de que será necessário, a partir de 2015, fazer um ajuste que significa cortes nas áreas sociais, que significa alta da taxa de juros, aumento de tarifas públicas, repressão aos movimentos sociais. Estão unidos na defesa do sistema e desta democracia racionada que nós temos no Brasil. Nós queremos apresentar a nossa proposta, que é o novo, uma democracia real e um modelo econômico que faça com que os bancos paguem mais impostos, com que os milionários paguem mais impostos, que desonere a classe média e a classe trabalhadora e que volte a economia para os interesses do conjunto do país, e não para os interesses para o capital financeiro, como tem sido hoje.

O senador Randolfe Rodrigues fez algumas críticas a respeito de como o seu partido, o PSOL, encaminhou as críticas a respeito da Copa do Mundo. Ele diz que o partido precisaria reavaliar a sua atuação. A sra. concorda com as críticas apresentadas por nesse aspecto?
Eu acho que o Randolfe se expressou mal nessa crítica…

Por quê?
Porque a crítica que o partido faz à Copa não é à Copa enquanto um espetáculo de futebol. O povo brasileiro ama futebol. O que nós criticamos, e o Randolfe também critica, é a utilização da Copa como um grande negócio. A utilização do amor do brasileiro ao futebol para que as empreiteiras fizessem grandes negócios no país, com a construção de estádios que foram obras superfaturadas, em obras de mobilidade urbana que não aconteceram ou que, se aconteceram, foram também superfaturadas. Uma lógica de exclusão social que as obras da Copa geraram, e que o movimento dos trabalhadores sem-teto em São Paulo, o MTST, tem denunciado. Alta dos aluguéis, pessoas que vivem no entorno das obras da Copa expulsas dessas regiões, a especulação imobiliária, uma cidade voltada para o negócio e não para o bem-estar das pessoas. É nesse aspecto a nossa crítica à Copa e a nossa grande bandeira nesse processo foi “na Copa vai ter luta”. E teve muita luta. Teve muita mobilização e os trabalhadores aproveitaram esse momento da Copa para pautar as suas reivindicações.

Uma vez a Copa tendo começado, não se viram manifestações de massa. Não há protestos generalizados. Por que isso acontece?
Porque não é mais o momento do protesto. Durante os jogos as pessoas querem assistir ao futebol. Isso é natural.

O PSOL não vai tentar comandar um protesto de massa nesse período?
Se houver uma necessidade, ocorrer algum processo político real. O MTST, por exemplo, pautou a possibilidade de fazer um protesto no dia da abertura da Copa se as suas reivindicações não fossem atendidas e eles tiveram uma grande vitória, justamente porque ousaram desafiar essa proibição de ter mobilizações durante os jogos da Copa. Mas agora o povo está envolvido com o futebol. Eu acho que nós tivemos um momento importante. Poderemos vir a ter outros momentos. A pauta, por exemplo, dos metroviários em São Paulo não está resolvida: as 42 demissões que o [Geraldo] Alckmin fez de dirigentes e de trabalhadores do Metrô foi criminosa. É possível que haja processos reais de categorias e de grupos sociais que queiram voltar a se colocar, mas não adianta a gente ficar inventando protesto em um momento que o povo está voltado para assistir aos jogos.

Ou seja, não é momento de o partido fazer um chamamento para manifestações genéricas contra o sistema nesse momento?
Contra a Copa, nesse momento, não é o momento de se fazer manifestações genéricas. Mas o partido estará presente, apoiará qualquer movimento que surja de categorias organizadas, de lutas concretas que sejam necessárias de serem pautadas nesse momento da Copa. Não significa que está proibida a manifestação. Muito pelo contrário. O que nós não vamos fazer é inventar processos que não sejam reais, que não venham de fato de uma necessidade objetiva de um setor, como os sem-teto ou os metroviários.

As jornadas de junho de 2013 ensejaram uma possibilidade para grupos políticos de oposição avançarem e eventualmente crescerem no processo eleitoral. As pesquisas de intenção de voto, contudo, não indicam que partidos claramente de oposição tenham se beneficiado. Por que isso aconteceu?
As pesquisas não mostram também porque a grande mídia não mostra. A cobertura da grande mídia, tanto a televisiva como a jornalística, é focada nos três candidatos do sistema: Dilma, Aécio e Eduardo Campos. Quando Randolfe era candidato, pouquíssimo apareceu. O Zé Maria [candidato do PSTU] jamais aparece. Mauro Iasi [do PCB], muito menos. Com o início do programa eleitoral, embora essa diferença de tempo também nos prejudique muito, pelo menos as pessoas vão ficar sabendo que existe uma proposta alternativa e que o PSOL está se propondo a vocalizar essas demandas de junho que não foram resolvidas.

Mas, no passado, candidaturas muito pequenas não tinham cobertura e foram aos poucos crescendo. Não é o que acontece agora. É só por causa da mídia ou há também alguma desconexão das propostas do seu partido com o que pedem os eleitores?
Eu acho que tem uma desconexão dos grandes partidos com os anseios do povo. Essa desconexão é enorme por isso o número de indecisos é muito grande. A Dilma cai, a aprovação do governo cai e os outros dois candidatos não crescem. Há um espaço político a ser ocupado. Se me derem 30 segundos todos os dias no Jornal Nacional eu tenho certeza que o PSOL consegue ocupar esse espaço.

Se a sra. foi eleita, como o PSOL vai tratar o tema da interrupção de gravidez?
A gente vive uma hipocrisia nessa questão. O aborto é uma realidade. Eu fui mãe com 17 anos. Sei como é difícil ser mãe. Tive o apoio do meu companheiro na época, do pai do meu filho, tive o apoio da minha família. Mas há mulheres e meninas que não têm esse apoio, não têm esse respaldo.
Ser mãe é um projeto que deve ser escolhido pela mulher, e não imposto. O aborto ocorre, só que as mulheres que têm condições de pagar fazem o aborto com toda a segurança. As que não têm condições de pagar recorrem a aborteiros de fundo de quintal, a agulhas de tricô, medicamentos, depois sofrem mutilações nesse processo, vão para o SUS e, muitas vezes, são discriminadas por causa do preconceito que existe contra a mulher que provocou um aborto.
O Uruguai legalizou o aborto e desde então nenhuma mulher morreu por causa de aborto, e diminuíram os números de abortos. Por quê? Porque se pode discutir abertamente o problema e dar orientação para a mulher que engravida involuntariamente. Obviamente que isso tem que vir acompanhado de uma política de prevenção para que uma gravidez indesejada não aconteça.
É um tema polêmico, porque se confunde muitas vezes a defesa da descriminalização do aborto com a ideia de que o aborto é uma coisa boa, de que o aborto deve ser usado como um método contraceptivo. Quando aparece simplesmente “a favor do aborto”, é horrível. Ninguém é a favor do aborto. Nós somos a favor das mulheres.

Por que a sra. acha que o Brasil dá a impressão, pelo menos em época eleitoral, de que esse debate ainda não amadureceu? O Brasil é conservador?
O Brasil tem uma população ainda em um setor muito conservador, setores da igreja colaboram muito nesse conservadorismo, mas eu vejo que isso está mudando. Vejo que há uma juventude que está respirando novos ares e que é preciso encarar determinados temas sem preconceito. Ter dúvidas sobre a justeza de se descriminalizar o aborto ou as drogas é legítimo, porque são temas que mexem muito com as pessoas, com as suas emoções, mas a gente precisa encará-los sem preconceito.

Qual a posição do PSOL sobre a legalização das drogas, ou pelo menos das drogas leves?
O PSOL tem uma posição muito categórica de denúncia desta guerra às drogas. A London School of Economics acabou de divulgar um estudo que confirmou que a guerra às drogas fracassou, não conseguiu reduzir o consumo e só gerou violência e corrupção.

O PSOL é a favor da descriminalização do consumo de maconha? E de outras drogas?
Nós achamos que o primeiro passo, no sentido de se acabar com essa guerra às drogas, que na verdade se transformou em guerra aos pobres, é a descriminalização da maconha.
A maconha causa tanto mal quanto o álcool e o cigarro e deve ser tratada no mesmo patamar. O projeto do deputado Jean Wyllys é muito coerente nesse aspecto porque não propõe a liberação geral, não propõe uma apologia ao uso da maconha, mas propõe a regulamentação para que aqueles que querem fazer o uso recreativo possam fazê-lo. Para que se discutam as consequências desse uso para que não se transforme em uma dependência, e para que o próprio usuário da maconha não seja obrigado a entrar em contato com o traficante que vai, certamente, lhe oferecer outras drogas muito mais pesadas e lucrativas para o tráfico, como o crack.
Separar a maconha do conjunto das drogas é o primeiro passo para que a gente possa enfrentar esse problema da criminalização. A morte do Amarildo, do [dançarino] DG, foram resultados dessa criminalização da pobreza que a guerra às drogas propicia.

A experiência do Uruguai é positiva?
Com certeza. Acho que hoje, dos presidentes da América Latina, o [Pepe] Mujica nos dá um grande exemplo nesse aspecto. O exemplo da descriminalização da maconha possibilita que se possa demonstrar como isso é favorável à saúde e ao fim do narcotráfico. Embora só a descriminalização da maconha não seja suficiente para acabar com o narcotráfico, é um golpe pesado no narcotráfico.

Economia. O Brasil já tem há mais de uma década um sistema de metas de inflação. Atualmente a taxa é de 4,5% ao ano. O PSOL considera positivo esse sistema e acha que 4,5% ao ano é uma meta que a economia brasileira pode alcançar no ano de 2015?
Para nós o debate não deve ser feito sob esse ângulo. Achamos que é preciso discutir as bases da lógica econômica do país. Nesse aspecto, o primeiro tema que nós queremos pautar é o da dívida pública, porque hoje mais de 40% do Orçamento do país é destinado para pagar juros e amortização da dívida. São mais de R$ 90 bilhões de superávit primário que o Brasil fez, contando da União e dos Estados, que também estão estrangulados pelos acordos da dívida.

E a dívida pública deveria ser tratada como? Hoje é basicamente uma dívida interna.
Uma dívida interna onde os bancos são os maiores credores. Vamos fazer a auditoria da dívida, a exemplo do que ocorreu no Equador. O Equador conseguiu anular 75% da sua dívida com base nessa auditoria. No processo da auditoria, [vamos] suspender pagamento preservando os interesses de pequenos poupadores, preservando os interesses dos trabalhadores que têm seu dinheiro nos fundos de pensão, e buscar uma renegociação. E a Caderneta de Poupança é intocável.
Queremos acabar com a especulação. O que ocorre hoje é que os especuladores pegam dinheiro emprestado, por exemplo, nos Estados Unidos a juros baixíssimos e vêm aplicar nos títulos da dívida pública brasileira ganhando um monte nessa transação. Esse tipo de negócio não interessa ao país.

Quando a sra. fala em proteger os pequenos aplicadores e os fundos de pensão, no caso dos pequenos aplicadores, qual seria a faixa de corte para saber quem é pequeno e quem não é?
Nós não chegamos nesse grau de detalhamento…

Mais ou menos?
A auditoria cidadã da dívida tem estudos que demonstram que mais de 50% dos títulos da dívida estão nas mãos dos bancos, que são eles os donos. Esse seria o nosso grande alvo. Aliás, o grande alvo do PSOL, no governo do Brasil, seria atacar os interesses dos bancos. Não é casual que em um ano de crise econômica, como foi o ano passado, eles lucraram mais de R$ 70 bilhões.
Queremos pautar também o problema da tributação. O sistema tributário brasileiro é extremamente injusto. Concentra a tributação no consumo e no salário e é extremamente fraco na tributação das grandes fortunas e das grandes propriedades. Nós queremos que os bancos paguem mais impostos, que as grandes empresas paguem mais impostos, que os especuladores sejam banidos do país.
Evidente que isso não é fácil e que esse processo vai demandar um enfrentamento político. Por isso precisamos ter o apoio popular. Essa é a grande necessidade, a mobilização do povo para que os interesses de 1% da população, mas que são interesses extremamente poderosos, possam ser atacados para que se beneficie os interesses de 99% da população que até hoje não têm sido contemplada pelo dinheiro público.

O Brasil privatizou várias empresas ao longo das últimas décadas. O PSOL defende a reestatização de algum setor que foi entregue à iniciativa privada?
Isso vai demandar nós chegarmos ao governo para avaliar a real situação. Tenho a impressão que grandes grupos econômicos que controlam áreas estratégicas iriam boicotar um governo do PSOL, iriam fazer de tudo para nos derrotar. Nós não poderíamos permitir que esses grupos econômicos tentassem nos derrotar utilizando-se desses recursos naturais ou dessas áreas estratégicas, como é a energia, por exemplo, como é o petróleo, como é o saneamento, como é a siderurgia. Então, à medida da necessidade haveria sim expropriações no sentido de garantir que o interesse público prevaleça.

Tem algum exemplo que seria mais evidente nesse caso?
As empresas de energia elétrica que foram privatizadas. Não sei como se comportariam essas empresas em um governo do PSOL. Se for necessário, elas terão que ser reestatizadas.

Do ponto de vista da análise clássica do espectro político, o governo do Partido dos Trabalhadores, que hoje comanda o país, faz um governo de centro, de centro-esquerda, de esquerda? Qual é a sua avaliação?
O governo do PT é um governo social-liberal, no sentido de que…

Explique.
…Carrega traços do projeto neoliberal quando faz privatizações, quando faz cortes nos gastos públicos, quando mantém a submissão do país ao mercado financeiro. E junto a isso faz alguns programas sociais.
Como houve um período de crescimento econômico que esteve relacionado à situação mundial, durante o governo Lula principalmente, o PT conseguiu fazer alguma distribuição de renda. Mas fez essa distribuição de renda sem atacar os interesses dos bancos, do agribusiness, das grandes empresas.

Nesse sentido é um governo de centro-direita?
Não gosto muito de rótulos. É um governo que fez alguma distribuição de renda com base no crescimento econômico, mas que não atacou os interesses dos privilegiados.
Nese momento em que começa uma crise econômica, os trabalhadores que foram parcialmente atendidos com programas como o Bolsa Família e o Prouni vão sofrer ataques, vão sofrer cortes. É a lógica do bolo que cresceu, deu para distribuir um pouquinho, e agora o bolo está diminuindo, vamos tirar de quem recebeu esse pouquinho que foi distribuído.

Mas o PT não fala que vai fazer isso…
Fala que não vai, mas os três principais candidatos têm essa definição de que é necessário um ajuste em 2015. O que é ajuste? É alta de tarifas públicas, alta de juros, cortes nos gastos públicos. Isso é consenso entre os economistas do establishment e quem é que vai pagar essa conta? Para nós do PSOL, quem tem que pagar essa conta é o 1%, os milionários, os bancos, os especuladores.

Quais seriam hoje, no mundo, governos que seriam exemplos de bons governos para o PSOL?
Nós não temos um modelo. Há experiências que temos que observar e reivindicar, como o caso do Mujica, por exemplo, nessas medidas de cunho de direitos civis. Temos o caso da Venezuela, por exemplo, no caso da democracia direta, referendo revogatório, valorização de plebiscitos. Temos o exemplo de Cuba no aspecto da saúde pública, dos serviços sociais. Cada um tem suas experiências que têm as suas qualidades, mas nós não queremos usá-las como modelo, porque nós queremos construir um modelo novo que não seja inclusive obra do PSOL, mas um modelo construído pelo próprio povo.

Podemos chamar Cuba hoje de um país democrático?
Não. Não vejo Cuba como um país democrático. Vejo que Cuba construiu a sua experiência, tem aspectos muito positivos em avanços sociais, mas um país que não tem liberdade de organização partidária eu não chamaria de um país democrático.
Nós acreditamos que a proposta socialista só é verdadeiramente socialista quando há liberdade. Socialismo não é apenas a estatização dos meios de produção. É uma socialização do poder, é o poder popular que a gente quer construir.

É provável que a eleição presidencial afunile para duas ou três candidaturas, a do PT, Dilma Rousseff, PSDB, Aécio Neves e Eduardo Campos, do PSB. Na hipótese de haver a polarização entre PT e PSDB, como se posicionaria o PSOL em um eventual segundo turno?
Não estamos discutindo isso nesse momento. O importante agora é mostrar que, mesmo com as suas eventuais diferenças, os dois, ou os três, representam o sistema que nós queremos derrotar.

É possível diferenciá-los?
Sim, eles são diferentes. Basta ver, por exemplo, o tratamento que o Alckmin deu à greve dos metroviários com demissões e o diálogo que foi estabelecido com o MTST, que foi vitorioso na sua luta na ocupação Copa do Povo. Agora, isso foi resultado do quê? De uma benevolência do governo Dilma? Não, foi resultado da luta do MTST, da pressão exercida pelos milhares dos trabalhadores sem-teto que tomaram as ruas de São Paulo, mas a diferença no tratamento é evidente. Agora, isso não significa que o PT seja uma expressão da esquerda, muito pelo contrário. O PT hoje é uma expressão de uma esquerda que se rendeu e que abandonou as suas bandeiras.

Do seu ponto de vista e do ponto de vista do PSOL, se vencer o PSDB, haveria retrocesso?
Haveria retrocesso com certeza, mais privatizações, mais ataques, mas isso não significa que o PSOL apoiaria o PT no segundo turno. Nós não vamos discutir segundo turno agora. Tu me chamas aqui depois do resultado, quem sabe nós não estaremos no segundo turno? Nada é impossível de mudar, já dizia Bertold Brecht. Nada deve parecer impossível de mudar. Depois do que aconteceu em junho de 2013 no Brasil, tudo é possível.

Nos meses que precederam a Copa do Mundo no Brasil havia muito ceticismo, inclusive do próprio governo e dos organizadores, a respeito da capacidade de realizar o evento e fazer com que ele funcionasse relativamente bem, e de fato foi o que aconteceu. Surpreendeu o fato de a Copa se dar de maneira suave até e bem-sucedida em vários aspectos?
Não me surpreendeu. Nós não apostávamos no quanto pior melhor. Acho que os brasileiros todos estavam torcendo, receosos por causa das filas, dos atrasos, mas a gente não apostava no quanto pior melhor. A gente queria que a Copa fosse um espetáculo de futebol. Agora, o que nós não aceitamos é essa utilização da Copa para fins eleitorais, para os negócios das grandes empreiteiras.

Deu mais certo do que parece que iria dar?
Eu acho que a expectativa era tão ruim que ao ter saído relativamente [bem] as pessoas se surpreenderam.

Teve um episódio muito noticiado no primeiro jogo da Copa do Mundo, no Itaquerão, em São Paulo, que foi a vaia e a ofensa recebida pela presidente da República. Foi só a elite que ofendeu a presidente ou esse tipo de irritação é mais amplo?
Tenho certeza que a irritação é mais ampla. Até as pesquisas mostram isso. Eram pessoas com mais poder aquisitivo, mas essas pessoas com mais poder aquisitivo são as mesmas que há dez anos foram para as ruas comemorar a vitória do Lula. O PT se fortaleceu e cresceu muito, no seu início, na classe operária e em setores médios, intelectualizados, universitários. E está perdendo estes setores. É isso que os apavora [ao PT] porque esse setor que é formador de opinião está indignado com o PT e pode ir para a direita.
Atrás de uma direita que se fortalece tem uma esquerda envergonhada. Uma esquerda que traiu os seus princípios. Nós vamos disputar esses setores, assim como vamos disputar a classe trabalhadora e os mais pobres. Vamos disputar os setores médios que estão sendo sacrificados nessa tributação excessiva sobre o salário, sobre o consumo, e que querem também ter acesso a serviços públicos de qualidade para não precisar pagar plano de saúde, não precisar colocar seu filho em escola particular.

O slogan, ou a palavra de ordem da sua campanha já está definido? Se sim, qual será?
Ainda não está definido, mas queremos trabalhar a ideia da coerência. Porque a história do PSOL é uma história de coerência, não só a minha pessoal por ter, como deputada, naquele momento difícil, me rebelado, digamos assim, junto com a Heloísa, o Babá, e ter enfrentado o governo Lula no auge da sua popularidade para defender as bandeiras que o PT havia abandonado. Mas porque o PSOL nasceu desse processo, de luta pela coerência da política. Essa ideia da coerência com certeza estará presente na nossa ideia-força de campanha.

Fonte: Folha de S. Paulo