Luciana Genro

Luciana Genro: “Às vezes, a política nos causa nojo”

20 de fevereiro de 2014 21h04

Fernanda Morena, Sul21

Luciana será vice na chapa encabeçada pelo oponente Randolfe Rodrigues: “Agora não é o momento de ressaltar as diferenças”. | Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

Luciana será vice na chapa encabeçada pelo oponente Randolfe Rodrigues: “Agora não é o momento de ressaltar as diferenças”. | Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

Ex-deputada federal e uma das fundadoras do PSOL, Luciana Genro é a pré-candidata à vice-presidência da chapa encabeçada pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). Em 2003, Luciana foi expulsa do PT ao lado de Heloísa Helena, Babá e João Fontes, os parlamentares que votaram contra a reforma da previdência. Chamados de “radicais” dentro do Partido dos Trabalhadores, os expulsos formaram o Partido Socialismo e Liberdade, uma legenda que Luciana diz ser “socialista não só no nome”.

Impossibilitada de concorrer no Rio Grande do Sul em função do seu pai, Tarso Genro, ser governador do estado, Luciana buscava ser a opção do PSOL no pleito nacional pela presidência. Acabou perdendo na convenção partidária em dezembro para Rodrigues, com quem travou fortes embates pela “diferente visão política”. No último dia 12, publicou uma carta aberta aos militantes do Partido dizendo que aceitava ser vice na chapa com Randolfe.

Em entrevista ao Sul21, a ex-deputada fala sobre sua visão para o Brasil, as mobilizações sociais, seu futuro na política e a decepção com Brasília: “às vezes, a política nos causa nojo”, lamenta.

Sul21-  Na convenção de dezembro, tu eras oposição ao Randolfe pela liderança da chapa.

Luciana – Sim. A gente fez um embate interno, político, a respeito da melhor tática pro Psol nessas eleições, até mesmo a respeito de questões estratégicas. Esse debate segue. E a minha presença na chapa é uma forma de compor as diferentes visões que existem dentro do partido. Elas não são visões antagônicas, mas são diferentes; diferem a respeito de qual a melhor forma de construir um partido de esquerda diante da situação política do Brasil — particularmente depois do que aconteceu em junho do ano passado, que é, para nós, um divisor de águas no que está ocorrendo na situação política.

Sul21- No que tu e o senador Randolfe mais discordam? Chega a um ponto de um ter de ceder para acomodar as visões do outro?

Luciana – Não é uma questão de um ou outro ceder. Digamos que nós representamos posições políticas que se expressam de formas diferentes dentro do partido. Isso tem a ver com a discussão de programa de governo, que a gente ainda não aprofundou no Psol – a gente vai começar agora com seminários que vão ocorrer  nas principais capitais para chamar militância para debater o programa. Então aí provavelmente vão se manifestar diferenças. Tivemos diferenças a respeito de políticas de alianças – os debates foram bastante acirrados neste tema.

Sul 21 – Alguma aliança já determinada?

Luciana – A gente está discutindo com o PSTU e o PCB, os únicos dois partidos que fazem uma oposição pela esquerda ao PT. Estamos debatendo a possibilidade de fazer essa aliança. Ainda não se tem uma definição sobre isso.

Sul21- E essa discussão com o Randolfe? Ele defendeu aliança com DEM, PSDB no norte do país nas últimas eleições municipais, em 2012.

Luciana – Ele não chega a defender isso, mas ele tem um arco de aliança mais amplo do que, digamos, aquele que eu defendo. Acho que agora não é o momento de ressaltar as diferenças. É o momento de ressaltar a unidade. Foi isso que tentei fazer nessa carta aberta aos militantes do Psol, enfatizando que a gente tem um grande acordo político dentro do Psol que envolve todas as correntes: construir uma alternativa à esquerda do PT. As táticas de construção dessa alternativa podem se expressar de forma variada, mas termos esse acordo sobre a construção do partido estar conectada com as ruas, com os movimentos sociais, com a insatisfação popular e principalmente juvenil com a política tradicional, é muito importante.

Sul21- Vocês estão de acordo nessas questões?

Luciana – Isso foi o que me animou a aceitar ser vice do Randolfe e a seguir dentro do Psol — e dentro da própria campanha eleitoral –, defendendo as minhas ideias e as ideias que eu represento. Podem não ser exatamente as mesmas [ideias] dele, mas que, a partir desse grande acordo político, dessa necessidade política, desdobram-se as táticas que a gente vai aplicando para construir o Psol.

Socialismo não só no nome, mas na política econômica

Sul21 – Como tu vês o Psol no pleito?

Luciana – Minha preocupação nesse documento político, em que aceitei ser vice, foi o de elencar alguns temas que acredito que são importantes para que o Psol se diferencie da oposição que, na essência, não é oposição a Dilma – que é o Eduardo Campos (PSB-PE) e o Aécio Neves (PSDB-MG). Porque esses dois, e junto com eles a Marina [Silva (PSB-AC)], representam matizes de um mesmo modelo político e econômico.

Sul21- O que tu, Luciana, levas como programa de governo teu para a chapa?

Luciana- Então, a primeira definição que eu acredito ser necessária é que o Psol não é um partido socialista só no nome. A política econômica que o partido vai desenvolver tem que apresentar propostas de transição para combater a lógica econômica que vigora no Brasil, que é a lógica capitalista. A lógica da mercadoria se sobrepondo aos interesses do ser humano. Claro que não se pode propor numa campanha eleitoral que vai se implantar o socialismo no Brasil. O socialismo não se implanta a partir de um processo meramente eleitoral. Pode, contudo, comprometer-se com medidas de transição, que apontam para uma dinâmica de construção socialista.

Sul21 – Que medidas são essas?

Luciana – Começar, por exemplo, com auditoria e suspensão de pagamento da dívida pública. Isso me aprece algo que parece ser central na política de governo do Psol. O exemplo do Equador é eloquente para mostrar que isso pode ser feito sem que o país se isole completamente da economia mundial, muito embora a gente saiba que a economia mundial é capitalista e que o país está submetido aos interesses do capital financeiro que domina a economia mundial. O fato de o Equador ter feito uma auditoria, uma suspensão do pagamento e, consequentemente, uma renegociação da dívida, demonstra que isso pode ser feito, sem cair no isolamento ou numa crise financeira de grandes proporções. A outra questão fundamental é o combate à concentração de riqueza. Fala-se muito que o Brasil e o governo Lula/Dilma criaram uma nova classe média. Isso é uma mentira deslavada.

Sul21 – Foi a pobreza que diminuiu?

Luciana – É verdade que a pobreza foi reduzida e que setores que estavam antes completamente excluídos do mercado de consumo conseguiram ter um nível de consumo mínimo. Mínimo. Esse “sair da miséria”, às vezes, é ligado a um aumento de R$ 10 no Bolsa Família, que, nos índices do governo, apontam para uma saída da miséria. Essa saída nem sempre é real, porque R$ 10 não tiram uma pessoa da miséria efetivamente. Ou mesmo que sejam R$ 50. São pessoas que saíram de um patamar de miséria absoluta para uma miséria controlada.

Sul21 – O que acontece com o auxílio?

Luciana – Essas políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, são necessárias, mas insuficientes. Elas são facilmente derrubáveis pela situação econômica do país. O país não fez mudanças estruturais na economia e na concentração de renda. Quer dizer, continuou o setor financeiro concentrando a maior parte da riqueza do país. Inclusive é de se notar que, antes do Lula, as 500 maiores empresas do Brasil concentravam um percentual do PIB igual aos 50 maiores bancos. Depois do Lula, essa diferença aumentou, e os 50 maiores bancos concentram mais riqueza do que as 500 maiores empresas. Isso demonstra que não foram feitas mudanças estruturais.

Sul21 – Isso afeta a situação social das famílias que recebem o auxílio?

Luciana – O Brasil fica vulnerável aos humores dos mercados, e esses ganhos que foram obtidos em termos de política social e aumento do salário mínimo, eles se perdem quando a situação econômica se agrava. Indicadores que melhoraram durante o governo Lula em termos de redução da pobreza já começaram a piorar em 2008 com a crise internacional.

Ricos devem pagar mais impostos

“É possível fazer mudanças como a tarifa zero aumentando os impostos sobre a riqueza e a propriedade.”| Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

“É possível fazer mudanças como a tarifa zero aumentando os impostos sobre a riqueza e a propriedade.”| Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

Sul21 –  Como se faz essa desconcentração de renda?

Luciana – Essa é uma das propostas mais importantes que eu defendi quando fui deputada federal, a da reforma tributária. Eu consegui inclusive aprovar o Projeto de Lei na Comissão de Constituição e Justiça, mas depois foi engavetado. Fui também parte da Comissão da Reforma Tributária e apresentei um conjunto de medidas, que não eram minhas, mas da bancada do Psol, para uma reforma tributária justa.

Sul21 – O que seria um sistema tributário justo?

Luciana – Diminuir a tributação sobre consumo e a renda e aumentar a tributação sobre a riqueza e a propriedade. Porque o sistema tributário hoje é totalmente regressivo: quanto menos tu ganhas, mais imposto tu pagas. Porque tu, como assalariada, consomes tudo aquilo que tu ganhas, e o imposto sobre o que tu consomes é muito elevado. O imposto de renda para o assalariado também é muito elevado. Já o empresário, que recebe dividendos, lucros e rendas de aplicações financeiras, ou que investe na compra de propriedades, paga muito menos imposto, porque a tributação nesse setor – o imposto sobre a propriedade e o imposto sobre a riqueza – é muito menor do que o imposto da renda do assalariado e o consumo.

Sul21 – Essa reforma é possível?

Luciana – Vou levar a questão adiante mostrando, por exemplo, que é possível atender a demandas de muitos anos da classe média, como por exemplo a atualização da tabela do imposto de renda. Ele vem há anos perdendo para a inflação, o que gera uma fonte de aumento cada vez maior da tributação do assalariado. É possível fazer essa mudança e, ao mesmo tempo, atender demandas como a tarifa zero no transporte público.

Sul21 – Tirando o dinheiro de onde?

Luciana – Tirando desses setores que têm acumulado bilhões. Principalmente o setor financeiro. Aumentar muito fortemente a tributação sobre os bancos. Os bancos nunca lucraram tanto! Com um imposto maior sobre as grandes fortunas das cinco mil famílias mais ricas do Brasil, que já possuem uma riqueza bilionária e ainda enriquecem cada vez mais. Elas aplicam dinheiro nos títulos da dívida pública, recebendo altas taxas de juros do governo federal. E o dinheiro [das taxas] sai de onde? Do bolso do assalariado.

Sul21 – E o momento é propício para rever a questão, quando o mesmo problema reverbera no mundo todo por meio de movimentos como o Occupy Wall Street.

Luciana – Há uma crise de legitimidade da política, das instituições, de um modo geral. O modelo econômico capitalista não consegue dar uma resposta às demandas populares, porque sua lógica, especialmente num momento de crise como o que a gente vive desde 2008, é uma lógica de arrocho. Cada vez mais, é de tirar cada vez mais do povo para poder garantir a acumulação capitalista, garantir os lucros do setor financeiro e também do setor produtivo. É no salário que se arrocha, é nos investimentos das áreas sociais que se arrocha. A população,  ao sair de uma situação de miséria absoluta e começar a vislumbrar uma possibilidade de consumo maior, evidentemente começa a exigir mais. Começa a exigir um transporte de maior qualidade, exige uma saúde de melhor qualidade. Ao mesmo tempo, assiste o país gastando milhões em Copa do Mundo, em grandes estádios, em obras que não vão trazer um retorno real para a população, e tem que andar em ônibus sem ar condicionado, como o nosso prefeito está propondo agora em Porto Alegre. Isso tudo faz com que a população se revolte e não se sinta representada pela “classe política”. E esse é o grande desafio do Psol: se diferenciar desse “mais do mesmo” que a gente assiste a cada eleição.

Contra a velha direita e a velha esquerda

Sul21 – Psol entraria contra essa velha direita, essas políticas que favorecem sempre os mais ricos?

Luciana – A velha direita e a velha esquerda, que é onde está o PT. A velha direita é o PSDB e seus aliados; a velha esquerda é o PT e seus aliados.

Sul21 – Como o Psol quer se identificar nessa eleição contra a “velha guarda”?

Luciana – O Psol precisa se credenciar como a esquerda conectada com esse novo momento político do país, que é de negação das instituições como elas se apresentam. Porque há essa crise de legitimidade que é resultado de instituições como um parlamento, completamente dissociado da realidade das pessoas. Brasília é uma ilha da fantasia. Os deputados lá pouco refletem o que está acontecendo no Brasil real. Então eles ficam lá debatendo coisas como lei antiterrorismo, como se o terrorismo fosse um problema real pro país.

Sul21 – Como assim?

Luciana – Na verdade, o que eles querem é impedir que as mobilizações sociais continuem. A repressão é uma marca desse modelo político que carece de legitimidade. Em última instância, qual o papel do Estado enquanto instituição? É garantir a ordem. E quando eles não conseguem garantir a ordem a partir de uma hegemonia ideológica, que eles exercem normalmente através da grande mídia, das instituições de um modo geral, eles precisam recorrer à violência, à repressão. Em última instância, o Estado é esse braço armado que garante a ordem através da violência, e a lei antiterrorismo é parte dessa necessidade de reprimir para poder garantir a ordem.

Tática black bloc afasta o povo

“PSOL quer mais gente nas ruas. Não divide da opinião da tática Black Bloc, que assusta tira os manifestantes da rua por medo.”| Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

“PSOL quer mais gente nas ruas. Não divide da opinião da tática Black Bloc, que assusta tira os manifestantes da rua por medo.”| Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

“PSOL quer mais gente nas ruas. Não divide da opinião da tática Black Bloc, que assusta tira os manifestantes da rua por medo.”| Foto: Vinícius Roratto/Sul21.

Sul21 –  A criminalização do Black Bloc seria uma ferramenta para justificativa desse poder?

Luciana – Eu vejo que a classe dominante precisa acabar com as mobilizações. E eles estão muito preocupados, principalmente, por causa da Copa do Mundo, preocupados que a Copa possa ser conturbada pelas mobilizações sociais.

Sul21 – E não vai ter Copa?

Luciana – Eu acho que essa história é equivocada. Isso como bandeira não serve. A gente sabe que vai ter Copa, mas vai ter Copa com confusão, com questionamento a esse modelo que o Brasil escolheu para fazer a Copa, que é o de obras faraônicas, e não das mudanças que poderiam trazer melhorias para a população, como reforma do transporte coletivo, da mobilidade urbana, das estruturas de saúde. Essas obras não aconteceram.

Sul21 –  Tu és a favor da Copa?

Luciana – Se fosse votar agora em ter ou não Copa no Brasil, eu votaria por não ter Copa. Fazer uma Copa nesses moldes não serve ao povo brasileiro, que sequer vai ter, em sua ampla maioria, possibilidade de ver os jogos, até porque os ingressos custam uma fortuna. Então não vejo que isso traga um retorno real – embora a gente adore futebol e todo mundo vá torcer pelo Brasil na Copa. Vamos torcer pelo Brasil percebendo como essa Copa foi utilizada para manipular e para tentar acalmar os ânimos, aquietar o povo. Junho mostrou isso, que não conseguiram e não vão conseguir [manipular a população]. Eles acham que precisam acabar com as manifestações.

Sul21 – E a associação do Psol às mobilizações e ao Black Bloc?

Luciana – Essa associação foi completamente forçada, porque a intenção do Psol é a mobilização de grandes multidões, e a gente sabe, qualquer um sabe, que a tática black bloc afasta o povo das mobilizações. As pessoas ficam com medo. Primeiro elas ficam com medo da polícia, porque elas sabem que onde tem Black Bloc tem polícia e repressão. Depois, elas têm medo dos próprios Black Blocs, porque, mesmo que não tenham a intenção de atingir as pessoas, acabam atingindo. Então eu vejo que essa associação e essa ênfase que a grande mídia dá para a tática black bloc é uma tentativa de esvaziar as mobilizações. E a esquerda socialista, tanto o Psol como o PSTU, não tem nenhuma associação com essa tática. Porque o que a gente quer realmente é uma multidão na rua.

Sul21 – Mais gente nas ruas e menos Black Blocs?

Luciana – Junho mostrou que multidão na rua é a melhor coisa que tem para que o povo interfira na política real. Olha o medo que eles, a classe dominante e o governo, ficaram em junho. Isso não foi por causa de meia dúzia quebrando coisa. Eles ficaram com medo da massa na rua. Anunciaram mil coisas que iam fazer. O povo saiu da rua, e eles não fizeram nada. Então essa é uma lição que a gente precisa transmitir durante a campanha eleitoral. Mais gente na rua, mais mobilização. Assim se tem capacidade de interferir na política e de fazer com que os representantes institucionais escutem o que as pessoas estão pensando.

Globo é o maior partido da classe dominante

Sul21 – Envolver o nome do deputado Freixo, do Rio de Janeiro, nessa associação pode ter sido uma forma de afastar a insegurança trazida pela esquerda? Pois sabemos que Freixo ficou em segundo lugar na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Luciana – Ficou. Ali houve claramente uma ação orquestrada, onde um dos principais protagonistas foi a Rede Globo, tanto a televisão, quanto o jornal O Globo, como também foi aquele advogado das milícias. Eles se aproveitaram. A Rede Globo, que é, para mim, o maior partido da classe dominante brasileira, o maior partido em defesa do sistema, aproveitou a oportunidade surgida. Primeiro, com a idiotice daquela ativista (Sininho), de ter telefonado para o advogado dos milicianos — ainda que a intenção dela possa ter sido boa, tirar os meninos da mão desse advogado picareta. O advogado se aproveitou dessa oportunidade, inventou aquela história toda que foi comprada pela Rede Globo.

Sul21 – Por que tu achas que isso foi interessante para a Globo?

Luciana – Porque, primeiro, ali surgiu a oportunidade de eles desmoralizarem as mobilizações, de “mostrarem” que eram mobilizações manipuladas, financiadas. Isso é totalmente absurdo: nem o Psol nem o PSTU sequer têm dinheiro para fazer esse tipo de coisa. E, segundo, de associarem a violência da tática black bloc aos partidos que estão nas mobilizações, e, ainda, tentar desmoralizar uma figura pública [Freixo] que, de fato, ameaça os interesses da Rede Globo, enquanto partido da classe dominante, no Rio de Janeiro. O Freixo tem grande prestígio. Como deputado estadual, vai ajudar a eleger uma bancada muito numerosa de deputados estaduais do PSol, que vai ser uma pedra no sapato de qualquer governo. Além disso, em 2016 tem chances novamente de ser o prefeito do Rio, coisa que ele quase foi, com quase 30% dos votos, contra o Eduardo Paes. Então eles aproveitaram uma oportunidade e foram derrotados. Foi impressionante o Jornal Nacional de segunda-feira dando a notícia daquele ato de desagravo ao Freixo, dando 40 segundos pro Freixo falar, e quase que fazendo uma mea culpa envergonhada no final da reportagem. Isso foi o quê? A força social que está por trás do Freixo e do Psol, que inclusive se expressou através das redes sociais, um contraponto importante à mídia tradicional. Isso mostrou que eles erraram na mão, que eles expuseram demais a sua vontade de distorcer os fatos.

Sul21 – Isso pode vir a afetar o Psol no pleito nacional?

Luciana – Acho que esse episódio acabou virando o jogo, mostrando que o Psol não tem nada a ver com isso. Nesse sentido, ele foi até bom, porque oportunizou ao partido ampla audiência para a sua posição, que nunca teve. De mostrar que não divide a mesma opinião dos Black Blocs, que não utiliza o método.

Sul21 – Mas também não criminaliza os Black Blocs?

Luciana – Não, porque a gente entende o método black bloc como uma expressão política equivocada de uma insatisfação. Falo do Black Bloc autêntico – de quebrar bancos, fazer atos violentos para provocar a polícia -, não o de saques. Achamos isso altamente equivocado e tivemos nessa crise toda a oportunidade para deixar isso muito claro.

Futuro na política

Sul21 – Quais os planos para o teu futuro político? Vais seguir na política nacional?

Luciana – Primeiro, tenho uma definição para mim de que política não é carreira. A minha profissão é de advogada, de professora. Eu encaro a política como uma atividade essencial para mim como ser humano; uma atividade que me satisfaz, que me gratifica e da qual eu sinto necessidade. Quero, de alguma forma, participar e ajudar no processo de transformação do Brasil. Então eu vou fazer o que for necessário, dentro das minhas possibilidades.

Sul21 – Mas em nível nacional.

Luciana – Fui impedida de concorrer no RS. Acho isso uma grande injustiça, mas é a posição da nossa justiça. Fui convidada a concorrer em São Paulo, porque vou começar a fazer um mestrado lá na USP em março em Direito. Mas achei que seria artificial uma transferência do meu domicílio eleitoral para lá, e por isso fiquei no RS, mesmo correndo o risco de não ser candidata a nada. Se eu perdesse essa indicação para a candidatura à presidência, eu poderia não ser candidata a nada. E ao ser convidada para ser vice, eu tenho uma oportunidade de seguir na política nacional, que é o melhor que posso fazer agora para contribuir com o Psol e a política brasileira. Ajudar a construir um perfil pro Psol, que seja um perfil combativo, anticapitalista e conectado com o sentimento das ruas. É necessário um partido que negue a velha política e que afirme a necessidade de se construir novas formas de representatividade.

Sul21 – Tu te sentes decepcionada com a política? Era membro do PT, hoje é contra…

Luciana – É difícil não se decepcionar cotidianamente com as barbaridades que a gente vê no dia-a-dia. Mas eu sempre tive uma visão muito crítica da política, e nunca me iludi que através da minha intervenção, parlamentar, por exemplo, eu poderia conseguir grandes avanços. Eu diria que sou mais feliz do que decepcionada. Tive uma oportunidade rara de ser parte de um momento histórico, que foi o momento da ruptura com o PT. Tenho no meu currículo, com grande destaque, o fato de ter sido expulsa do PT pelo José Dirceu, pelo Genoíno, pelo Delúbio, os mesmos que foram condenados como quadrilheiros. Tive a oportunidade de ser protagonista desse processo de construção do Psol, junto com a Heloísa Helena em 2006, quando ela foi candidata à presidência. Fui uma das deputadas federais mais votadas, com mais de 180 mil votos. Agora tenho a oportunidade de novo de ser parte e de dar continuidade a esse processo como vice do Randolfe. Nesse aspecto, eu me sinto privilegiada, de fazer parte de todos esses momentos tão importantes. Agora, claro que a política, olhada friamente, não só nos traz decepção, mas muitas vezes ela nos causa nojo.