Luciana Genro

A favor do PSOL – Um diálogo com os militantes

02 de março de 2013 14h50

A FAVOR DO PSOL

Neste ano completa-se 10 anos da expulsão dos parlamentares “radicais” do PT e, portanto, do processo que iniciou a criação do PSOL. Nosso partido já não é mais novato, embora ainda tenha um longo processo de amadurecimento pela frente. Temos muitos debates a fazer, divergências e polêmicas, muitas vezes duras, pois somos um partido vivo. Um partido que ao crescer depara-se com pressões e dilemas que a luta de classes nos impõe. Nosso partido caminha para um Congresso no final deste ano, no qual precisamos reafirmar as idéias que nortearam o projeto fundacional do nosso Partido. Não se trata de separar fundadores de não fundadores, ao contrário, trata-se de unir todos os que compartilham a visão do PSOL como uma alternativa às práticas nefastas que fazem da velha política um instrumento de defesa dos interesses do capital. Precisamos de RADICALIDADE para enfrentar a direita, a velha esquerda a ser superada e as falsas alternativas no meio deste caminho.
Neste Congresso vamos reafirmar o PSOL SOCIALISTA E DE ESQUERDA. Não tergiversamos em torno destes conceitos fundamentais. Temos a convicção de que a única forma de impedir que a barbárie capitalista aniquile a humanidade é derrotar este sistema de exploração. Por isto não usamos de meias palavras. O socialismo é não só uma opção ética pela justiça social, mas também uma necessidade que se impõe pois o capitalismo produz contradições que colocam a sua superação como uma necessidade histórica.
Mas o socialismo é impossível, dizem alguns. E com esta conclusão contentam-se em tentar arrancar algumas migalhas do capitalismo, em tentar dar-lhe uma face menos cruel. O PSOL que queremos não perde de vista que é o ser humano quem faz a história e, portanto as possibilidades dependem da ação humana. A história não acabou, nem vai acabar enquanto o homem for livre, isto é, tiver capacidade de agir e aperfeiçoar as suas ações.
É verdade que tentado no passado, o socialismo não vingou. Tão verdade quanto o fato de que vigente no presente, o capitalismo é um grande desastre que ameaça a própria existência da humanidade. Por isso é preciso errar menos nesta retomada do processo revolucionário, para que a grandeza dos ideais socialistas possa ser realizada. Nosso socialismo é internacionalista e rejeita frontalmente o stalinismo e suas derivações. Se o capitalismo é um fracasso, e a sua negação, o socialismo tal qual existiu também o foi, então nos cabe, a partir da negação determinada, construir a síntese. O futuro está aberto, o passado já não é mais. Nos solidarizamos ativamente com as lutas de todos os povos por pão e liberdade.
Esta síntese, o novo, não pode ser mera aparência construída por novas palavras ou novos meios. É na essência que construímos o novo. Não é da maquiagem da velha política que surgirá a transformação social, mas sim da retomada renovada da luta de classes. Não há conciliação possível. Como diz o programa do PSOL,programa que deve ser reafirmado no próximo Congresso: “uma alternativa global para o país deve ser construída via um intenso processo de acumulação de forças e somente pode ser conquistada com um enfrentamento revolucionário contra a ordem capitalista estabelecida.”
O PSOL que queremos construir acredita firmemente no potencial emancipatório da classe trabalhadora unida a todos os setores sociais que tem como interesse comum a libertação da exploração capitalista e a conquista de uma sociedade onde as capacidades humanas possam ser plenamente exercidas. A injustiça não é inerente à natureza, mas sim um produto da humanidade no seu atual estágio de desenvolvimento e consciência. Podemos e precisamos avançar unindo os explorados e oprimidos de todos os matizes!
As bandeiras democráticas – como a reforma agrária, reforma urbana, o direito à saúde, moradia, educação, os direitos das mulheres, dos homossexuais e dos negros – só nas mãos dos socialistas são levantadas de forma conseqüente. Só um partido com estratégia socialista clara pode lutar sem capitulações pelas reivindicações mais básicas do povo trabalhador. A defesa conseqüente do meio ambiente também é incompatível com meias palavras, meias posições. O capitalismo necessita retirar direitos, necessita das discriminações, necessita sugar as riquezas naturais, tudo para manter a extração da mais valia e do lucro, e assim garantir a sua sobrevivência diante das crises recorrentes e inerentes à sua natureza predatória.
Nosso PSOL é oposição de esquerda aos governos do PT, pois suas políticas nada acumulam na luta anticapitalista. Dos governos do PSDB nem é preciso falar, pois as vanguardas lutadoras bem conhecem os ataques permanentes perpetrados pelo governo FHC. Em relação ao PT sabemos que ainda restam ilusões. Dúvidas legítimas de quem é bombardeado diuturnamente pelas informações governamentais de que milhões foram retirados da miséria. Até quem tenta se apresentar como alternativa reproduz este discurso, dizendo reconhecer “avanços”. Chegam até a atribuir tais avanços também ao governo do PSDB. Quem não reconheceria como positivo a retirada de pessoas da miséria? Mas quando se olha mais de perto a realidade, percebe-se que não é bem assim.
A verdade é que a diferença entre estar ou não na miséria são apenas R$ 2,00! Para o governo, quando a renda per capta familiar é superior a R$ 70,00 já não há mais miséria. Este valor, inclusive, não é atualizado desde 2009, sendo que a inflação medida pelo IPCA entre janeiro de 2009 e dezembro de 2012 chega a 24,53%. A não atualização deste valor já é uma forma de reduzir de forma automática o número de pessoas na miséria.
Pelos critérios do governo, uma família de 5 pessoas que tem renda mensal total de R$ 345,00 ao receber mais R$ 10,00 do governo deixou a miséria. Seria hilário se não fosse trágico. Enquanto faz demagogia com estes programas, os cortes no orçamento da seguridade social, da saúde, dos programas estruturantes de serviços públicos, condenam 50% dos domicílios brasileiros a não dispor de água tratada e 35% a não ter saneamento adequado. Segundo o IBGE 7% da população é vulnerável por falta de renda e quase 60% é vulnerável por falta de outros itens básicos não relacionados ao rendimento, mas sim justamente aos serviços que deveriam ser oferecidos pelo governo.
Também é propagandeado o crescimento do emprego formal. Sim, empregos com salários aviltados de até 1,5 salário mínimo. É um crescimento econômico, e que está seriamente ameaçado pela crise mundial, no qual a classe trabalhadora fica com as migalhas e os capitalistas com enormes lucros, explorando o povo cada vez mais e ainda beneficiando-se da especulação financeira, que conta com a participação ativa do governo ao destinar mais de 30% orçamento da União para pagamento de juros e amortização da dívida.

Nas práticas políticas é ainda mais visível a olho nu a ausência de qualquer avanço a ser comemorado. O episódio do mensalão é o mais expressivo, mas também basta mirar as velhas figuras rejuvenescidas pelo apoio dos governos petistas: Renan Calheiros, José Sarney, Collor de Mello, Paulo Maluf….A corrupção, o toma-lá-cá, a política como um grande balcão de negócios segue intocada. Pode-se dizer até que piorou, pois o PT que antes denunciava, desde que virou governo entrou no jogo. Ou melhor dizendo, entrou no jogo para ser governo. Nosso PSOL faz a denúncia permanente da corrupção como método de governo da classe dominante e a serviço dos interesses dos privilegiados e do grande capital.
Nosso PSOL não entra no jogo para ganhar eleições. Queremos ganhar, mas não pagando o mesmo preço pago pelo PT. Por isso somos muitas vezes chamados de radicais. Não nos incomoda. A radicalidade é necessária diante de tamanhas atrocidades. Somos radicalmente contra alianças espúrias, radicalmente contra os interesses dos bancos, das empreiteiras, das multinacionais. Por isso destes setores recusamos, por força de nosso programa, qualquer tipo de financiamento. Nosso Congresso tem que reafirmar este importante ponto programático.
Sabemos que não é possível enfrentar a todos o tempo todo. Não somos ingênuos. Buscamos também aliados circunstanciais na luta por um programa democrático e anticapitalista, mas nunca os apresentaremos como aliados estratégicos. Nosso PSOL não semeia ilusões de que qualquer setor burguês poderá nos acompanhar até o fim na estratégia socialista. A libertação da classe trabalhadora será feita pela própria classe trabalhadora. Por isso reivindicamos a definição programática do nosso partido: “ Nossas alianças para construir um projeto alternativo têm que ser as que busquem soldar a unidade entre todos os setores do povo trabalhador – todos os trabalhadores, os que estão desempregados, com os movimentos populares, com os trabalhadores do campo, sem-terra, pequenos agricultores, com as classes médias urbanas, nas profissões liberais, na academia, nos setores formadores de opinião, cada vez mais dilapidadas pelo capital financeiro”.
Nosso PSOL pauta a sua atividade pelo permanente chamado à mobilização anticapitalista, à luta direta do povo vinculada com as mobilizações revolucionárias dos trabalhadores tentando estabelecer pontes entre as lutas imediatas dos trabalhadores brasileiros com medidas econômicas e sociais contra a privatização e os interesses do capital. É o programa do PSOL que diz: “sustentamos que uma sociedade radicalmente diferente, somente pode ser construída no estímulo à mobilização e auto-organização independente dos trabalhadores e de todos os movimentos sociais”.
Nosso PSOL se inspira na história mundial das lutas sociais – pelos direitos civis, dos Panteras Negras, de Malcon X, do maio de 68, da luta contra a guerra do Vietnã até a luta contra a guerra do Iraque, das lutas contra as ditaduras latino americanas, as grandes greves operárias, as ocupações camponesas, as mobilizações dos gregos e demais europeus que enfrentam os brutais ataques da Troika imperialista. Estas são todas demonstrações de que é através da mobilização que se pode arrancar avanços sociais dentro do capitalismo, ou impedir retrocessos. São demonstrações, também, de que só a luta tem o condão de desafiar o status quo. Luta, com suor e sangue, que na Tunísia e no Egito derrubou ditaduras cruéis, e é assim que nestes mesmos países a batalha por uma verdadeira democracia continua, como na Síria, onde o regime ditatorial ainda resiste.
Enfim, o nosso PSOL é radical, é intransigente contra o capital e a corrupção e aposta na mobilização para fazer mudanças reais e estruturais. Este é o perfil que o Congresso do partido deve reafirmar. É neste sentido que estamos trabalhando e seguiremos.
Que façamos o bom debate!
Saudações socialistas e libertárias,
Luciana Genro