Luciana Genro

PSOL apoia greve nos Correios

30 de setembro de 2009 10h00

Divulgamos aqui manifesto dos trabalhadores dos Correios em repúdio a dirigentes da categoria que têm feito acordo com o governo federal para minar a greve e sua luta por melhoria salarial:

“CORREIOS: MAIS UMA GRANDE GREVE DOS TRABALHADORES
E A PIOR TRAIÇÃO DOS PELEGOS

Diante da miserável proposta de 4,5% de aumento salarial, no dia 16 de setembro a greve nos Correios explodiu em todo o Brasil. Uma campanha salarial das mais difíceis dos últimos anos, já que desde o início a estratégia do governo Lula era evidente: arrebentar com a possibilidade de qualquer mobilização e conquista. Assim, contando com seu braço direito, o dirigentes sindicais pelegos, antes da greve era mínima a mobilização sindical para armar a greve. As duas principais correntes sindicais, a CTB (PCdoB) no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, e a Articulação Sindical (PT) a frente da Federação, tinham interesse em atender o governo e não organizar a greve. Numa expressão do conluio que se avizinhava, em cerca de um mês Manoel Cantoara (Articulação Sindical) deixou de ser secretário-geral da Federação para virar patrão com o pomposo cargo “Coordenador do Comitê Permanente de Relações do Trabalho” na direção dos Correios. A direção da ECT, frente aos ganhos vitoriosos de adicionais dos trabalhadores em 2008 e às greves que ocorreram, queria “descontar o prejuízo” neste ano, ou seja, evitar paralisação e ganho salarial. A empresa jogou no terrorismo nos locais de trabalho, com ameaças abertas para intimidar contra a greve. A direção dos Correios também jogou em não negociar nada sério a respeito de valorizar o salário dos ecetistas, o pior de todas as estatais federais. O salário de um funcionário dos Correios, de R$ 750,00 em média, contradiz radicalmente com o lucro absurdo da empresa de 1 bilhão de Reais apenas até agosto/2009. Soma-se a isso a verdadeira semi-escravidão que existe devido a gigantesca falta de funcionários. Foi por isso que os trabalhadores em peso foram a greve no dia 16.

O projeto do governo Lula para os trabalhadores ecetistas é o de uma ECT já conhecida, sucateada, com corrupção e apadrinhamentos, com relação com o setor privado e com uma estrutura trabalhista com raízes nos tempos da Ditadura Militar. A última cartada do governo é fazer a ECT virar “Correios dos Brasil Sociedade Anônima”, uma dita “modernização” que, porém, visará valorizar o capital do correio na base do chicote em cima do trabalhador, que no aperto salarial terá que produzir mais e mais. Tudo isso somando o aprofundamento dos contratos privados e venda de ações para multinacionais do setor postal. É também nesse contexto que acontece a campanha salarial de 2009.

A greve foi autenticamente heróica, com os trabalhadores e os setores de oposição levantando a mobilização contra as poderosas máquinas do governo, empresa e pelegos. Vale dizer que a revolta da categoria ecetista é tão grande que mesmo com as ameaças e a compensação de todas as horas da greve de julho de 2008, o movimento começou em todos os Estados e sindicatos no dia 16. Os trabalhadores dos Correios fazem greve todos os anos e isso acaba culminando em cobranças sobre o governo, seja ele qual for. Aí se encontra o quê o Governo Federal queria minar nesta greve: impondo um acordo salarial com vigência de dois anos, o objetivo fica evidente, é a proibição de mobilização grevista em plena eleição de 2010, com a empresa pública virando mais um artefato eleitoral na campanha lulista-PMDB de Dilma Roussef.

Um contraste político e histórico entre a luta dos trabalhadores dos Correios, com um salário muito baixo e trabalhando na opressão, e o governo Lula, que já mostrou que não visa mudar a dura realidade dos trabalhadores, ocorreu no dia 18 de setembro. Os grevistas cobravam Lula, que participava de cerimônia do anuncio de uma obra no Rio Grande do Sul, quando o grande líder operário das greves do ABC de 30 anos atrás foi direto nas palavras contra os grevistas ecetistas de 2009: ameaçou os mesmos de corte de ponto, afirmou que o miserável acordo do governo é bom e que é hora de acabar a greve. A categoria ecetista tem feito uma séria experiência com o governo Lula, visto por muitos funcionários da base como verdadeiro traidor. Porém, vale lembrar que tal experiência política e de luta contra o governo Lula nesta conjuntura não é um dado ilustrativo para uma afirmação de que existe um ascenso de toda a classe trabalhadora, o que não encontra correspondência na realidade das lutas sindicais, existentes mas não generalizadas e muitas vezes sem enfrentamento direto com o Governo Federal.

O desfecho desta greve, apesar da valentia dos trabalhadores, foi a maior traição política de classe nos Correios dos últimos 15 anos. Servindo ao interesse eleitoral de Lula para 2010, o PCdoB e a Articulação Sindical defenderam publicamente um acordo salarial com duração de dois anos (outra negociação apenas em 2011) e, pior, manobraram descaradamente as decisões de SP, Santos, RJ, BA e Brasília, entre outros sindicatos. Em São Paulo o PCdoB, numa manobra criminosa, distorceu no microfone sobre a aceitação do acordo de dois anos e o fim da greve, quando o voto da maioria foi por continuar a luta e contra a proposta da empresa.

É importante ainda dizer que, mesmo com as desilusões partidárias dos ecetistas, precisamos entender que o problema do movimento sindical não são os partidos políticos. O problema é o aparelhamento do movimento sindical pelos partidos do patrão e do governo. Estes na hora decisiva vão estar ao lado do seu governo e não junto com o trabalhador. Pensar que o problema do movimento são os partidos é um falso debate e, pior, é o debate que o patrão quer, bastando ver as práticas autoritárias, antidemocráticas e de calúnias promovidas pelos agentes do governo, pela direção da ECT, pelos sindicalistas oficiais, feitas sistematicamente contra todo trabalhador honesto organizado politicamente que não se curvou a maré do poder a qualquer custo exemplificada pela mutação do PT.

O desfecho da greve não foi uma vitória, na medida das sórdidas traições e da disputa não encerrada sobre o acordo salarial. Porém, também houve o aspecto positivo da resistência e da bravura dos lutadores, do fato de quatro membros (de sete) do comando não terem se vendido ao interesse eleitoral-patronal de 2010 e da pelegada não ter conseguido a assinatura do “acórdão de dois anos”. É um dever seguir apostando na luta que prossegue e contra os “Correios S/A”. Será uma tarefa dos lutadores e da direção combativa a reorganização das nossas pautas e mobilizações no meio dos trabalhadores, sem trégua a um governo corrupto que transforma a cada dia a ECT numa casa da mãe Joana para os interesses gananciosos em prejuízo dos trabalhadores. E é um chamado nacional prático e urgente construir uma Frente Nacional de Luta para tirar os traidores do PCdoB/Articulação das direções sindicais. Mesmo com a traição, tem que estar na consciência de cada trabalhador e líder honesto sair dessa greve com a cabeça erguida, por não ter se abaixado para um governo que procura a cada dia destruir o horizonte de uma vida melhor que buscam os funcionários da ECT. A direção da ECT jogou duro, mas não venceu a batalha final. Nesta greve, a direção da ECT, a mando de Lula, cortou o ponto dos grevistas, mas não conseguiu cortar a coragem de lutar. A luta segue!

Cássio Menezes
Dirigente do Sintect/RS pela Oposição”