Luciana Genro

Escola de emancipação feminista busca diálogo para desconstruir mitos

28 de junho de 2018 16h22

Matéria originalmente publicada no Jornal Minuano, em 27/06/2018

 

 

Bagé entrou no circuito de debates promovidos pela Emancipa Mulher, escola de formação feminista e antirracista, com um painel, realizado ontem, na Biblioteca Pública Doutor Otávio Santos. A rede Emancipa, movimento social de educação popular, que atua há 10 anos em diferentes regiões do Brasil, já contribuiu para a inserção de 500 estudantes aprovados no cursinho em Porto Alegre em oito anos. Na Rainha da Fronteira, inclusive, o trabalho também é desenvolvido neste sentido. O novo desafio, agora, conforme destaca Luciana Genro, que encabeça a mobilização, é ‘construir um feminismo que ajude as mulheres a se empoderar, no sentido de ter consciência de que as discriminações e as opressões existem’.

Luciana, que disputou a presidência da República, pelo PSOL, em 2014, e é pré-candidata à Assembleia Legislativa, recorre à própria experiência para ilustrar as adversidades enfrentadas pela mulher em diferentes ambientes, a exemplo da política. “Em um debate, Aécio (então candidato à presidência pelo PSDB), me chamava de leviana, com o dedo na minha cara. A gente está acostumada a levar o dedo na cara, assim como está acostumada a ser interrompida em nossas manifestações. Nossa luta é justamente para que as mulheres se deem conta de que isso é uma violência”, exemplifica.

Para Luciana, esta percepção não se desenvolve apenas a partir de um processo individual. “Nossa imposição, enquanto gênero, não vai se dar pela individualidade. Vai se dar pelo coletivo. Ocorre que, muitas vezes, as mulheres também reproduzem o machismo. Aliás, muitas vezes. O feminismo é o empoderamento coletivo, para que a gente exija ser tratada com o mesmo respeito com que todos devem ser tratados”, pontua.

União
A mestre em Gênero, Mídia e Cultura, Joanna Burigo, que também participou da agenda em Bagé, afirma que construir um ambiente de acolhimento é uma das metas do Emancipa Mulher. “Existe um ranço antigo, de que o feminismo é a inversão do machismo, ou que somente um tipo específico de mulher é feminista. Acontece que existem muitos tipos de feminismos. Fico dolorida quando ouço mulheres dizendo que não são feministas porque não leram o suficiente ou porque não conseguem debater de forma articulada. Este é um cuidado que os feminismos precisam ter, no sentido de desenvolver um trabalho de acolhimento e união”, avalia.

Joanna afirma que conhecer as realidades locais é fundamental neste processo. “A última coisa que a gente quer é que uma mulher não se sinta adequada dentro do movimento. Estamos tentando reduzir muros que existem, para as mulheres que não são feministas poderem entender melhor quais são os objetivos, e também para as mulheres que têm um pouco de receio de se declarar feministas, porque ainda temem retaliação. A ideia é não somente sentar e dizer para as pessoas o que é o feminismo, mas ouvir delas quais são as angústias, dúvidas e incertezas, para que se possa realizar uma conversa, e não uma imposição de valores”, garante.

Atuação política
Joanna observa que uma das preocupações do Emancipa Mulher é a lembrança de que todo sujeito é político. “Sempre vai haver tentativas de silenciamento para a mulher, seja com uma candidata a cargo eletivo ou com uma funcionária em uma empresa. Existem aparatos de silenciamento que foram naturalizados. Mesmo que uma mulher não escolha ter uma vida pública, não escolha ter uma vida na qual a voz dela é reconhecida publicamente, o mundo da política não se resume ao que é público. Bastante da nossa intenção é fazer este resgate, de que todas as nossas experiências, como cidadãs, vão estar atravessadas por questões de opressão, que, portanto, são políticas”, conceitua.

Questão racial
O Emancipa Mulher também tem uma abordagem antirracista, conforme destaca a coordenadora, Carla Zanella. “Existe uma parcela do feminismo que ignora ou simplesmente não quer debater a questão das mulheres negras. Construímos um debate justamente a partir da perspectiva da mulher negra, que é a principal vítima de violência obstétrica e de violência doméstica, por exemplo. Usamos o Emancipa Mulher, também, para debater questões antirracistas. O primeiro curso, inclusive, foi batizado de Laudelina de Campos, uma mulher negra, criadora do Sindicato das Empregadas Domésticas”, frisa.