Luciana Genro

100 dias sem Marielle

25 de junho de 2018 17h23

Já passaram 100 dias desde que Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados. Até o momento a investigação aponta para Orlando Oliveira de Araújo, ex-PM e possível chefe de uma milícia na Zona Oeste do Rio, preso desde o ano passado por um outro homicídio e porte ilegal de arma. Araújo, segundo a polícia, seria o mandante do assassinato de Marielle, juntamente com um vereador. Os dois estariam incomodados com a atuação de Marielle denunciando os crimes praticados nas comunidades reféns das milícias e órfãs do Estado.

Já passaram 10 anos da divulgação do relatório com 58 medidas de combate às milícias, desenvolvido pela a CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio. Nessa época, Marielle era assessora do deputado Marcelo Freixo, presidente da CPI. Desde então, Freixo é ameaçado de morte e anda sob escolta.

Depois de construir sua trajetória política baseada na defesa dos direitos para moradores da periferia e denunciando os crimes praticados pela polícia, pelas milícias e pela omissão do poder público, Marielle também se tornou um alvo. Um alvo em um país considerado o mais perigoso para ativistas dos direitos humanos e onde um vereador é morto por mês quando resolve se insurgir e erguer a voz contra os interesses de governos omissos e comprometidos com as milícias.

Já passaram pelo Rio, nos últimos 34 anos, sete governadores do PDT, MDB, PSDB e PSB. Nenhum deles se comprometeu em combater as milícias. Há 11 anos governando o Rio de Janeiro, o MDB tem, comprovadamente, uma máfia no poder. Num país governado pelo MDB, por uma quadrilha chefiada pelo atual presidente Temer, não teria como ser diferente.

Tragicamente, não se pode esquecer, é também o MDB que governa nosso Estado, com Sartori. A política de segurança do RS está na mesma direção do desastre do Rio. Um exemplo disso é a prisão, em Porto Alegre, de uma dezena de policiais militares do 11º Batalhão ligados à facção dos Bala Na Cara. Esses policiais extorquiam outros criminosos, tão bandidos quanto eles. Para piorar, os policiais honestos, que desde 2015 recebem seus baixos salários de forma parcelada, precisaram conviver e trabalhar com os colegas corruptos.

As milícias penetram nos altos escalões do Estado e representam uma faceta na degeneração do regime político brasileiro, que alimenta as facções criminosas ao invés de combatê-las.

Foram as milícias que mataram Marielle e Anderson. Falta saber qual grupo de milicianos, a mando de quem e qual a razão exata do assassinato. Seguimos exigindo investigação e não vamos parar até a punição imediata dos responsáveis pelas mortes de Marielle e Anderson!