Luciana Genro

O efeito dominó de Zé Mayers

10 de janeiro de 2018 09h48

Artigo ANTONIA PELLEGRINO e MANOELA MIKLOS, ativistas e fundadoras do blog #AgoraÉQueSãoElas, publicado originalmente na Folha de São Paulo em 10/01/2018.

O ano de 2018 começou com mulheres no ataque. No dia 1º, atrizes de Hollywood lançaram o fundo Time’s Up de apoio às vítimas de assédio. Uma semana depois, na premiação do Globo de OuroOprah Winfrey anunciou : “Um novo dia está raiando no horizonte, graças à força de mulheres magníficas.”

Desde 2015, nós, brasileiras, nos insurgimos contra as violências que tínhamos sofrido e desenterramos na rede, para quem quisesse ler, histórias íntimas sob a hashtag #MeuPrimeiroAssédio —dois anos antes de o #MeToo desglamorizar o assédio e apresentá-lo ao mundo como o que é: crime.

Em abril de 2017, uma mulher apoiada por muitas quebrou o silêncio contra um galã poderoso. Su Tonani é o nome dela. Mas foi apenas seis meses depois, quando Harvey Weinstein caiu, que muitos por aqui entenderam o gesto dela não como vingança, exagero ou oportunismo, mas como o mínimo para quem precisa atravessar um trauma: romper com o silêncio e falar.

No dia seguinte à premiação do Globo de Ouro, as timelines e capas de jornais louvavam a coragem e os vestidos pretos das americanas.

Mas, e nós?

Sempre fomos experts nos pactos de manutenção do statu quo. O Brasil foi o último país da América Latina a abolir a escravidão. Aqui, os crimes contra a humanidade são esquecidos, anistiados, e os indígenas podem seguir sendo dizimados por 500 anos.

A história mostra que os avanços promovidos pelo Estado contra a desigualdade são enfrentados com atos antidemocráticos.

Somos um país que não produz memória, justiça e tem enorme resistência às mudanças estruturais. Somos o país dos pactos de conciliação com o inconciliável. Por que no campo das lutas de gênero seríamos diferentes?

Enquanto aplaudimos as americanas, assistimos à desqualificação da luta feminista: o famoso “backlash”, termo que ainda carece de tradução eficiente para o português, mas que remete a uma experiência conhecida. São os argumentos arregimentados pelo patriarcado para transformar a luta feminista em algo sem sentido ou fundamento. Mimimi. Exagero. Intolerância.

Em 1991, a feminista americana Susan Faludi ganhou o prêmio Pulitzer com a obra “Backlash: The Undeclared War Against American Women”. À época, Faludi identificava um grande movimento de retrocesso, cujo objetivo seria voltar o relógio aos anos 1950.

Duas premissas centrais orientaram esse movimento: a) a ideia de que o feminismo teve conquistas reais e que mulheres e homens já seriam, nos Estados Unidos dos anos 1990, suficientemente iguais no que tange aos papéis de gênero; e b) a noção de que o feminismo seria cruel para as relações íntimas e desagregador no âmbito dos projetos políticos.

Tais premissas teriam sido, a princípio, articuladas por uma nova direita que surgiu sob a presidência de Ronald Reagan (1911-2004) nos anos 1980 e se tornou “mainstream” nas décadas seguintes.

Contudo, Faludi é clara ao lembrar que tais mensagens são repercutidas também pelo que a autora chama de emissários da esquerda.

Resta saber se o Brasil vai ignorar seu papel de vanguarda no questionamento ao patriarcado e renderá louros à ousadia hollywoodiana enquanto acomoda atritos e contém rupturas. A capa da “Time” que reconhece o poder influenciador das mulheres que quebraram o silêncio pode haver no país que não elabora seus traumas e crimes?

Precisamos ter mais coragem. Coragem para falar e ouvir. Para mudar estruturas e perder privilégios. Sabemos que dói. Mas não se compara à morte física e simbólica que mulheres vivenciam diariamente.

Até que a mudança se estabeleça, faremos cair galãs de novela e candidatos favoritos à prefeitura de grandes capitais, nossos Harvey Weinsteins. Segue o modus operandi da confecção do novo normal.