Luciana Genro

Imprensa precisa respeitar sindicatos e não apenas o mercado

23 de Janeiro de 2018 13h05

*Artigo de Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, publicado originalmente na Folha de São Paulo em 23/01/2018.

Dois episódios recentes nos quais atores políticos pressionaram o Estado a adotar políticas geraram reações muito diferentes da imprensa e do establishment político. A dualidade da resposta mostra como nossa imprensa trata com naturalidade e respeito as demandas dos empresários e investidores, mas não dá o mesmo tratamento às demandas dos trabalhadores.

No último dia 11, a Standard & Poor’s rebaixou outra vez a nota de avaliação dos papéis brasileiros, afundando o país ainda mais no território dos investimentos lixo, aqueles que não tem o selo de grau de investimento. Em declaração à imprensa, a agência explicou o motivo: “o Brasil fez progresso mais lento que o esperado em implementar uma legislação significativa para corrigir a derrapagem fiscal estrutural e o aumento dos níveis de endividamento”.

A notícia foi recebida pelo establishment com consternação. Analistas financeiros que trabalham para bancos de investimento foram chamados pela imprensa para, sem contraponto, opinar sobre o andamento da reforma da Previdência, criticar a morosidade do Congresso e alertar para o crescimento do déficit fiscal.

Eles não foram apresentados como chantagistas agressivos que estavam forçando o país a adotar uma agenda anti-social sem o respaldo das urnas. Foram, ao contrário, apresentados como especialistas equilibrados que, a partir de uma avaliação técnica dos problemas fiscais do país, indicavam a adoção inevitável de medidas de austeridade.

Uma semana depois, no dia 18, os metroviários de São Paulo entraram em greve contra o leilão que privatizava a operação de duas linhas do Metrô. A greve criticava o modelo de concessão, as regras do edital e argumentava que haveria grave prejuízo para o interesse público.

Segundo o sindicato, as exigências do edital eram anticoncorrenciais, porque reduziam os consórcios habilitados a apenas dois e o modelo atentava contra o interesse público porque havia uma desproporção entre o pequeno ônus de investir na operação (já que o ônus mais relevante da construção das linhas, já tinha sido realizado pelo Estado) e os retornos rápidos que seriam desfrutados pelo consórcio vencedor.

A opinião do sindicato foi respaldada por duas importantes organizações da sociedade civil, o IDEC e a rede Nossa São Paulo, que acrescentaram às preocupações dos metroviários outras, como a cessão da exploração dos espaços nas estações (cujas receitas, se permanecessem com o Estado, poderiam ser utilizadas para subsidiar a tarifa) e a ausência de uma agência reguladora com poderes para supervisionar os atores privados que exploram o sistema.

Dois vereadores da cidade de São Paulo, Sâmia Bonfim e Antônio Vespoli entraram com um pedido de liminar que obteve decisão favorável, suspendendo o leilão – decisão que o governador Geraldo Alckmin conseguiu depois reverter.

Todo esse imbroglio jurídico e político sugeria uma cobertura jornalística que absorvesse e apresentasse o debate, discutindo o modelo de concessão, o número reduzido de consórcios concorrentes e até a composição da tarifa que estava sendo questionada na mesma época pelo Movimento Passe Livre.

Não me refiro a apoio editorial, mas a uma postura pluralista e democrática que apresentasse um debate que estava ocorrendo de fato e que envolvia, entre outros, especialistas, o governo do Estado, o sindicato dos metroviários e duas importantes ONGs.

Nada disso, no entanto, apareceu com relevo na cobertura da grande imprensa. O noticiário foi completamente tomado por uma discussão sobre trânsito, sobre a dificuldade das pessoas chegarem ao trabalho, a sobrecarga no sistema de ônibus e o abuso do sindicato que seria “politicamente controlado”. Muito pouco se falou sobre o leilão e as poucas vezes nas quais as demandas do sindicato foram mencionadas, elas foram tratadas como irracionais, irresponsáveis ou corporativas.

A comparação com a cobertura da pressão da Standard & Poor’s que rebaixou a avaliação do Brasil para pressionar pela aceleração da reforma da Previdência é chocante e mostra como o establishment ainda lida muito mal com a ação política dos movimentos de trabalhadores, enquanto normaliza e acolhe acriticamente a poderosa pressão do mercado financeiro.

A verdade é que uma imprensa que não trata com respeito as demandas dos movimentos de trabalhadores, enquanto bajula e respalda as chantagens do mercado financeiro, não pode ser considerada plural e democrática.