Luciana Genro

O dia que o racismo acabar não vamos precisar debater a importância do Dia da Consciência Negra!

20 de novembro de 2017 19h53

*Por Júlio Domingues

Precisamos entender, coletivamente, qual a dimensão do racismo na nossa sociedade. Afinal de contas, o racismo existe devido às ações individuais de algumas pessoas ou tem um âmbito muito maior e faz parte de toda a sociedade, em decorrência da nossa construção histórica? Nesse sentido, sempre é necessário fazer lembrar os séculos em que pessoas negras eram legalmente tratadas como peças. Também é importante salientar que as concepções racistas europeias legitimaram o início e a manutenção do cruel processo escravização de pessoas africanas. O período desse crime de lesa-humanidade reproduziu na sociedade uma série de conceitos que desvalorizavam as pessoas negras.

Ao longo da história, a escravidão deixa de ser constitucionalmente legal, porém, as ideias e ações que desvalorizam, estigmatizam os negros seguem sendo reproduzidas pela sociedade. Certamente, há resquícios do passado na sociedade contemporânea, e pode se usar como exemplo a desigualdade de renda das pessoas negras em comparação a das pessoas não-negras, conforme dados que apontam para a existência de diferenças socioeconômicas entre estes dois grupos. Basta uma simples pesquisa e encontraremos dados estatísticos, relatos, reportagens que demonstram uma sociedade não tão amistosa com a negritude. No entanto, ainda escutamos discursos simplistas sobre o tema, seja na absurda afirmação de não existência do racismo (no Brasil), ou ainda na afirmação da existência de um certo exagero dos negros e negras em fazer denúncias ou o risível argumento de só existir racismo por se falar sobre o tema.

É necessário refutar esses argumentos que tentam deslegitimar a luta e resistência protagonizadas, há séculos, por negras e negros contra as mais variadas violências sofridas. O racismo não acaba com um pacto mundial de silêncio. racismo é um problema social grave que estrutura a sociedade, permeia as relações e é reproduzido cotidianamente.
Definitivamente, nós negros, não exageramos ao denunciar quando somos vitimados, a culpa não é nossa se somos vítimas de violência racista em um estabelecimento comercial, em alguma festa, no trajeto de casa até o local de trabalho ou estudo, no trabalho propriamente dito. E tampouco quando somos preteridos de uma vaga de emprego, mesmo com um currículo que preenche os requisitos solicitados para ocupar uma vaga, por não possuirmos “perfil” adequado para o cargo. Ao ler esse trecho, se você tiver intenção de deslegitimar o que escrevo, a palavra exagero virá a sua mente. Mas faça o seguinte exercício: pesquise a palavra racismo e insira qualquer uma das situações citadas acima e, certamente, você encontrará notícias e casos de denúncias de racismo.

Recentemente, vazou o vídeo em que um jornalista teve uma atitude racista. Deveria ser unânime esse entendimento sobre a atitude do jornalista, no entanto, torna-se necessário explicar: quando você falar que algo ruim ou que não deu certo é “Coisa de preto”, você usará uma expressão de origem racista, com a conotação de que pessoas negras somente fazem coisas erradas , seja por incapacidade ou predisposição para o mal. Nosso problema seria menor se o caso do jornalista fosse um caso isolado. Lamentavelmente, escutamos essas e tantas outras expressões todos os dias, muitas vezes num suposto tom de brincadeira. Mas, de fato, não há graça nenhuma nisso. E o episódio citado acima remete a uma noção existente no período em que negros foram escravizados e aparece ainda hoje em dia.

Paralelo aos elementos citados ao longo do texto e sendo face da mesma moeda, temos numeros absurdos de violências às quais somos submetidos: os jovens negros são as maiores vítimas da violência, o racismo religioso é prática constante na perseguição e agressão contra as religiões de matriz africana. Não faltam estudos e dados estatísticos que demonstram uma realidade social que impõe muitas dificuldades às pessoas negras. Ainda assim, não é incomum sermos contestados quando apresentamos a realidade vigente. A sociedade tem muito o que aprender e refletir e agir sobre o tema. E deveria entender que é papel de todos o combate ao racismo, e a valorização dos conhecimentos produzidos por negras e negros. Para avançarmos, ainda se faz necessária uma série de mudança . Muitas medidas institucionais são importantes. O Estado brasileiro que, historicamente, nos subjugou e violentou ainda tem uma dívida gigantesca com toda a população negra. Portanto, é imprescindível haver políticas públicas (e melhor aplicação das já existentes) de inclusão, valorização cultural e combate real às violências das quais somos vítimas.

Sempre é importante salientar a nossa luta histórica e nossa enorme capacidade de resistência. Devemos saudar as negras e negros que lutaram por uma outra realidade. Nossa história ainda precisa ser muito melhor contada, é um absurdo que ainda se reproduzam equívocos como a existência de uma democracia racial, da existência de um escravismo brando ou ainda a retração dos negros escravizados apenas como objetos, como peças da história, o que significa ignorar a série de lutas protagonizadas por negras e negros, em prol da liberdade.

É fundamental a valorização da nossa contribuição histórica à sociedade, o respeito às nossas culturas e tradições, que não tentem nos calar quando estamos gritando, lutando, travando batalhas que nos são muito caras. Nós seguiremos. E seguiremos batalhando para mudar a realidade, para ocupar os espaços que tem sido historicamente negados. Afinal, embora nos tenham negado oportunidades, temos capacidade de ocupar e desempenhar os mais variados papéis. Sem a existência do racismo, poderemos ser plenos e desempenhar por completo nossas potencialidades. Nesse sentido, se a realidade nos é difícil e a mudança é necessária, torna-se importante que tenhamos o dia, o mês, o ano, o século dedicado à consciência negra.

Viva Dandara! Viva Zumbi!

*Júlio Domingues é militante do movimento negro e do PSOL-RS.