Luciana Genro

Já passou da hora de entendermos que não há democracia racial no Brasil

20 de novembro de 2017 10h13

*Por Carla Zanella Souza

Dados de 2014 do IBGE mostram que mulheres negras possuem renda 40% inferior a homens brancos. Mesmo representando mais de 50% da população brasileira, negros e negras não são a maioria no mercado formal de trabalho, nas universidades ou nos espaços de poder e representação política. São as mulheres negras que mais sofrem com a insegurança e violência. É de maioria negra a população encarcerada e também é a juventude negra a que mais morre assassinada, caracterizando um verdadeiro genocídio. No Rio de janeiro, Rafael Braga segue em prisão domiciliar, enquanto, em Porto Alegre, Tatiane da Silva Santos, mulher negra e trabalhadora, segue presa por um crime que não cometeu.

Cenário de um país marcado pela grande desigualdade social que permeia as relações raciais desde a colonização. Em um ano no qual se tentam avançar reformas como a previdenciária e coloca-se em prática o fim dos direitos trabalhistas, é preciso dizer que a população negra, ao longo de sua história, só acessou a esses direitos com muita luta e dificuldades. Já passou da hora de entendermos que não há democracia racial no Brasil, que o racismo brasileiro não é velado, é institucionalizado! Que quando se desmontam serviços públicos se está tirando da negritude, que não pode pagar por serviços privados e caros, a possibilidade de acesso à saúde, à educação e aos direitos trabalhistas. É preta a cor do trabalhador brasileiro, ainda que, para muitos, o trabalho formalizado seja negado.

Os mais de 300 anos de escravidão, o mito de sermos uma democracia racial, as políticas de branqueamento da população e as legislações de criminalização da nossa cultura são parte da cruel face de um Estado que nega sua população e sua história construída pelas mãos, suor e sangue da negritude. No mês de novembro é comum lembrarmos o quanto somos um país miscigenado e de todas as cores, mas é com a luta e a mobilização do povo negro que devemos marcar o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, pois durante todos os dias do ano o racismo estrutural não coloca a população branca a refletir sobre todos os privilégios que lhe foram historicamente ofertados, e que é de sua responsabilidade reconhecê-los e desconstruí-los. E, para a população negra, fundamental se faz que tenhamos um dia  que marque nossa luta, que é diária por sobrevivência, e marque a nossa história. História de um povo que resiste!

*Carla Zanella Souza é Cientista Social, professora, graduanda em Direito e militante do Juntos Negros e Negras.