Luciana Genro

Pablo Ortellado: “Os puros e os justos”

16 de maio de 2017 11h47

*Artigo de Pablo Ortellado, professor de gestão pública da USP, originalmente publicado na Folha de São Paulo no dia 16/05/2017.

As mídias sociais enlouqueceram. Apenas na quarta-feira, foram mais de 7 milhões de compartilhamentos de matérias e postagens sobre Lula e seu depoimento a Sergio Moro. Um lado apresentou um Lula enquadrado, isolado e constrangido; o outro mostrou um Lula triunfante e desafiador, recebendo o apoio dos movimentos sociais. Na semana, falou-se quatro vezes mais de Lula no Facebook do que das ações do presidente em exercício.

O ressurgimento eleitoral do ex-presidente Lula e o aumento da preferência pelo PT, registrados na última pesquisa Datafolha, empurraram a já insuportável polarização política para um nível ainda mais extremo.

De um lado, não se entende como as centenas de milhões desviados que aparecem todos os dias no noticiário podem não causar indignação e revolta —e infere-se que se a pessoa não se importa com o saque aos recursos públicos é porque deve estar levando a sua parte do butim. Do outro lado, impera a convicção de que tudo não passa de um jogo de cena: que sob o disfarce da luta contra a corrupção conduzida por um Judiciário parcial e seletivo, encontra-se a defesa dos privilégios de classe que o governo do ex-presidente metalúrgico combateu. Enfrentar o discurso anticorrupção seria assim tomar partido na luta de classes, na luta contra o golpe e, em última instância, impedir o advento do fascismo.

Um estrangeiro poderia achar que a descrição acima é uma caricatura, mas infelizmente, é um retrato fiel do debate político no Brasil.

Em protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária, as principais centrais sindicais, inclusive as que não são de esquerda, convocaram uma greve geral. Os professores das escolas privadas aderiram à greve, exercendo um direito elementar, respaldado pela Constituição federal. Pais de alunos fizeram abaixo-assinados, escreveram cartas raivosas e armaram cenas nas portas das escolas de todo o país, enfurecidos com os professores radicais que estavam atrapalhando sua rotina, promovendo a vagabundagem e doutrinando as crianças.

Cineastas inscritos num festival em Pernambuco resolveram boicotar o evento, retirando seus filmes da competição quando tomaram “conhecimento da grade completa dos filmes selecionados” e descobriram que, entre eles, havia também filmes “de direita”, o que favoreceria “um discurso partidário” alinhado aos “grupos que compactuaram e financiaram o golpe”. O festival teve que ser adiado e talvez venha a ser cancelado.

Estamos caminhando rapidamente para um endurecimento do enfrentamento político que pode ter graves consequências. Pais já não aceitam conviver com professores dos filhos que defendem seus direitos trabalhistas e cineastas já não conseguem aceitar ver seus filmes exibidos ao lado de outros que adotam uma posição política diferente. Vimos até a situação extrema de um pai que assassinou o próprio filho e em seguida se matou porque o rapaz apoiava a ocupação de escolas e universidades.

Tudo isso parece surpreendente porque os fatos não justificam posições tão apaixonadas. O impeachment da presidente Dilma, celebrado pelos antipetistas, levou ao poder um grupo político que, ao que tudo indica, está ainda mais envolvido com corrupção. Além disso, as chances hoje de um acordão para salvar a classe política, com anistia ao caixa dois e introdução do voto em lista fechada, parecem maiores do que nunca.

Também não parece razoável ver como bastião da luta de classes o ex-presidente que concedeu desonerações bilionárias às grandes empresas, que se aliou com José Sarney e que teve Henrique Meirelles como ministro, que jogou para debaixo do tapete a agenda dos impostos progressivos e que voou para Curitiba para depor num processo sobre relações espúrias com empreiteiras num jatinho do maior conglomerado privado de educação.

Nenhum desses poréns parece suficientes para amenizar a acalorada disputa retórica que mesmeriza aqueles que querem arrastar o país para o apocalipse, um confronto final e decisivo entre os puros que acreditam combater a corrupção e os justos que acreditam defender a classe trabalhadora.