Luciana Genro

A água de Porto Alegre e a necessidade de uma política ambiental metropolitana

27 de julho de 2016 11h00

Por Luciana Genro

Há dois meses a população de boa parte dos bairros de Porto Alegre convive com o cheiro e o gosto ruins da água que sai das suas torneiras e chuveiros. A água que usamos para lavar as mãos, escovar os dentes, lavar roupa, tomar banho e limpar a louça está com um aspecto de podridão, com um odor insuportável. E a prefeitura ainda não conseguiu descobrir o que está acontecendo.

Não apenas não conseguiu descobrir, como chegou a declarar que é possível que nunca descubra. Isso mesmo! O diretor de tratamento e meio ambiente do Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), Marcelo Gil Faccin, disse, em entrevista à Zero Hora, que é possível que nunca se descubra a causa das alterações na nossa água.

Em 90 dias, o DMAE recebeu mais de mil reclamações sobre a qualidade da água. Até o Ministério Público, através da Promotoria do Meio Ambiente, teve que entrar em cena para acompanhar o caso.

A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) também está patinando para resolver o problema. O órgão chegou a contratar um estudo de um laboratório de São Paulo para analisar 132 substâncias poluentes na água coletada, mas o laudo técnico verificou que todas estão em níveis inofensivos para o organismo. Agora um outro estudo deve ser encomendado, analisando 500 substâncias.

Embora a causa específica para o mau cheiro e mau gosto da água em Porto Alegre não tenha ainda sido desvendada, não é preciso ser especialista para perceber que a captação de água em um dos pontos mais poluídos do Guaíba – o Cais Navegantes -, a menos de 2km de uma indústria que trata os efluentes de mais de 1,5 mil empresas (a Cettraliq), não pode resultar em boas práticas para a qualidade final da nossa água. Somente a água captada neste ponto abastece quase metade da população da cidade.

A solução mais instantânea para o problema, elaborada pela prefeitura, pode ser concluída apenas no final de 2020, isso se for levada adiante. Trata-se da mudança da estação de captação do Cais Navegantes para o Rio Jacuí, menos poluído que o Guaíba. Uma obra que custaria R$ 150 milhões e levaria 30 meses para ser concluída.

Ambientalistas apontam, com razão, que a mudança do local de coleta é um desvio do problema real: a poluição do Guaíba, que atingiu níveis alarmantes. O governo do Estado apenas agrava este cenário ao iniciar um movimento para permitir a extração de areia do lago, abrindo espaço a uma atividade com alto potencial poluente, que poderá revolver o solo do Guaíba e trazer à superfície metais pesados.

Inverter a curva de poluição do Guaíba não é uma tarefa fácil, muito menos é algo a ser resolvido por apenas um município. Porto Alegre fez bem ao investir no PISA e no tratamento de esgoto, mas ainda precisa avançar. No Guaíba desaguam os rios Jacuí, Taquari, Caí, dos SInos e Gravataí. È preciso um esforço coletivo de todos os municípios que margeiam estes rios na elaboração de uma estratégia comum de combate à poluilção e de manejo sustentável destas águas, na criação de uma política ambiental metropolitana.

Enquanto isso não acontece, certamente a mudança de local de captação do Cais Navegantes para o Jacuí pode ser uma boa saída provisória, mas esta obra não deve ser paga pelo poder público. Que as indústrias poluentes, que despejam seus efluentes diariamente no Guaíba, arquem com os R$ 150 milhões necessários para o empreendimento.