Luciana Genro

MES

Sobre o levante revolucionário e os perigos que assombram a Ucrânia

11 de março de 2014 19h29

* Pedro Fuentes

Uma polêmica e uma dúvida legítima
Em nosso ponto de vista, o processo que a Ucrânia vive se iniciou com uma revolução popular democrática, como foram as que derrubaram os regimes stalinistas nos anos 90, e mais recentemente, as revoluções árabes. É um fato de grande relevância na situação mundial, tanto como foi o Egipto em seu momento. As contradições que surgiram aparecem como muito grandes e estimulam posições neo-stalinistas; buscamos contribuir com o debate conscientes que estamos distantes dos episódios e, muito mais do que qualquer coisa, a partir de nossa própria experiência e de uma perspectiva mundial. Não temos como objetivo apontar uma política concreta, quem melhor pode fazê-lo (e nos parece que está fazendo) é a esquerda ucraniana, como o grupo Oposição de Esquerda, as organizações e sindicatos que estão se forjando em todo o leste europeu e Rússia.

Sobre o tema da Ucrânia, assim como globalmente sobre as revoluções democráticas, há um debate importante, poderíamos dizer, entre um setor da esquerda que tenta compreender as novas revoluções que estão ocorrendo desde a queda do Muro de Berlim e uma velha esquerda saudosa dos velhos tempos da burocracia russa e que segue acreditando que o stalinismo não era tão ruim. Que segue operando com o esquema de uma guerra fria modernizada ou atualizada entre o imperialismo e a Rússia.

Por outro lado, na juventude e  entre os novos ativistas surgidos nestes anos de crise e rebelião, há dúvidas legítimas. É evidente que após o grande triunfo que significou a derrubada de Yanukovich  a situação se complicou em função das contradições que já estavam presentes na praça Maidan e entre a região mais europeia da Ucrânia, por um lado, e a vinculada à Rússia, por outro. Primeiro apareceram as ações fortes de uma direita fascista pro-ocidental e, mais recentemente, na Criméia os grupos pro-russos e stalinistas, (também fascistas). Posteriormente as tropas rusas entraram nesse território, camufladas como anônimas, para promover, com o apoio ao governo local pro-russo, a divisão do país e a anexação da Criméia à Rússia. Neste contexto, afinal, pode-se falar em  revolução? Podem se perguntar os jovens que viveram o entusiasmo da praça Tahrir, de Túniz e dos indignados. Não teriam razão aqueles que pensam que tudo não passou de meras revoltas e que por trás delas estava a mão do imperialismo? Não seria o caso de concluir que estes movimentos terminaram por ser negativos e que se voltou a uma situação como a de antes ou pior? Também se pode terminar associando isso com a queda do Muro de Berlim. Não teriam razão aqueles velhos comunistas que diziam que o que houve em 89 nos países do leste europeu e na URSS foram contrarrevoluções imperialistas?

Revoluções democráticas muito progressivas

Somos de uma posição oposta. Não podemos entender a Ucrânia sem perceber que desde 1989 o mundo mudou porque caiu a burocracia totalitária que controlava os países do leste europeu e a URSS.  A partir de então os povos destes países, graças a suas mobilizações revolucionárias independentes, puseram fim aos regimes ditatoriais e burocráticos. Aquilo não era socialismo. Eram ditaduras nas quais os meios de produção e as riquezas produzidas terminavam sendo apropriadas e usufruídas pelos burocratas, uma casta/classe voltada à acumulação de riquezas e mais poder.

Foram revoluções com suas contradições. Porque estas derrubaram os regimes políticos sem que os trabalhadores e o povo pudessem tomar o poder, sem que pudessem recuperar os meios de produção que continuaram nas mãos da burocracia e/ou de novos burgueses. Velhos e novos burocratas puderam mudar de pele e passar à condição de capitalistas. A restauração foi algo inevitável por causa da crise e do estancamento e retrocesso aos quais a burocracia levou esses países. À ausência total de liberdades se somava a crise devida a incompetência e corrupção da burocracia que gerava escassez de produtos essenciais e um atraso geral do país.

Com as revoluções políticas se conseguiu conquistar liberdades democráticas que antes eram inimagináveis (tanto na era stalinista dos campos de concentração, como na era da vigilância policial estrita e da proibição de viajar ao exterior, das prisões, torturas e assassinatos) Com as revoluções também se rompeu a couraça burocrática na qual se havia transformado a URSS, e os povos da Ucrânia, Estônia, Lituânia… todos eles, conseguiram sua independência nacional.

A partir da queda da URSS e dos regimes do leste europeu, para as massas de todos os países do mundo se criou a ideia de que o modelo socialista não funcionava, e como consequência se retrocedeu na consciência de um modelo alternativo igualitário superior ao capitalismo. Esta é uma verdade que se sofre na Ucrânia como em todos os processos revolucionários. No entanto, esta contradição real (que hoje voltamos a viver na Ucrânia como no ano passado quando a mobilização terminou com a tomada do poder pelos militares no Egito) tem um poderoso lado positivo. Un lado muito favorável para o movimento de massas e por isso também muito ruim e prejudicial para o domínio da burguesia imperialista. Se, por um lado, caiu o socialismo como modelo alternativo, também caiu o poder do aparato mais importante que dirigia e influenciava os trabalhadores de todo o mundo e que conduziu o  movimento de massas a derrotas tremendas. O maior símbolo foi o acordo de Stalin com Hitler mas a lista de desastres, de traições políticas do stalinismo é enorme e ocuparia volumes e mais volumes de livros. Ao derrotar os regimes stalinistas e seus herdeiros o movimento operário e popular mundial ficou muito mais livre, sem o controle de dirigentes do partido comunista que seguiam as “ordens de Moscou”. Isto explica as numerosas e grandes mobilizações espontâneas e as praças que ocorrem e seguirão ocorrendo. Esta mobilização que vem derrubando governos (o último foi o de Yanukovich da Ucrânia, mas há muitos outros, na Grécia, Papandreu, Ben Ali na Tunisia, Mubarak no Egito, Kadaffi na Libia e antes na Finlândia, Argentina, Bolívia, Equador) destrói ou deixa totalmente deteriorados os regimes de dominação.

Este recuo na consciência socialista dificulta o surgimento de uma alternativa anticapitalista que se torne confiável para as grandes massas. E esta falta de alternativa pesa muito nos momentos mais decisivos da luta de classes, quando a espontaneidade e a massividade não bastam por si mesmas para que o movimento encontre um caminho até um triunfo mais definitivo.

É um erro não ver as contradições reais que existem e analisar tudo de forma otimista e linear. Dessa maneira se facilita o trabalho daqueles que, consciente ou inconscientemente deixam de confiar nas massas exploradas, por não perceberem que a essência da situação é o profundo movimento de massas (livre, democrático, espontâneo) que se iniciou na Ucrânia, em outros países do leste europeu e no mundo árabe, como resposta às crises econômica e de seus regimes. Quem segue esta linha  inevitavelmente perdeu ou vai perder a confiança no movimento de massas e na mobilização; deixou ou vai deixar de acreditar no socialismo e por isso é ou virá a ser neo-stalinista.

Ocorre algo similar ao que aconteceu em nosso país com as Jornadas de Junho. Nesse momento o PT e seus acólitos do PCdoB se lançaram a dizer que se tratava de um movimento de direita, fomentado pelos tucanos e pela grande patronal. Mas a mobilização multitudinária que mudou o Brasil é também parte deste processo que se vive em muitos lugares do mundo. O PT sabe disso, não por acaso está muito interessado em fazer o processo ucraniano parecer reacionário.

Putin, un neo-stalinista progressivo…. ?

Depois da Líbia, Síria e agora com a Ucrânia podemos dizer que aparece com mais força uma ideia neo-stalinista que quer voltar ao passado, como se agora houvesse uma nova guerra fria na qual a Rússia estaria construindo um campo progressivo que estaria freando o imperialismo. E segundo essa posição se agrega ainda que os partidos comunistas desses países cumprem um papel progressivo.  No caso da Ucrânia (como no de todas as outras revoluções), os levantes são explicados como manobras do imperialismo que estaria os manipulando. Dessa perspectiva não é o movimento de massas que sai às ruas por democracia e suas reivindicações sociais, de forma livre e independente, ao contrario, o movimento estaria sendo estupidamente utilizado pelo imperialismo que estaria por trás de tudo. Isto se agravaria ainda mais no caso da Ucrânia em função da aparição dos direitistas nacionalistas e fascistas em Maidan. Dizem, os neo-stalinistas, definitivamente, que se trata de um golpe contra um regime eleito pelo povo.

Esta posição leva inevitavelmente a velha esquerda a crer que a Rússia (e os partidos comunistas dessa região) volta a desempenhar um papel progressivo, de enfrentamento aos EEUU.  Assim, Putin detendo e vencendo Obama, primeiro na Síria e agora na Ucrânia, estria representando um avanço.

É verdade que com Putin a Rússia passou novamente a ter um maior peso mundial, depois de estar quase desaparecida na década de 90. Isso se deve à simbiose de duas questões; uma nova burguesia com métodos mafiosos, muito rica, assentada fundamentalmente no gás e no petróleo, e um novo regime com traços autocráticos com base no qual Putin se converteu, como se diz, em um czar pós-moderno. É um regime autoritário, com elementos autocráticos que se apoia no controle dos meios de comunicação e no combate com repressão aos opositores e aos movimentos que pedem democracia. Quem acredita que este regime é progressivo deveria perguntar o que pensam os chechenos que foram dizimados, ou também os homossexuais russos, tratados como uma praga e perseguidos.

Esta nova Rússia que intervém na Ucrânia é um neo-stalinismo imperialista que quer recuperar a zona de influência perdida, (seja a da época dos czares ou do stalinismo). Assenta-se, para além do petróleo e do regime autoritário, em uma força armada que segue sendo das mais modernas e eficientes do mundo. Já em 2008 Putin invadiu a Georgia para ficar com uma parte de seu território de maioria pro-russa,  Ossetia do Sul. Mas sua ação mais sinistra e contrarrevolucionária é o apoio incondicional ao regime do carniceiro da Siria de Bashad Al Assad. Agora na Ucrânia manda milhares de soldados “anônimos” para assegurar com sua intervenção que a Criméia (que tem direito à autodeterminação) volte à Rússia. Estas ações do imperialismo russo recordam as da época do stalinismo quando em nome do socialismo as tropas russas esmagaram as revoluções políticas na Hungria e na Tchecoslováquia.

Obama ameaça…

… Putin age

Um dos argumentos do neo-stalinismo é que Putin é um mal menor frente ao imperialismo dos EEUU. Concomitantemente e para elevar o papel de Putin afirma-se que o imperialismo dos EEUU se tornou inclusive mais agressivo. Não duvidamos em afirmar o papel nefasto do imperialismo ianque a escala mundial para sustentar a dominação imperialista. No entanto, isto não significa dizer que em determinadas situações concretas não haja outro inimigo tão ruim ou pior. Nenhum dos dois pode cumprir um papel progressivo porque ambos, por diferentes vias e interesses, são opostos às massas e a suas mobilizações. Mas a Rússia se transformou no inimigo mais direto e também mais perigoso na Ucrânia e talvez no conjunto da região do leste europeu; a prova disso é o envio de tropas a Criméia e a ameaça de Putin de que pode enviar tropas ao resto do país se os russos étnicos que ali vivem estiverem em perigo.

O concreto é que tanto no caso da Síria como agora na Ucrânia enquanto Putin age, Obama só ameaça. EEUU “não é um tigre de papel” como dizia Mao, mas a realidade está mostrando que se debilitou e que não tem condições de fazer novas invasões militares no Oriente depois das catástrofes no Iraque e no Afeganistão. O vazio provocado pelo enfraquecimento da hegemonia americana não tem ocupante. Este é um fato notável do período mundial aberto depois da crise econômica de 2007 e afirmado com os levantes revolucionários iniciados na Tunísia em 2011. O resultado é que há uma crise de dominação; pela primeira vez o mundo está mais “dominado” pela incerteza e pelo caos que por una potência.

Não cremos, tampouco, que seja fácil para Putin intervir militarmente no conjunto da Ucrânia ou em sua zona oriental; Rússia também teve seu Afeganistão nos anos 80, uma derrota nas mãos do povo afegão que precipitou sua crise. Quem menos quer problemas com a Rússia é o imperialismo alemão, com fortes interesses econômicos na área e, como a França e o resto da Europa, dependente em grande medida do gás e petróleo russo. Tampouco a Inglaterra, já que Londres é um lugar privilegiado para os investimentos dos magnatas russos. Por isso é difícil e improvável uma guerra como anunciavam os jornais há alguns dias.

Maidan; uma nova praça revolucionária

O centro da mobilização ucraniana que se extendeu a muitas regiões foi a praça Maidan. Ali se decidiu, depois de três meses de ocupação e depois de uma semana de repressão violenta, enfrentada pelos manifestantes, que deixaram 12 mortos, a queda de Yanukovich. Esse foi o mais importante triunfo da mobilização que acabou com o regime repressor, a serviço de una elite de grandes oligarcas burgueses que não pagam impostos. O mesmo Yanukovich, e sua familia, já se havia convertido em parte desta oligarquia. A imprensa mundial mostrou seu palácio e sua garagem com mais de 20 carros de luxo.

Como muito bem argumenta a “Oposição de Esquerda”, que aparece como o grupo mais forte da esquerda ucraniana, o motor do levante foi a situação de crise social, os baixos salários, o desemprego, e a corrupção. Maidan tem muitas semelhanças com as outras praças; é uma continuação delas. Há muitos pontos em comum nas reivindicações, no caráter popular dos ocupantes e nos métodos. Ocupa-se o território, se auto-organiza,  desafia-se e  triunfa-se sobre a repressão. Como explica o dirigente do sindicato autônomo Denis, se bem que não estava presente a classe operária como tal, e que não tenha havido neste período uma greve geral, havia muitos trabalhadores, especialmente os assalariados.

É que as praças passaram a ser una nova forma de mobilização popular revolucionária que a velha esquerda não entende (ou não quer entender). Ali estão os desempregados, os jovens, a classe média empobrecida frente ao 1% que se apropria de toda la riqueza. Essa combinação de setores é fruto da exploração capitalista, é resultado da crise global que vivemos, que inclui a crise de representatividade dos partidos políticos e seus regimes. É revolucionário que as pessoas queiram decidir nas ruas e não simplesmente no voto em um político. É isso o que “muda a vida das pessoas”. No Brasil, foram as Jornadas de Junho e não o governo petista.

A direita e as dificuldades para construir uma alternativa independente

A falta de uma alternativa independente explica por que as opções para o país terminaram sendo, de um lado, os partidos que reivindicavam a entrada da Ucrânia na UE, e de outro, a Rússia. Tirar o pró-russo Yanukovich fez com que a mobilização fosse pró-UE, ainda que isto não tenha sido o essencial, e que um partido de direita como Svoboda tenha capitalizado uma parte dessa opção.

A direita fascista existe historicamente na Ucrânia (se viu muito fortalecida com o stalinismo, como explica Maycon). As direitas fascistas se fortalecem em um setor de massas quando a democracia burguesa entra em crise, sendo então possível que um setor das massas (inclusive setores pobres) vá para a direita, algo que se torna mais provável e mais agudo quando os trabalhadores como classe não oferecem uma pressão por outra saída. O fascismo se fortalece com o aumento da tensão inter-étnica na Ucrânia e com o aumento da presença do imperialismo russo. Não vai ser a Rússia quem vai parar o fascismo. Apenas a luta unitária dos trabalhadores e da juventude ucraniana por sua independência real é o único meio para derrotá-la.

A praça Maidan mostrou que nos momentos em que a situação se torna aguda e as massas se veem obrigadas a passar para ações mais radicais frente à repressão, os setores disciplinados militarmente do aparato fascista apareceram e de fato se mostraram maiores do que realmente eram. Essa posição de radicalizar ou dirigir nesses momentos não pôde ser disputada pela esquerda, a qual não contava sequer com uma pequena e disposta força organizada.

Como disse o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Independentes “Abtohomha” Denis, em entrevista no site Avtonomia.net, ” a classe operária não esteve como tal”. Sem fazer um fetichismo da nossa classe, não se pode minimizar o fato de ela não ter estado como classe. As praças alcançam uma espontaneidade e uma heterogeneidade que são extraordinárias, porém apresentam dificuldades em encontrar reivindicações concretas e comuns. Por isso o programa era negativo, remover Yanukovich, e a UE acabou ocupando o espaço das reivindicações positivas. A ausência da classe também foi sentida de forma qualitativa, sem o seu aporte para dar mais organização e disciplina de classe ao correto espírito “assembleeiro”.

Por outra parte, restou-lhe a possibilidade de conseguir a unidade nacional do movimento e ter mais condições para construir uma alternativa independente. A formação histórica da Ucrânia e suas divisões (ver a contribuição em anexo de Maycon Magalhanes), conspirou também para que não se tenha unificado ao redor da mobilização de Maidan, à diferença do que aconteceu em outros países.

Contra a secessão da Ucrânia

Em um dos últimos textos da “Left East ” sobre a Ucrânia o editor escreve que

“Somos a favor da preservação de uma Ucrânia unida, como um fenômeno cultural único. A coexistência de diversas etnias só enriquece a cultura humana universal. No caso de o país dividido, o Estado de chauvinistas será estabelecida em ambas as partes. Todos os conflitos na Ucrânia são resultado da ditadura dos oligarcas. A Ucrânia pode ser consolidada na base de derrotar a regra dos oligarcas – os trabalhadores do Leste e do Sul quer também a mudança social e eles devem entender que inflamar o conflito secessionista simplesmente adia as perspectivas de melhorias para um futuro imprevisível.

Somos a favor da auto-determinação da Criméia somente após a retirada dos exércitos russos que estão realizando esta intervenção flagrante. Somos a favor da auto-determinação do povo, e não da elite mercenário que “eu determinar”, de modo a proteger-se de Crimeans com os focinhos de armas automáticas russas.”

Parece-nos que onde há lutas pela autodeterminação, como na Catalunha, se vivem dois processos. De uma parte, o legítimo direito de decidir e de se independentizar; de outra parte, que em todos estes processos, na medida em avançam, vão colocando não apenas na propaganda, mas também na forma mais concreta a tarefa histórica de uma “federação europeia igualitária entre os países”, tal como formulou Trotsky (em um escrito de 1917 em meio à guerra mundial e antes que ocorresse a tomada de poder pelos bolcheviques) que posteriormente colocou a tarefa como “Federação Socialista”. Assim o vão pedir os trabalhadores gregos, da Catalunha, Ucrânia e de todos os países que se levantem.

Nosso aporte para construir uma alternativa

A imprensa burguesa omite, mas a esquerda anticapitalista existiu em Maidan. É um orgulho para todos os revolucionários do mundo saber que está se forjando uma nova esquerda, ainda que pequena, na nova situação do Leste Europeu e da Rússia, apesar do corte contrarrevolucionário do atraso histórico produzido pelo stalinismo. Os dez pontos que apresentaram os companheiros (http://laurocampos.org.br/2014/01/ucrania-dez-teses-da-oposicao-de-esquerda/) foram um aporte importante na perspectiva de construir um grupo que levante um programa alternativo, mas foram um pouco mais do que nada para fazer propaganda e ganhar gente e não para disputar a praça e a direção que só é possível fazer com consignas concretas críveis para as massas. Entretanto, isso sem dúvidas mostra a maturação de uma esquerda para começar a tarefa de fortalecer um grupo político que seja no futuro capaz de dar essa alternativa. Para se construir algo como o Syriza ou mesmo o PSOL se necessita tempo para formação de quadros e seguramente isso vai se acelerar com a experiência feita. Aqui uma vez mais não só aparece o problema dos Ucranianos, mas também de todos os marxistas revolucionários: a falta de uma organização internacional capaz de ajudar concretamente nestes processos. A Ucrânia volta a escancarar este problema. Não só pensamos a construção de um polo internacional que tenha autoridade, mas também que como passo prévio para isso está a necessidade de haver um núcleo composto por várias organizações o qual atue ajudando aos marxistas do país onde a luta de classes estiver mais concreta e que também permita contar com materiais políticos que extraiam conclusões dessas experiências.

A Ucrânia não está sozinha, a região se move.

A Ucrânia não foi um processo isolado e sim parte de uma dinâmica comum a diferentes países. Na Bósnia, houve um levante operário e popular pelo descontentamento crescente desde 2013 em uma sociedade que tem cerca de 60 % de desemprego, atingindo 80% entre os jovens. No início de 2014, se fizeram sentir medidas privatizadoras que tiraram os benefícios da seguridade social e que levou a perda da aposentaria de muitos trabalhadores. A revolta começou em Tuzla e se estendeu para Saravejo, Bihac e outras cidades. Formaram-se assembleias democráticas à margem dos sindicatos graças às redes sociais que foram um veículo para driblá-los. Catarine Samary comenta que os “trabalhadores e cidadãos de Tuzla foram chamados para a manutenção da ordem pública e da paz atravez da cooperação  entre os cidadãos, a polícia e proteção civil, de modo a evitar a criminalização, a politização ea manipulação de demonstrações”. O companheiro Esmir de um novo grupo político juvenil formado na Bósnia comentava que surgiu um governo tecnocrata do Cantão até as próximas eleições que é obrigado a dar informes semanais para as assembleias e para os cidadãos. O desafio é se o governo será capaz de confiscar os bens adquiridos de forma fraudulenta, decretar a anulação dos acordos de privatização, dar as fábricas de volta para os trabalhadores e reiniciar a produção assim que possível for.

Temos conhecimento também de conflitos na Bulgária e Romênia, zonas mais próximas dos Bálcãs e da Turquia. Anatoly Matveenko, dirigente do comitê da histórica greve de 1991 na Bielorrússia, que mantém o SMOT como a organização operária mais reconhecida em seu país apesar da repressão de Lukashenko, escreve que “é possível que depois de Maidan se inicie um movimento muito interessante e uma divisão grande na esquerda em toda a zona da ex-URSS entre o movimento stalinista e todos os demais. Há que se trabalhar bastante internacionalmente porque existe uma boa possibilidade com estes grupos na Rússia, Ucrânia, Letônia e Cazaquistão.” Disse que por agora o regime de Lukashenko compreende seu poder pode ser derrubado muito rapidamente. Lukashenko deposita sua grande esperança no Kremlin, que financia o regime. “Começa um 1991, mas em uma nova qualidade” termina dizendo Anatoly…

Estes informes objetivos mostram que a revolução é permanente no sentido que o sucedido em um país se estende à região. Isso é a novidade mais importante que ensina a Ucrânia. Como afirma Matveenko, a Ucrânia separou o velho stalinismo da nova esquerda e começou uma nova onda que é de outra qualidade à do período 89/91. Agora se enfrenta o capitalismo oligárquico, mafioso e selvagem que se impôs nesses países. Dois conceitos da revolução permanente de Trotsky têm toda sua vigência e foram corroborados: que não há socialismo em um só país e que a revolução começa no terreno nacional mas é internacional. Egito, Tunísia, e agora Ucrânia e Bósnia mostram esse caminho. Nosso dever é o da solidariedade internacionalista concreta com esses processos que começaram.

Sobre a história da Ucrânia

Maycon de Almeida

        Não é possível compreender adequadamente o processo político que se desenrola hoje na Ucrânia sem levar em consideração, ainda que em seus traços mais gerais, o percurso histórico dessa nação em sua dramaticidade concreta. Uma história de lutas ininterruptas pela unificação e libertação nacionais contra a fragmentação e a dominação estrangeira, impostas desde o período do desmantelamento definitivo do Principado de Kiev e da invasão mongol, ainda no século XIII! Desde então, os ucranianos têm enfrentado a partilha de seu território e o saqueio de seus recursos naturais e humanos – além do silenciamento de sua identidade nacional – por parte de sucessivos e diferentes invasores estrangeiros.

Mongóis, poloneses, lituanos, austríacos, húngaros, romenos, alemães e, sobretudo no último século, russos, todos, em maior ou menor medida, participaram  na longa história do processo de subordinação e opressão nacional do povo ucraniano, e todos, também em maior ou menor medida, tiveram de experimentar a tenacidade e a firmeza de propósito dos ucranianos em defesa da liberdade e da unidade de sua pátria. A experiência da “república cossaco-ucraniana” e sua rebelião contra a opressão cultural e o regime de servidão impostos pela monarquia polonesa, em meados do século XVII, demonstram claramente que a luta nacional do povo ucraniano está profundamente marcada na constituição de sua própria identidade e história.

A chegada do século XX, e o ciclo de “guerras e revoluções” que se abriu, encontrou, como sempre, a Ucrânia dividida: uma parte (ocidental) submetida ao Império Austro-húngaro e outra (oriental), à Rússia czarista. A I Guerra Mundial e, especialmente, o movimento revolucionário dos trabalhadores que depôs o czar na Rússia, e irradiou sua influência para a Europa central, deram novo impulso à luta pela unificação e emancipação nacional da Ucrânia. No processo revolucionário que sepultou o Império Russo e deu origem, em 1922, à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, não foi pequena a participação dos revolucionários ucranianos no combate por sua emancipação social, enquanto trabalhadores, e por sua emancipação nacional, como ucranianos. Fruto de uma acertada política dos revolucionários bolcheviques, devida ao insistente combate de Lênin ao chauvinismo russo dentro e fora do partido, a questão nacional ucraniana encontrou, nesse momento, sua mais avançada expressão nos trilhos da revolução socialista.

A importância da questão nacional ucraniana, em si mesma, e na relação com a revolução proletária europeia e internacional, foi destacada e abordada de modo incisivo por Lênin, ainda em 1914, em uma dura polêmica com Rosa Luxemburgo e outros dirigentes socialistas que não compreendiam a necessidade da defesa do princípio da autodeterminação dos povos, em geral, e do ucraniano, em particular. “Formar um Estado nacional autônomo e independente segue sendo por enquanto, na Rússia, tão só um privilégio da nação russa. Nós, os proletários russos, não defendemos privilégios de nenhum gênero e tampouco defendemos este privilégio. (…) Assim, por exemplo, depende de mil fatores, desconhecidos de antemão, se à Ucrânia  caberá formar um Estado independente. Como não queremos fazer ‘conjecturas’ vãs, estamos firmemente por aquilo que é fora de dúvida: o direito da Ucrânia a semelhante Estado. Respeitamos este direito, não apoiamos os privilégios do russo sobre os ucranianos, educamos as massas no espírito do reconhecimento deste direito,  no espírito da negação dos privilégios estatais de qualquer nação”[1].

A Ucrânia na União Soviética

Depois de um primeiro momento no qual a “política das nacionalidades” garantiu amplo florescimento da autonomia e da cultura ucranianas nos marcos da União Soviética (sem esquecer que a porção ocidental da Ucrânia, sob jugo polonês, não foi incorporada, nesse momento, à Ucrânia Soviética), o crescente autoritarismo centralista e grão-russo da burocracia instalada no Kremlin, que passou ao controle de Stalin, estraçalhou, sob botas, fuzis e fome, o avançado e intenso processo de “ucranização socialista” da sociedade e da cultura desse povo.  Os ucranianos viram-se submetidos ao pior dos horrores impostos pelos expurgos e pela repressão genocida, que se abateu muito especialmente sobre os intelectuais, dirigentes e militantes partidários dessa “ucranização socialista”. É nesse momento, nos anos 1930, que se estabelece uma profunda ruptura entre o sentimento e as exigências nacionais ucranianas, por um lado, e a União Soviética como projeto, por outro lado. Com o extermínio do setor de esquerda da cultura e da política ucranianas, abriu-se o espaço para a hegemonia do nacionalismo reacionário, anti-semita, anti-russo, anti-soviético e visceralmente pró-nazista de Stepan Bandera (que hoje volta à tona) no movimento e no ideário nacional ucraniano.

É importante atentar para o que escreve Trotsky nesse momento sobre a questão ucraniana, no limiar do início da II Guerra Mundial, e em relação com sua crítica ao totalitarismo burocrático de Stalin na União Soviética. “Não sobra nenhum vestigio da anterior confiança e simpa­tia das massas ucranianas em relação ao Kremlin. Desde o  último ‘expurgo’ assassino na Ucrânia, ninguém quer, no Oeste, passar a formar parte da satrapía do Kremlin que continua levando o nome de Ucrânia Soviética. As massas operárias e camponesas da Ucrânia Ocidental, de Bukovina, dos Cárpatos ucranianos estão confusas: a quem recorrer? O que pedir? Esta situação desvía naturalmente a liderança para as camarilhas ucranianas mais reacionárias, que expressam seu ‘nacionalismo’ tratando de vender o povo ucraniano a um ou outro imperialismo em troca de una promessa de independência ficticia. Sobre esta trágica confusão, baseia Hitler a sua política na questão ucraniana. Dissemos em uma oportunidade: se não fosse por Stalin (por exemplo, a fatal política do Comintern na Alemanha), não havería Hitler. A isso se pode agregar agora: se não fosse pela violação da Ucrânia Sovié­tica por parte da burocracia stalinista, não havería política hitlerista na Ucrânia”[2].

É certo que a retirada forçada das tropas de Hitler, imposta pelo Exército Vermelho, expandiu as fronteiras da Ucrânia Soviética, a ponto de agrupar em seus limites praticamente toda a nação ucraniana, também é certo que os nazistas e “banderistas” promoveram uma política de exterminio na Ucrânia ocupada (sobretudo contra poloneses, judeus e anti-fascistas). No entanto, tambem é certo que o massacre promovido anteriormente por Stalin não foi menos importante, e que sob os sucessivos mandos burocráticos da União Soviética, cristalizada como um Estado operário degenerado (na precisa definição de Trotsky), os ucranianos foram mantido sob uma asfixiante e violenta opressão nacional, e o que é pior, sob o demagógico  – e hipocritamente repulsivo – simbolismo da Revolução de Outubro, do Socialismo e de Lênin. O desmantelamento da União Soviética, em 1991, e a consequente restauração do capitalismo na forma de um “capitalismo oligárquico” de poucos para poucos, possibilitou que viesse à tona um Estado nacional ucraniano unificado, pleno, no entanto, de contradições econômicas, sociais, políticas e identitárias herdadas do passado e reatualizadas no presente, sobretudo, pela pressão do neo-imperialismo russo, de um lado, e do imperialismo europeu e estadunidense, de outro.

No que se refere à Peninsula da Criméia, pertencente à Rússia desde o século XVIII, e pivô – no século XIX – da guerra desse país contra o Império Otomano, trata-se de uma região de grande interesse estratégico, que há muito sedia a frota militar russa do Mar Negro, sua saída para o Mar Mediterrâneo. Com a morte de Stalin, em 1953, abriu-se um processo político que levou ao poder Nikita Krushev. O novo líder da União Soviética deu início a um conjunto de “reformas” voltadas a recompor o equilíbrio político interno, abalado por pressões inúmeras resultantes da “descompressão” do arranjo dependente da figura autocrática de Stalin. É nesse contexto que, em 1957, Krushev, de origem ucraniana, doa como um “presente” a Criméia – de população predominantemente russa – à Ucrânia, como uma forma de aliviar as pressões separatistas surgidas no período. Essas pressões eram demonstração prática do persistente sentimento nacional dos ucranianos e do ambiente asfixiante sob o qual se encontrava esmagado na União Soviética.

Rio de Janeiro, 7/3/2014


[1] V. I. Lênin:  “O direito das nações à autodeterminação”. 1914

[2] L. Trotsky: “A questão ucraniana”. 1939

* Pedro Fuentes é secretário de relações internacionais do PSOL e dirigente do MES