Luciana Genro

MES

Por novos levantes no Brasil

16 de agosto de 2013 19h15

Tese do Movimento Esquerda Socialista e do Mandato do Deputado Estadual Carlos Giannazi ao IV Congresso Nacional do PSOL

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As jornadas de junho abalaram o Brasil e mudaram a correlação de forças entre as classes a favor dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre. Abriu-se um período no qual o resultado dependerá, em última análise, da capacidade de organização, da clareza programática do movimento de massas e do desenvolvimento de uma direção da classe trabalhadora. Neste período, que será marcado também por incertezas, o PSOL deve mostrar sua utilidade, postular-se como alternativa e contribuir para que se abra possibilidades de vitórias para as forças populares.

Desde 2011, nossa tese tem batalhado para que o PSOL se construa como o partido dos indignados. Afirmávamos já em 2008, a partir da eclosão da crise capitalista mundial (somente equiparável à depressão de 1929), que se conformava na situação mundial um giro histórico. Sua marca principal foi o início de uma estagnação econômica mais profunda e prolongada, superior em dimensão às crises cíclicas de momentos anteriores. Também se observa um limite maior à ofensiva ideológica do capitalismo. Nesta nova situação, as possibilidades de transformação se ampliaram, conformando situações pré-revolucionárias, revolucionárias, e eclodindo revoluções. O período de relativa estabilidade capitalista encerrou-se.

Em janeiro de 2011, ocorreu a chamada primavera Árabe, revoluções que derrotaram ditaduras de décadas. Estes processos apresentaram os traços deste novo período histórico. Se evidenciou o caráter multitudinário do movimento de massas, o peso da juventude no interior do movimento, a utilização democrática das redes sociais, bem como a ausência de direções anticapitalistas com influência entre as massas, a maior contradição de todo o processo em curso. Os indignados espanhóis, a juventude portuguesa, o Ocuppy Wall Street, a ira dos jovens negros na periferia de Londres demonstraram que este novo ascenso das lutas sociais não se restringia ao norte da África.

Contra os que afirmavam, também no interior do PSOL, como a tendência denominada APS — corrente comunista, de que o Brasil vivia uma realidade distinta, com estabilidade política sólida, crescimento econômico e sob uma ofensiva conservadora, sustentávamos que o cenário mundial começara a incidir sobre a situação nacional. E, portanto, defendíamos que o partido deveria se preparar para a abertura de novas possibilidades, defendendo a mobilização como principal método de intervenção política, priorizando a juventude e politizando a atividade partidária com a intensificação do internacionalismo. Nossa aposta se materializou no incentivo à construção do JUNTOS, juventude anticapitalista, com uma estrutura organizativa independente, capaz de construir mediações com os anseios das amplas camadas de jovens ativistas que despertam para a luta política.

Acreditamos que o grande desafio do PSOL neste IV congresso é ser fiel ao Evento de Junho. Nossas tarefas, nossa política, o conjunto de nossa atividade militante deve estar sintonizada com o novo momento, concatenado com a nova situação mundial. Por isso, dialogando com todos os militantes do PSOL, nossa tese se inscreve também na construção do Bloco de Esquerda no interior do partido, unidade de forças que será fundamental para atuar no dia a dia da luta de nosso povo e para que o PSOL corresponda aos objetivos imediatos e históricos da esquerda revolucionária.

O levante de Junho mudou o Brasil

A estagnação industrial dos últimos dois anos demonstra que os efeitos da crise capitalista mundial já haviam iniciado em 2011. As greves operárias nas obras do PAC e, sobretudo, os levantes dos bombeiros e das forças da polícia militar de diversos estados, em particular na Bahia, expressaram os primeiros sintomas da nova situação e abriram uma nova conjuntura. Para nós, a definição deste momento era de uma situação intermediária, de maior polarização e intensificação dos conflitos de classes que aumentariam a exposição do governo, afirmando a possibilidade de um salto de qualidade nas lutas sociais. A vitória na capital gaúcha – na qual o preço das passagens foi reduzido devido a uma ação juvenil sem precedentes nos últimos anos, combinada com a intervenção da bancada do PSOL – serviu como exemplo para a mobilização em São Paulo e a partir deste centro explodiu em todo país, configurando o maior levante juvenil e popular dos últimos 50 anos.

A ação multitudinária, cujo eixo foi a qualidade e o valor das tarifas do transporte público, incorporaram inúmeras outras demandas. Como a defesa da saúde e da educação pública e de qualidade, o repúdio aos gastos com a Copa as Olimpíadas e à corrupção dos políticos. As jornadas de junho explicitaram o protesto das massas contra a má utilização dos fundos públicos e sua disposição para garantir a vontade popular. O símbolo deste levante foi a defesa da “saúde e da educação no padrão FIFA”. As principais instituições desta democracia limitada, dominada pelas grandes corporações capitalistas, também foram alvo da maioria das críticas. O ódio aos políticos e aos partidos tradicionais demonstrou a profunda crise de representação existente. As ações de massas durante este último período abalaram o regime político, cuja recomposição não está à vista.

O movimento das ruas rejeitou todos os aparatos que pudessem se confundir com a forma partidocrática que domina a política tradicional. O rechaço atingiu não apenas os partidos tradicionais, mas também as centrais sindicais, a UNE e até partidos da esquerda socialista quando estes não percebiam a vontade das massas em afirmar sua autonomia e insistiam em se apresentar com seus próprios aparelhos (grandes faixas, bandeiras e carros de som), na tentativa de dirigir um movimento que estes não haviam promovido e que não tinham a menor capacidade para coordenar.

O levante terminou, mas nem a correlação de forças, nem as características da situação política voltarão ao patamar anterior às jornadas. O povo acordou, percebeu sua força e sua capacidade de alcançar conquistas, pequenas em relação à força do movimento, porém maiores que as obtidas em muitos processos eleitorais. A tendência é que a nova normalidade seja de ascensos do movimento de massas e a multiplicação de novos conflitos, setoriais e parciais. Para uma geração de jovens lutadores, a experiência desses dias valeu por anos de aprendizagem.

O nível de politização das ruas foi alto. O apelo democrático, a ruptura com monopólio da velha política, a rejeição às velhas estruturas de representação apontam para um salto na consciência. Esse salto ainda está determinado pela negativa, sendo, portanto, ainda incipiente. A queda na aprovação de Dilma foi impressionante. Assim como, debilitou-se a governabilidade de administrações estaduais como a de Sérgio Cabral. A situação do Rio é a mais avançada e de fato a possibilidade de queda de Cabral é real. Como regra todos os governos se desgastaram, em poucos dias perderam em apoio o que em tempos normais demoraria anos. Isso vale tanto para os partidos tradicionais da direita quanto para o PT e PC do B.

A revelia do perfil e do acúmulo conquistados durante o levante, a paralisação nacional convocada para o dia 11 de julho foi muito menos impactante do que poderia e menos importante em comparação à jornada que mudou o Brasil. Mesmo assim, sua força indicou que importantes setores da classe trabalhadora foram animados para entrar na luta, apesar do desgaste e da incapacidade das centrais sindicais para se inserirem na mobilização de massas. A força do dia 11, com paralisações de inúmeras categorias e greves gerais em estados como o Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, sinaliza para a possibilidade de entrar em cena de batalhões de trabalhadores. Este ascenso sindical que se avizinha tende a aumentar o surgimento de novas lideranças, como as que se produziram na greve dos bombeiros do Rio. A tendência também é que a pressão do ascenso combinada com a crise econômica e o enfraquecimento do PT, provoque deslocamento e rupturas na burocracia sindical e movimentos no interior das próprias centrais tradicionais. A corrente sindical “CUT pode mais” no RS é uma pequena amostra do que pode vir.

Uma perspectiva de crise e desorganização do regime

A tendência é que a crise nacional siga se desenvolvendo, incrementada pelo agravamento das condições econômicas. A redução da balança comercial, a contenção do investimento e do crédito, o endividamento das famílias perto do seu limite apontam não apenas para a estagnação da indústria, mas também para a retração do conjunto da economia, para o aumento do desemprego e da carestia. O déficit nas transações correntes – nas contas externas – foi de 43, 5 bilhões, um salto de 72% no primeiro semestre, o que seria correspondente ao maior valor desde o ano de 1947.

A situação do PT é de crise, perda de prestígio e de capacidade do controle do movimento de massas. O desgaste de Dilma é de difícil reversão. Por sua vez, a volta de Lula e sua postulação como candidato à presidente é muito complicada. Não apenas por razões de saúde, mas porque anteciparia o final do mandato de Dilma, ao mesmo tempo que exigiria de Lula a explicação de sua escolha pelo nome da presidenta. Tampouco é claro se Lula tem disposição em colocar a cara para controlar a situação.

O agravante para a burguesia é que não há lideranças políticas burguesas postuladas como alternativa de mudança. Esta é, aliás, a sorte do PT. Não existe um projeto conservador capaz de unificar o conjunto da burguesia, para a construção de uma forte oposição de direita. A oposição de direita saiu ainda mais fraca das jornadas de junho, não mais forte. As pesquisas mostram isso, em particular pela debilidade de Aécio, o que pode levá-los a optar por Eduardo Campos. Isto demonstra a falácia do argumento de que a direita tinha alguma possibilidade de disputar o movimento de junho.

Há, portanto, uma crise da hegemonia burguesa sob o comando do PT e simultaneamente uma incapacidade da oposição de direita armar um projeto hegemônico alternativo. Ao passo que os trabalhadores também não possuem sua própria alternativa independente. Este é o impasse que tende a se arrastar e que pode se desdobrar como crise nacional. Podemos dizer que o Brasil está em trânsito entre uma situação não revolucionária para uma situação pré- revolucionária. Do ponto de vista eleitoral Marina esta capitalizando. Entretanto, é evidente que Marina não tem projeto coerente nem tampouco capacidade de hegemonia. Sua Rede pode aproveitar eleitoralmente pelo enorme vazio político. Marina não é vista por amplas parcelas de massas como parte do regime que foi questionado nas ruas, embora o seja. Sua integração mais visível ao regime – além de sua defesa do modelo econômico atual, que ela sustenta de modo tímido e velado – organizasse na defesa de posições reacionárias no terreno do modo de vida e dos direitos civis.

Como parte do desgaste do conjunto das instituições do regime, cabe destacar o da Rede Globo, na prática o principal “partido” burguês no Brasil. Pois a novidade, além do seu desgaste diante do movimento de massas mais consciente, está na redução de seu peso em relação ao avanço da influência das mídias livres e das redes sociais. O Brasil já é o 5 º país com o maior número de participantes da internet. Uma das novidades das manifestações foi a cobertura da chamada “mídia Ninja”, que transmite em tempo real as passeatas, responsável, por exemplo, pela denúncia da ação de policiais infiltrados.

Nosso centro deve ser o apoio às lutas que vão se multiplicar

Devemos com tudo isso levar em conta que as condições que provocaram o levante de junho não apenas se mantém, mas tendem a se agravar. Esta é a perspectiva: multiplicação das lutas. O próximo sete de setembro será provavelmente um novo momento de unificação nacional dos protestos.

Atualmente, em crises regionais como a do Rio de Janeiro, onde a possibilidade de queda do governo estadual é real e onde o PSOL tem peso eleitoral de massas, aumentam muito a responsabilidade do partido. Devemos nos construir como um partido de ação, de combate, que atue de modo firme para se postular como alternativa.

No próximo período também será nosso desafio fundamental apoiar as organizações de juventude; em nosso caso temos prestado apoio a coletivos como o Juntos e o MPL. Por agora, inexistem organismos gerais de centralização do movimento de massas, sequer embrionários (ainda que tenhamos fóruns de luta como o Bloco de luta em Porto Alegre, a Assembléia em BH, o Fórum de lutas do Rio de Janeiro). Esta dificuldade, se não for superada, pode levar a dispersão da energia e do potencial destas mobilizações. Por isso devemos defender os organismos que já existem, embora sejam pequenos, além de impulsionar o processo democrático de auto-organização das bases estudantis e do movimento de massas em geral.

No plano nacional, devemos acompanhar as campanhas salariais marcadas para setembro dos bancários, correios, petroleiros; as lutas do funcionalismo público; Tomam ainda mais força as lutas de caráter democrático, como a do LGBT contra a Cura Gay e o pastor Feliciano; as Marchas das Vadias em defesa dos direitos das mulheres e contra o “Estatuto do Nascituro”. Também as lutas contra a corrupção. Como dito por aqui, a tendência é a massificação dos conflitos e das lutas reivindicatórias.

O PSOL deve lutar por outro tipo de governo e uma nova institucionalidade

Como regra as criticas e as posições do PSOL na última disputa municipal, e ao longo de sua trajetória política, contribuíram para formar as condições subjetivas do levante. São dez anos, desde o momento em que os radicais foram expulsos do PT, que estamos plantando os ideais democráticas, a crítica anticapitalista e a necessidade de uma nova direção para o movimento de massas, que passa necessariamente pela superação do PT como direção histórica do movimento dos trabalhadores. Este crescimento do PSOL se percebe em vários estados e se expressará nas eleições, em especial nas disputas legislativas.

Nosso acúmulo deve servir para ampliar a luta por outro modelo, um outro tipo de governo e por novas instituições. Um programa para estas mobilizações passa por lutar por um governo de outro tipo, que rompa com o capital financeiro. Neste caso, o PSOL deve combinar a disputa eleitoral, a partir de 2014, com a necessidade de uma discussão mais geral sobre a saída para o país. Nossa candidatura a presidente da república deve ser uma expressão do novo momento político. Isto significa, em primeiro lugar, uma candidatura anti regime, que postule a ampliação da democracia direta, maior controle sobre os representantes do povo, e uma Assembléia Popular Constituinte que promova mudanças estruturais na economia e na política.

É preciso reorganizar o país através de uma Assembléia Popular Constituinte, exclusiva, com plenos poderes e com deputados que possam ser eleitos sem partido, em uma eleição sem interferência do poder econômico. Nossas candidaturas a presidente e governadores têm que aproveitar o espaço proporcionando pelas eleições para denunciar o sistema e fazer propostas de mudança. Propomos, para começar, uma reforma política real que modifique aquilo que tem feito da política um grande negócio. Alguns exemplos: salários dos políticos iguais aos dos professores; corte de cargos de confiança; nada de privilégios como carros oficiais; aposentadorias especiais; igualdade no tempo de propaganda política; o fim da venda do tempo de TV através das coligações; fim do financiamento das campanhas pelas empresas privadas; fim da compra de votos através da contratação de cabos eleitorais pagos; revogabilidade dos mandatos.

Ao mesmo tempo temos que lutar para construir um polo nacional, que represente os principais anseios que vieram à tona nas recentes jornadas, que aglutine esta nova vanguarda com amplos setores de massas. Para tanto, é preciso que o partido saia da paralisia e indique seu nome para a disputa a presidencial. Nossa proposta seria o nome de Marcelo Freixo ou de Luciana Genro. Como Freixo tem feito outra opção, o melhor nome, sem dúvida, é o de Luciana Genro. Com seus 40 anos, mulher, fundadora do PSOL, Luciana tem todas as condições de mostrar que o PSOL é o partido fiel ao acontecimento histórico vivido pelo povo brasileiro neste junho de 2013. Até agora a corrente APS, corrente comunista, não apresentou seu nome. O melhor seria se pudéssemos desde já construir a unidade ao redor do nome de Luciana. Mas se isso não for possível, os militantes do PSOL têm o direito de discutir nas plenárias pré-congressuais (e não depois dos delegados terem sido eleitos) quem melhor representa o partido.

Apostar na entrada em cena da classe trabalhadora: por uma corrente sindical de novo tipo

As centrais sindicais não representam nem sequer a maioria dos trabalhadores assalariados. Além de burocratizadas, não são organismos de frente única, cada uma delas impulsionadas por partidos políticos. A CUT tradicionalmente ligada ao PT, a CTB ao PC do B, a Força Sindical ao PDT e a Conlutas ao PSTU. O PSOL não pode mais abstrair esta realidade e atuar de modo ingênuo, ou até imobilista na disputa sindical, como tem ocorrido.

Devemos reconhecer que não há um organismo de frente única da classe trabalhadora e que por um período mais ou menos longo a tendência de fragmentação organizativa continuará. Isso não quer dizer que não se possa avançar em unidade de ação. O próprio dia 11 de julho foi uma prova desta possibilidade. Para influenciar e disputar os rumos do movimento, porém, o PSOL deve se organizar. Isso significa construir um partido que tenha como eixo a mobilização, e não apenas as eleições.

O PSOL deve impulsionar outro tipo de cultura no movimento sindical, de forma aberta, tendo como eixo a democracia operária, o assembleísmo e a luta contra as velhas estruturas. Isso significa apostar na construção de uma alternativa sindical pela base. Tendo esta estratégia é necessária uma medida transitória para enfrentar os atuais aparatos sindicais burocráticos e partidários. As próprias forças sindicais do PSOL, já alinhadas com esta proposta de sindicalismo de base e democrático, devem impulsionar uma central que esteja vinculada com estas ideias gerais. Não quer dizer fazer uma central sindical exclusiva dos militantes do PSOL. O PCB, os prestistas, militantes sem partido, ativistas em geral podem ter lugar numa central democrática e combativa. Mas não podemos nos iludir e acreditar que as forças do PSOL podem alterar a natureza da CUT, da Força Sindical e tampouco alterar a natureza de colateral sindical do PSTU que marca a Conlutas.

Contra a paralisia atual de direção política temos que desenvolver nosso próprio projeto. Isso passa por defender a estratégica de uma verdadeira central sindical que una a maioria dos trabalhadores brasileiros, mas não se pode defender isso seriamente sem sequer organizar a unidade das forças do próprio partido. Neste sentido defendemos uma proposição básica e mínima: construir uma tendência sindical unificada de todas as correntes do PSOL, como expressão pública permanente, com funcionamento regular e com eixo no apoio às lutas e a formação de novas direções sindicais.

Os militantes desta tendência sindical referenciada no PSOL, ou sob a influência do partido, ou de um bloco – ou como se queira chamar esta unidade psolista – teriam direito de atuar livremente no interior das distintas centrais, principalmente da CUT, Conlutas ou intersindical desde que mantivessem sempre as bandeiras desta tendência, seus símbolos, divulgando amplamente esta nova organização.

Estamos na primeira fileira! Combater o oportunismo e o vanguardismo

Na disputa pelo movimento de massas teremos que combater o oportunismo e o infantilismo esquerdista e vanguardista. Quanto ao oportunismo, o maior antidoto é a definição clara da oposição de esquerda ao governo do PT. Além, é claro, de afirmar nossa oposição à direita tradicional. A luta contra o PT é fundamental porque este partido seguirá tentando enganar o povo, aproveitando-se do fato de que a direita tradicional se mostra ainda pior. Agora, por exemplo, é possível que o PT trate de reivindicar a legitimidade do levante de junho. Mas tal discurso demagógico, tal tentativa de desviar e descaracterizar a natureza deste acontecimento, não anula o amplo desgaste deste partido. O levante foi contra o PT, contra seu governo, seu regime e seus aliados, em especial o PMDB. A maioria de nossa militância não aceita que nossos porta-vozes posem sorridentes para fotos oficiais com a presidenta (como fez o senador Randolfe), simbolizando o apoio a sua política. Isso não nos representa.

Contra o esquerdismo e o vanguardismo é preciso, como sempre, afirmar a necessidade da organização do movimento de massas e a defesa de um programa de urgência que responda às necessidades dos trabalhadores, dos jovens e do povo pobre e que partam do seu nível de consciência atual. Temos que disputar contra os setores que acabam transformando táticas em estratégias, particularmente defendendo a violência em si mesma ( o que pode provocar atrasos consideráveis no movimento, fazendo um serviço para o governo) e desta forma diluindo a necessidade do diálogo com o movimento de massas. Uma série de correntes e coletivos automistas e anarquistas devem ganhar certo peso na vanguarda, como fenômeno reativo à traição do PT e do PCdoB, fermentados pela radicalidade dos enfrentamentos de rua. Nossa luta em meio a este processo é evitar qualquer vanguardismo, que nos descole da maioria do povo. Inclusive para enfrentar o aparelho repressivo é fundamental ganhar a maioria dos trabalhadores e organizar a autodefesa do movimento, não a agressão gratuita de grupos anarquistas.

Um programa de urgência em consonância com a “agenda de junho”

As bandeiras das jornadas de junho formam a base deste programa, cujos eixos de agitação são a luta por salário, em defesa do emprego, da saúde e da educação públicas. Como partido devemos ir mostrando que a grande disputa pelo fundo público nacional deve ser dada contra o capital financeiro e seus agentes políticos, denunciando o lucro dos bancos, e deixando claro que são estes os principais recursos que devem ser resgatados pelo Estado brasileiro, direcionando-os para atender as demandas de interesse público e popular. Neste sentido apresentamos as propostas de auditoria da dívida e suspensão do pagamento dos juros.

A seguir algumas das medidas que acreditamos devem marcar nossa atuação e política.

1. Aumento geral dos salários. Não às demissões.

2. Contra o aumento das tarifas públicas – congelamento do preço da cesta básica. Educação e Saúde Padrão Fifa. Por investimentos públicos.

3. Abertura das planilhas das empresas que prestam serviço público. Auditoria nas contas e revisão das concessões. Trasporte público e de qualidade. Passe-livre para estudantes e desempregados. Rumo a Tarifa Zero.

4. Prisão para os corruptos e corruptores. Abertura do sigilo fiscal, telefônico e bancário dos parlamentares em todos os níveis;

5. Suspensão do pagamento da dívida pública, realizar a auditoria como proposta pela CPI e pela campanha da Auditoria Cidadã;

6. Fim do superávit primário. Redução das taxas de juros. Controle social e popular da Economia. Estatização do sistema financeiro;

7. Revisão da Lei Geral da Copa. Apoio às greves dos canteiros de obras. Não às remoções. Contra os lucros da FIFA. Pela inversão de prioridades, através de maiores investimentos em Saúde e Educação;

8. Anulação da Reforma da Previdência votada pelo mensalão. Fim do fator previdenciário;

9. Reestatização da Vale. Não às privatizações dos serviços essenciais, dos portos, das malhas ferroviárias e dos aeroportos. Fim dos leilões de bacias petrolíferas. Por uma Petrobrás 100% estatal. Não à privatização dos hospitais universitários. Não ao projeto da EBSERH;

10. Redefinição do papel do BNDES – dinheiro público para empresas públicas! Fim das isenções fiscais para as grandes empresas! Benefícios fiscais apenas às pequenas empresas e para o povo.

11. Reforma agrária já! Pelo fim da impunidade e pela investigação dos crimes no campo. Mais linhas de financiamento para pequenos e médios agricultores;

12. Defesa do meio-ambiente. Pela preservação da biodiversidade e das riquezas naturais deste país. Não à construção da usina de Belo Monte.

13. Defesa das demarcações das terras indígenas e quilombolas. Defesa dos ribeirinhos e das comunidades originárias;

14. Pelo direito de greve. Fim da espionagem contra os movimentos sociais. Fim dos processos e das prisões aos que lutam. Pelo direito à sindicalização dos militares. Abaixo a criminalização dos movimentos sociais;

15. Reforma tributária progressista. Votação do projeto de lei que regulamenta o imposto sobre as grandes fortunas. Fim das isenções e da guerra fiscal;

16. Aprovação do PLC 122 – Por um Brasil sem Homofobia. Criminalização da homofobia;

17. Basta de guerra contra os pobres e mortes na periferia. Contra a criminalização da pobreza e pela investigação dos assassinatos. Reparação e indenização para as vítimas. Combate às milícias; Desmilitarização das polícias.

18. Ampliação dos direitos das mulheres. Aprimoramento da Lei Maria da Penha. Mais creches públicas. Pela descriminalização do aborto. Contra o Estatuto do Nascituro;

19. Regulação da grande mídia. Democratização dos meios de comunicação. Fim dos monopólios. Contra as leis restritivas do Ciberespaço. Pela liberdade para Assange, Manning e Snowden;

20. 10% do PIB para a Educação. Pela aplicação imediata do piso salarial nacional para os professores. Ampliação das verbas para a pesquisa, ensino e extensão nas universidades públicas;

21. Nova política nacional de drogas, seguindo o exemplo do Uruguai. Pela descriminalização das drogas;

22. Financiamento público de campanha (e outras medidas que defendemos acima neste texto)

23. Por um plano nacional de construção de moradias populares. Por uma política mais efetiva de apoio aos atingidos por enchentes e por catástrofes.

A necessidade de uma política internacional

Um dos principais desafios do IV Congresso é rearmar uma política internacional de nosso Partido. Para atuar no terreno internacional devemos ligar nosso projeto às diversas lutas emancipacionistas que ocorrem no mundo. Acreditamos que são três os eixos fundamentais para nossa linha internacional, onde se combinam lutas democráticas, anticapitalistas e antiimperialistas:

1. Apoio aos bolivarianos que lutam contra o imperialismo. Snowden deve ser um eixo de todo o PSOL. É muito importante a campanha que vem sendo feita pelo Coletivo Juntos e o Partido Pirata. O PSOL como um todo deve se incorporar. Lutamos para que Snowden possa ser asilado no Brasil. Também devemos apoiar a conformação do Partido Wikileaks com Assange encabeçando sua lista de candidatos na Austrália.

2. Acompanhar os processos avançados da Argentina, Chile. Nossos vizinhos podem se levantar com força, num processo semelhante ao que foi o argentinazo.

3. Apoiar o Syriza, na Grécia, onde temos a perspectiva de ver o primeiro governo antiausteridade na Europa. Isto deve servir de estímulo a Portugal e Espanha, provocando uma nova e qualitativa alteração na situação mundial, significando um avanço sobre o problema mais grave do movimento de massas mundial, precisamente, a ausência de um projeto alternativo, com referência de massas, que surja como uma nova direção anticapitalista.

Um partido de tipo militante, anticapitalista

O perfil do PSOL deve ser de um partido ativista, militante, presente nas principais mobilizações da juventude, da classe trabalhadora e do povo em geral. O PSOL também necessita de vida partidária. A existência de núcleos, plenárias, cursos de formação, diversas atividades e inúmeras campanhas é imprescindível para demonstrar a necessidade do PSOL. Novamente, a multiplicação de espaços partidários não só possibilita a atração dos novos ativistas como permite a democratização da elaboração e da condução política no partido. Nossas figuras públicas e parlamentares são um grande patrimônio do PSOL. Precisamos lutar para que nas próximas eleições se amplie o número de parlamentares do partido. Quanto mais numerosos e melhores forem nossos tribunos do povo, mais facilidade o PSOL terá para estabelecer vínculos com o conjunto da classe trabalhadora. De todo modo, os parlamentares não podem resumir em si o que é o PSOL; seus filiados e militantes necessitam tomar parte da construção partidária.

Do ponto de vista da formação política, é necessário articular uma maior ofensiva do pensamento marxista. Somos herdeiros desta tradição, de forma renovada e não dogmática. A atuação da Fundação Lauro Campos caminha nessa direção, por exemplo, com a realização de exitosos seminários em todo o país com nomes como David Harvey e Slavoj Zizek. Também a FLC tem se esforçado em atualizar o pensamento crítico com seu site. As iniciativas da FLC, como os seminários nacionais em parceria com outros setores, como o Sindreceita e a Auditoria Cidadã da Dívida, indicam que devemos seguir fortalecendo essa ferramenta.

Como parte da democratização das instâncias de poder, defendemos a paridade entre homens e mulheres nas instâncias de direção. Ou seja, deve-se reservar 50% das vagas nas Executivas, diretórios e comissões municipais às nossas mulheres dirigentes. Entre nós existem muitas com plena capacidade de direção, no entanto, fruto da divisão sexual do trabalho, muitas delas limitamse ao âmbito privado ou menos público da vida partidária. Além disso, devemos permitir às setoriais maior protagonismo na elaboração e na condução de campanhas do partido. As setoriais podem assumir papel protagonista na intervenção do PSOL no movimento de massas e nas lutas que se multiplicarão Brasil a fora. Sendo assim, as setoriais devem ser fortalecidas como ferramentas de auto-organização das demandas setorizadas, mas especialmente de construção de ações unificadas do partido para intervenção no movimento real.

Em síntese, o PSOL precisa formar suas fileiras de ativistas na tradição marxista e luta real e desenvolver plenas condições para uma vida politicamente ativa no interior do partido.