Luciana Genro

As greves das Polícias Militares e dos bombeiros abrem uma nova conjuntura e indicam mudanças profundas na luta de classes no Brasil

14 de fevereiro de 2012 11h53

Quando estamos escrevendo ainda se desenvolvem as greves das polícias militares da Bahia e da PM e dos bombeiros do Rio de Janeiro. A greve da Bahia, depois de uma semana de uma forte paralisação, está caminhando para o final. A greve no Rio de Janeiro votada na quinta à noite não conseguiu decolar com força porque o governo estadual atuou com uma repressão planejada e eficiente e a tática do aquartelamento facilitou a operação desmonte. Foram dezenas de prisões e algumas centenas de processos militares abertos para encaminhar a demissão da linha de frente dos grevistas.

Desta vez, diferentemente da última greve dos bombeiros, a ação repressiva não foi improvisada e não foi orquestrada apenas pelo governo estadual. Foi deflagrada antes da própria greve do RJ, com os violentos ataques contra a greve da Bahia se estendendo ao principal líder da greve carioca. Foi uma repressão articulada pelo regime enquanto um todo, dirigida pelo governo federal, com a participação das Forças Armadas, do sistema judiciário (autorização dos grampos) e com a indispensável assistência da Rede Globo, respaldada explicitamente pela presidente Dilma. Não precisa ser dito que contou com o apoio da oposição parlamentar burguesa do PSDB e DEM. Uma repressão, portanto, com todo um trabalho prévio de controle político e de manipulação da opinião pública.

Com tudo isso as conseqüências também foram diferentes. Quando os 439 bombeiros foram pr esos no último conflito, o desdobramento imediato foi a eclosão de um movimento de massas no RJ, com repercussão nacional, um apoio popular e manifestações de solidariedade com a luta dos bombeiros que levou à derrota política do governo Cabral/PMDB, derrota comemorada e consolidada numa marcha/passeata de cerca de 40 mil pessoas na orla de Copacabana. Desta vez a queda de braço parece se inclinar a favor do governo.

Mas mesmo que a greve do RJ venha a ser derrotada (a impressão é de que a greve da Bahia já foi e a do RJ tende a ser), com este texto queremos afirmar que os conflitos inaugurados por este processo indicam mudanças profundas na luta de classes do Brasil. Representam uma nova conjuntura, o que não quer dizer uma nova correlação de forças. Uma nova conjuntura, porém, porque teremos uma intensificação das contradições e das tensões sociais. São os primeiros sinais claros d o início da crise do regime democrático burguês que tende a se desenvolver na esteira da crise econômica mundial que com maior ou menor intensidade já se expressa no Brasil e se expressará cada vez mais. Uma dinâmica de crise cuja tendência é levar o movimento de massas a cada vez mais choques com este regime. E choques que levarão o governo Dilma e o PT a atuar como carro chefe na defesa do regime burguês, utilizando-se dos métodos repressivos que sempre o estado burguês utiliza contra o movimento de massas quando não garante a paz social com o consenso e o controle ideológico do povo. Ou seja, o Brasil vai ir acompanhando a dinâmica mundial de intensificação da crise e dos conflitos políticos e sociais.  O país está mais polarizado.

Esta é nossa caracterização central. Neste sentido podemos dizer que estas greves abrem uma nova conjuntura de maiores enfrentamentos. Não queremos dizer com isso, repetimos, que teremos nos próximos meses e anos necessariamente um processo de ascenso do movimento de massas nem muito menos de ofensiva, mas que teremos maiores pressões para a existência de conflitos sociais – e que estas pressões tendem a se materializar em maiores ações – ações que serão mais duras e contra as quais o PT terá que se expor mais como defensor da ordem capitalista e do regime burguês para contê-las e na medida do possível derrotá-las Justamente terão que atuar, com o PT tendo que se expor mais como defensor da repressão – como fez agora – esgrimindo o discurso em defesa da ordem e da lei, com o objetivo de impedir que as pressões objetivas por maiores ações das classes trabalhadores não apenas se materializem, eclodam, mas para impedir vitórias que, por ventura sejam obtidas, animem o movimento para maiores ações, alterem a correlação de forças e preparem um caminho de uma ofensiva dos trabalhadores.

Se isso é assim, as greves atuais foram o primeiro round deste novo período que acreditamos que será longo porque a crise econômica não apenas irá se desenvolver como não irá cessar em pouco tempo. E a crise social e as pressões objetivas para as ações de massas estão alimentadas pela crise econômica. Estas ações podem se expressar em explosões populares como ocorreu contra o atraso dos trens um dia antes do início da greve dos bombeiros, em greves – como as da obra do PAC, dos servidores públicos, e agora dos policiais militares e em resistências como a de Pinheirinho. As derrotas de algumas greves – como as atuais – são insuficientes para alterar esta dinâmica. Os conflitos seguirão e neste calor aumentará a experiência de massas com direções traidoras e conciliadores, como as direções sindicais da CUT, Força, cia, e partidos políticos do regime. E nestes conflitos estão surgindo novas direções, novas lideranças.

Como dissemos antes, tudo indica que as greves tanto da Bahia quanto do RJ sejam derrotadas (este é um texto interno para o partido e por isso podemos escrever esta caracterização hipotética, de um processo ainda em curso). É claro que tem importância se um conflito é vitorioso ou não. Uma vitória sempre é animadora para novas ações e serve de exemplo para outros setores. Mas nem toda a derrota provoca um retrocesso ou uma estabilização. As derrotas de algumas greves podem também ter como desdobramento o aprendizado de setores de classes e até ajudar a forjar uma superestrutura mais preparada. Mas logicamente o resultado das greves deve ser bem avaliado. Teremos que refletir e avaliar bem qual o resultado deste primeiro round. Faz diferença, caso o movimento tenha uma derrota, qual será o tamanho dela . Um termômetro será o tempo de prisão dos líderes do movimento, em especial de Daciolo, o líder dos bombeiros cariocas, e quantos demitidos serão confirmados. Neste momento é isso que está em jogo. A derrota ou a vitória não se mede mais por quanto conquistam em termos salariais.  Até porque neste terreno os bombeiros e policiais do RJ obrigaram o governo estadual – como parte do operativo de evitar greve ou para derrotar o movimento – a conceder um reajuste que não é desprezível. Em termos salariais, portanto, pode-se dizer que a mera ameaça real da greve levou o governo a conceder algo. O conflito, porém, foi além e se estabeleceu mesmo assim. Estabelecido o conflito o governo foi para cima e tratou de impor a derrota com um método de repressão para desmantelar a organização do movimento. Então agora o determinante é como sai a organização do movimento. Como recua, com que moral, e como ficam seus líderes e sua linha de frente. Por isso o centro da política é a campanha pela liberdade de Daciolo e de todos os presos. Também terá peso a luta contra as punições e pela anistia. Mas a campanha nacional tem que ter um símbolo. É o cabo Daciolo. E a mulher de Daciolo pode ser quem encabece esta luta com o PSOL e o Juntos. Terá que ter todo o nosso apoio.

Antes de passar para a caracterização do PSOL e de seguir desenvolvendo nossa política, é importante afirmar que a ação do governo federal teve um alto custo. Não vamos nos dedicar a analisar o governo da Bahia. O governador Jaques Wagner apareceu como um despreparado, além de se enfrentar com toda a tropa da Bahia e dar um cheque em branco como um político contra greves, etc. Mas o PT nacionalmente teve que se expor. Se expôs como defensor da repressão. E a presidente Dilma se expôs como defensora da repressão e respaldando a Globo. Os bombeiros do RJ que no ano passado acreditavam em Dilma e de uma forma ou outra a defendiam, desta vez ganharam indignação e até ódio contra a presidente. Foi uma experiência em larga e profunda escala. Isso não é qualquer coisa. Estamos falando de milhares de policiais e de bombeiros no RJ, na Bahia e com incidência entre os policiais militares de todo o país. Afinal, todos viram também o desmonte no Congresso, promovido pelo governo federal, da PEC 300. É importante sinalizar que este processo desenvolve contradições nas próprias bases do governo, como indicou o próprio general do Exército Gonçalves Dias que desagradou o governo federal e desarmou momentaneamente a política repressiva quando confraternizou com os manifestantes.

Cabe adicionar uma questão por fora da análise direta do conflito: a política de alianças do PT para as eleições municipais. No mesmo dia em que aparecia em todos os jornais a notícia da prisão de dezenas de bombeiros e policiais por causa da greve, apareciam as fotos e notícias do ato de aniversário dos 32 anos do PT com o prefeito de SP Kassab como convidado especial e com a presença de Sarney. Até mesmo na cúpula petista teve desconforto, como expressou Marta Suplicy e as vaias recebidas por Kassab. Por sua vez em BH o PT pode fazer aliança com o PSB – o que inclui o PSDB – e no RJ apoiará o PMDB, para ficar nas três capitais dos três maiores estados do país. Ou seja, também no terreno dos projetos políticos eleitorais a experiência com o PT está se acelerando. A privatização dos aeroportos é parte disso. No Rio Grande do Sul, inclusive, estamos com cartaz com o seguinte eixo”PT faz privatizações/ Reprime os Trabalhadores. Esquerda é PSOL”. Como parte fundamental da caracterização é que o PSOL foi um fato objetivo em todo este processo. O partido apareceu como o único partido ligado às greves. O PSOL esteve do lado certo.  A combinação da participação ativa de dois militantes da Bahia, Ícaro e Ronaldo na ocupação e a divulgação das gravações das conversas telefônicas de Janira com o líder da luta dos bombeiros, nacionalizou e revelou em nível de massas o lado de uma parlamentar do partido. Felizmente, quando as gravações foram divulgadas, a direção nacional do PSOL soube escolher de que lado estava e defendeu a ação de Janira, respaldando a mesma como ação do PSOL. Desta forma, a participação apaixonada de dois militantes da Bahia no conflito – Ícaro aparecia o tempo todo com camiseta do PSOL ao lado de Prisco em inúmeras redes e jornais do país – e o ataque do governo revelando para o Brasil a ação parlamentar de Janira jogou o PSOL para o centro da cena. Sem p reparar sua aparição enquanto um todo, o PSOL brilhou. Nossa corrente, o MES, esteve desde o início com política de intervenção nacional, propondo medidas concretas e unitárias para o partido na Bahia e se envolvendo com seus militantes e sua a direção nacional no Rio de Janeiro. Também a CST, nossa aliada no Congresso último do partido, teve um bom papel , atuando desde o princípio com uma política comum conosco. No caso dos bombeiros a liderança de Daciolo está fortalecida e sua relação com o PSOL é excelente. Nossa política central sobre este conflito será agora a campanha nacional por sua libertação. Articulamos neste sábado, numa reunião com Janira, a realização conjunta desta campanha e a defesa de que a mesma seja assumida pelo PSOL. Com ela também acertaremos como realizar a campanha em defesa de seu mandato Finalmente, nossa política geral não estará resumida a questão de Daciolo. Será um eixo de agitação, nas redes sociais, com atos, com articulações na superestrutura e unidade de ação democrática com todos que concordem com sua libertação imediata (também a defesa a anistia estará em nossa pauta).

Ao mesmo tempo que fazemos a campanha democrática em relação às greves e a luta pela liberdade dos presos, denunciando o governo e o PT/PMDB, armar a campanha eleitoral deve ser nossa prioridade imediata, concentrando esforços para preparar nossos candidatos, da forma mais profissional e adequada possível. Quanto mais peso institucional o PSOL conquistar, melhores serão nossas condições de atuar nos processos sociais e nos postular como alternativa. É claro que isso sempre que o partido atuar com uma política coerente, o que significa manter um leque de alianças que se ampare na defesa dos interesses do povo, enfrentando de modo frontal os interesses burgueses. Por isso vamos manter nossa polêmica com a direção do PSOL no Amapá que tem uma pol ítica de alianças pró-capitalista. Felizmente tal política não está concretizada. Confiamos no partido de que isso não passará.

A apresentação sobre a situação do país, as propostas gerais para o país e as denúncias contra os corruptos, contra os capitalistas e as condições de vida do povo, combinadas com nossos discursos e propostas municipais vão permitir que possamos seguir e desenvolver um diálogo mais amplo com setores que na polarização aberta com as greves policiais não nos acompanharam, ficaram confusos com a localização que o PSOL apareceu ter ou mesmo criticaram o lado que escolhemos. Ou seja, nossa política é de afirmar nosso lado, reivindicar o que fizemos, seguir comprometido com o fortalecimento de um perfil de partido de combate, mas ao mesmo tempo não perca de vista a necessidade de um discurso mais amplo buscando incidir para desenvo lver a consciência democrática, de esquerda, chegar em setores populares que estão indignados com os políticos.

Coordenação Nacional do MES.

Sábado, 11 de fevereiro de 2012.