Luciana Genro

Diário de Bordo: Continuidade e Recomeço

24 de janeiro de 2012 09h01
A vida da gente é feita de símbolos. Mais do que símbolos, momentos que simbolizam determinadas coisas. Por que as pessoas parabenizam umas às outras pela passagem do aniversário? Parabéns por ter sobrevivido por mais um ano? É isso mesmo. E é uma proeza!Completei 41 anos na terça feira passada e me sinto orgulhosa deste feito.
Mas foi no dia da minha formatura, no sábado, que eu percebi como estes momentos simbólicos são realmente significativos. Primeiro foi a cerimônia, uma experiência antropológica!  Aquele ritual que só conhece quem já viveu, seja em que posição for. Mesmo cansativa ela teve  momentos de grande emoção para mim. E no final, o meu marido querido estava lá para me resgatar e me levar para  casa, onde  uma grande parte da minha  família se reuniu.  Família no sentido amplo, simbólico da  palavra. Cada um que estava lá participou  e segue participando do mosaico que é a minha vida. Um mosaico bem colorido, de muitos afetos e companheirismo.  (Obrigada, a cada um de vocês, por existir na minha vida!)
Ganhei vários presentes bacanas. Desde uma relíquia de família , livros ÓTIMOS , enfeites para mim e para a minha casa, e espumantes excelentes  que eu vou seguir bebendo vários dias ….E a presença de cada um na minha casa, que eu adoro, e que fica ainda mais gostosa quando eu compartilho.
Mas o maior presente que eu ganhei foi o resultado do Emancipa no vestibular da UFRGS. O nosso cursinho popular, de alunos pobres, que estudaram em escola pública e que batalham a cada dia. O Emancipa aprovou, na primeira chamada, 20 alunos. Este número é 20% do total de alunos das nossas turmas regulares. Levando em conta que tivemos alguma evasão ao longo do ano, chegamos a 30% do total de alunos que seguiram até o final do ano, aprovados. É um número espetacular. Estou orgulhosíssima do trabalho dos nossos professores, especialmente dos coordenadores, o  Marcus, dedicação total e seriedade absoluta, e o Alex, de grande experiência e empatia. Agradecida a todos que possibilitaram esta vitória, os que bancam que os que trabalham!  O Emancipa vai continuar, não temos o direito de desistir!
E  agora eu sou  advogada! Nem eu tinha noção do  quanto eu queria isso! Mas não, não pensem que estou abandonando a política.  Vou lutar na Justiça pelo meu direito de concorrer.  Mas nunca fiz política só nas eleições ou apenas em função das eleições. Então tenho que olhar mais longe.
Com grande entusiasmo eu vou enfrentar o desafio de utilizar a experiência que adquiri em 16 anos como parlamentar, e 27 anos como militante, na advocacia das justas causas. E é claro que a minha experiência de 41 anos como filha do advogado e elaborador do Direito,  Tarso Genro,  deu uma contribuição decisiva no meu desenvolvimento. Eu e o Juliano Genro, meu primo, estaremos juntos nesta caminhada jurídica, na qual eu também espero contar com a parceria dos mestres, como o Pedro Ruas – que através do  exemplo ensina  a sempre ter lado, o lado da Justiça!
Quando alguém conta que é advogado, as pessoas sempre perguntam em  que área de atuação. No meu caso o Direito Trabalhista seria o meu caminho natural. Mas já tem tanta gente boa aí… Fazendo o meu TCC eu me apaixonei pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos. Quero comprar a briga para que os Tratados Internacionais de Direitos Humanos tenham reconhecida a sua  hierarquia – dada pela Constituição Federal . E ainda tem o Direito Penal,  um mundo para se aventurar…E Família! Vocês não me imaginam fazendo um divórcio ou um inventário? Eu sim!!  Meu último estágio, na Justiça Federal, me apresentou a dor e a alegria do direito previdenciário, um mundo onde as pessoas que mais precisam tem os seus direitos sonegados pelo Poder Público mas encontraram certa guarida na Justiça. Até Cível, que por algum  tempo eu tive um  certo preconceito, me encantam certos aspectos.
Diante dessa orquestra de tantos sons eu cheguei à conclusão que não quero tocar uma nota só. O direito tem tantas belezas, e as injustiças acontecem em tantas dimensões, que acho um desperdício olhar sempre para o mesmo lado. O meu norte é o constitucionalismo, e o meu mestre  Luís Roberto Barroso: lutar pela efetividade das normas constitucionais, buscando  a  realização do direito não apenas como o dever-ser normativo mas como o ser da realidade social. (E confesso, já aqui, a inspiração é paterna). Então, mãos à obra!!
Nos próximos dias receberei o meu número de inscrição na OAB e estarei iniciando esta caminhada. E nesta semana temos  várias atividades do Fórum Social Temático, nas quais vamos debater algumas das  questões importantes desta conjuntura política tão rica que se abriu em 2011 e que deve seguir interessante!!