Luciana Genro

Continuando o papo sobre Cuba, com Fernando Moraes e Tariq Ali.

17 de janeiro de 2012 12h44

Em cerca de 48 horas, ainda durante as férias em Cuba, devorei o livro de Fernando Moraes, “Os Últimos Soldados da Guerra Fria – A história secreta dos agentes infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos”. Além de ser um livro daqueles que a gente começa e não quer parar, Fernando Moraes conta a história de uma grande injustiça que já dura mais de 15 anos. A prisão  de 5 cubanos que foram viver nos Estados Unidos no início da década de 90, para infiltrar-se em organizações terroristas que vinham realizando atentados em Cuba e planejando o assassinado de Fidel Castro. Estas organizações sempre foram protegidas pelo governo americano pois são doadoras de milhões de dólares aos candidatos nas eleições, e um de seus principais líderes, Posada Carriles, um cubano “exilado” e  terrorista confesso, vive livre e tranquilo em Miami. Pois os heróis cubanos estão presos e seus familiares sequer podem visitá-los pois não lhes são concedidos os vistos.  Eles foram, na verdade, protagonistas da verdadeira e legítima Guerra ao Terror. O livro conta, em detalhes, os atentados terroristas promovidos por estas organizações sediadas em Miami. Para combater este terror, os agentes   abandonaram as suas famílias em Cuba, arriscaram suas vidas e perderam a sua liberdade, servindo Cuba  numa missão importantíssima. É obrigação de todos os socialistas  exigir de Obama o indulto e  a  libertação dos cubanos presos. E o livro merece ser lido!

Quando retornei das férias  fui convidada a fazer uma palestra sobre Cuba durante o Fórum Social temático que vai acontecer em Porto Alegre na semana que vem. Resolvi então pesquisar  um pouco o que tem sido dito sobre a Ilha, para agregar ao que eu já havia lido e ao que vi na visita. Encontrei um livro ótimo, do intelectual paquistanês Tariq Ali, que conheci pessoalmente no final do ano passado, quando ele esteve aqui em Porto Alegre. Na ocasião fiquei encantada com a simpatia dele, e maravilhada com suas posições políticas, com as quais me identifiquei muitíssimo. Esta identidade revelou-se novamente ao ler o livro Piratas do Caribe – O eixo da esperança (Ed. Record) no qual ele relata sua primeira visita à Cuba, em 2005.

A primeira observação feita por Tariq traduziu o mesmo sentimento que eu tive quando saí do aeroporto ao desembarcar em Cuba: como é agradável não deparar-se com os out-doors e cartazes gigantes anunciando os “produtos globais”. O apelo constante ao consumo com o qual somos bombardeados constantemente para atender aos interesses do Capital não existe em Cuba.

Tariq não é um intelectual “castrista” mas tampouco é um crítico mordaz do regime cubano. O tal equilíbrio necessário para falar sobre Cuba, ao qual eu me referi no meu relato anterior, parece ter sido alcançado por ele. Na falta do talento dele para escrever, vou reproduzir alguns trechos do livro.

Primeiro Tariq  relembra um fato interessante, talvez esquecido por muitos. Quando o jovem Fidel Castro, em 26 de julho de 1953, lançou um ataque  contra o quartel de Moncada e foi derrotado, acabando na prisão, “os partido de oposição foram rápidos em culpar esse homem ousado que fracassou. O Partido Comunista Cubano falou de aventureirismo. O Partido Autêntico cuspiu em suas mãos.(…)” O partido que Fidel integrava na ocasião, o Partido Ortodoxo, declarou que “não precisamos de um garoto irresponsável para correr o risco de romper esse equilíbrio com uma travessura…”

Este episódio retrata que ao liderar a revolução, Fidel era um homem independente dos grandes partidos e aparatos. Não respondia a eles, mas sim às necessidades da luta revolucionária.Mesmo derrotado, o assalto à Moncada revelou-se  um episódio decisivo no processo que culminou na tomada do poder, e o 26 de julho é uma das datas mais comemoradas em Cuba até hoje.

Mais adiante Tariq conta um episódio igualmente revelador, que articulado com o anterior retrata as transformações   políticas  ocorridas em Cuba.

Durante sua visita, ele estava em uma reunião com escritores e intelectuais cubanos, quando foi questionado por uma “alegre mulher de cabelos brancos” sobre a atitude dele “em relação à nossa revolução.” Reproduzo a resposta dele à mulher:

“Era também a nossa revolução. Crescemos juntos. Minha geração apaixonou-se pela Revolução Cubana. Era o elemento lírico que nos sensibilizava. O elemento que condiciona a psicologia e o moral de qualquer sociedade. Lemos seus livros, aqueles fantásticos cartazes que vocês  produziram adornam nossas paredes, transcrevemos os discursos  de Fidel e de Che em nossas revistas, defendemos vocês dos marxistas dogmáticos que não acreditavam que tinham feita a revolução…e, como amávamos vocês, confiávamos em vocês. Depois, vocês nos traíram, indo para a cama com um burocrata gordo e feio chamado Brejnev e defendendo a invasão da Tchecoslováquia pelo Pacto de Varsóvia – e essa guinada afetou sua cultura, o elemento lírico desapareceu , e tivemos que nos separar.”

A mulher então pergunta à ele: “ E agora?”

“Agora”, respondeu Tariq, “estamos ambos velhos. Precisamos um do outro. É o amor nos tempos do  cólera”.

Genial! O Amor nos Tempos do Cólera, livro de Gabriel Garcia Marques, serve como uma metáfora para falar dos difíceis tempos políticos que vivemos, os quais devem nos deixar mais tolerantes….

Mas mesmo nestes tempos do “cólera” Tariq não deixa de registrar suas opiniões críticas.

Reproduzo mais um trecho do livro:

“Sempre defendi que as revoluções podem reforçar a democracia, de uma maneira (especialmente no mundo atual) proibida no âmbito capitalista. O debate público, a crítica, a troca de opiniões conflitantes fortalecerão  Cuba e darão mais poder a seus cidadãos, já dos mais instruídos do mundo. Isso é agora uma necessidade política e não deveria ser adiado indefinidamente.

“Washington espera que o Velho morra. Então, uma nova ofensiva vai começar. Será um ataque econômico e não militar, oferecendo dinheiro em quantias ilimitadas para comprar a lealdade do povo e prometendo um paraíso do consumo para sempre. Se tiverem sucesso será uma tragédia para Cuba e para toda América Latina. A escolha, em tempos neoliberais, é entre a destruição, através da privatização do fantástico sistema de saúde, educação e cultura que foi construído aqui, e o fortalecimento da Revolução, preservando os seus ganhos com a criação de um mecanismo interno efetivo, que torne a liderança e a política compreensíveis ao povo.”

E para fechar com chave de ouro:

“Revoluções começam com excessos e ausência de moderação. Dançam ao ritmo de uma utópica batida de tambores que os outros não podem ouvir, e seus líderes estão sempre olhando para cima, imaginando quando  a chuva de estrelas vai começar. Ela nunca começa e, então, inicia a vida real. Bolívar e Martí, Castro e Guevara, ouviram esse som. Che nunca parou de ouvi-lo e foi para a Bolívia, continuar dançando. Ainda dançava quando o mataram.”

Que, assim como Che Guevara,  possamos seguir dançando, lutando e acreditando!!