Luciana Genro

Tariq Ali em Porto Alegre

21 de novembro de 2011 14h24

Na quarta feira, dia 16 de novembro, tivemos o privilégio de receber o escritor paquistanês Tariq Ali, que veio a Porto Alegre a partir de uma articulação feita pela nossa Vereadora Fernanda Melchionna. Como presidente da Frente Parlamentar de Incentivo à Leitura, Fernanda promoveu uma parceria entre a Feira do Livro e a Câmara de Vereadores para trazer Tariq a Porto Alegre. Ele palestrou em duas atividades, uma na própria Feira do Livro, e outra na Câmara de Vereadores. Além de ouvi-lo na Câmara de Vereadores, atividade na qual o PSOL compareceu de forma numerosa e que reuniu centenas de pessoas, tivemos a oportunidade de boas conversas com ele, pois fomos seus anfitriões, levando- o para almoçar, jantar e passear pela cidade.
Para além de suas qualidades pessoais – uma pessoa extremamente acessível e simpática –ficaram evidentes suas ótimas opiniões políticas a respeito da situação mundial, do governo Lula e da luta revolucionária. De fato é impressionante como uma pessoa tão distante de nós pode ter avaliações políticas tão próximas.
Segundo Tariq existe um centro dominante na política: a centro-esquerda e centro-direita que aceitaram o pressuposto de que o capitalismo é intransponível, portanto seria necessário consertá-lo. Além de trair, com o discurso de que não há alternativa, destróem as esperanças das pessoas. Muitas pessoas que vieram das lutas da esquerda, cansaram. Tariq Ali insistiu para que a platéia não canse, pois uma geração que não luta deixa uma dívida para as futuras gerações: uma situação política e social pior e mais difícil.
Sobre o Brasil sua posição foi clara contra o governo Lula/ Dilma, mostrando a clara continuidade da política de FHC desde a primeira gestão do PT, explicando que a alta popularidade de Lula deveu-se a uma situação econômica mundial favorável – alta demanda da China por commodities e baixa taxa de juros nos EUA – que beneficiou o Brasil, e também ao Bolsa Família, pois diminuiu a miséria extrema. Tem uma explicação “material” disse ele, a popularidade de Lula. E seria alta quem quer que fosse o governo nesta conjuntura de sorte. Além disso, isso não faz dele um governo de esquerda.
Perguntado sobre sua opinião a respeito do PSOL ele afirmou que gostava das duas palavras juntas: socialismo e liberdade para que na história estas palavras sempre apareceram separadas, além de não ter dúvidas da necessidade de construir-se um partido à esquerda do PT, que seja grande e de massas, afirmando que torce para que o PSOL cresça e seja parte importante desta construção.
Sobre Venezuela, Bolívia e Equador, Tariq lembrou que é um processo que veio desde o caracazo e que todos foram marcados pelas lutas que produziram direções políticas e eleitorais, os movimentos populares elegeram seus representantes e as plataformas estão sendo relativamente cumpridas. Disse que este processo já teve seu auge, mas está mais recuado.
Tariq também falou do impacto da crise econômica e sobre o movimento Occupy Wall Street,que acontece nos EUA ressaltando sua importância simbólica, pois é uma mensagem de insatisfação à classe dominante. Criticou, entretanto, o fato deles não postularem uma alternativa, e nem terem um programa claro, diferentemente das mobilizações da Primavera Árabe, da Grécia, da Itália, que são movimentos de massas, e portanto não apenas simbólicos, e que tem uma plataforma mais clara. Mas que a esquerda não deve se apressar em relação a estes processos, pois ainda estão apenas começando e seguirão se desenvolvendo. Para ver a amplitude das lutas de 2011 não podemos analisar apenas o presente, pois há um processo em curso. Também falou sobre os indignados da Espanha, valorizando a luta dos jovens, mas lamentando que eles tenham se abstido nas eleições em que ganhou a direita, uma vez que a social democracia é uma agente das políticas capitalistas. Esta conclusão fez até agora com que, equivocadamente, boa parte do movimento dos indignados negue a política.
Entretanto, nada disso nega a importância destes movimentos e a consigna de democracia real como correta. Ao contrário, Ali crê que cada vez mais a disjuntiva capitalismo x democracia vai se apresentar. E cabe cada vez mais aos socialistas dotar de conteúdo a consigna democracia real, postulando a necessidade do controle sobre a terra, a saúde, a natureza, fontes energéticas, educação e o controle estatal sobre o sistema financeiro.
Ele disse que existe uma crise de representação política, pois as pessoas não estão felizes com os governos tanto da social-democracia quanto da direita clássica, mas ainda não enxergam uma alternativa. Mas lembrou que o socialismo teve uma chance e foi derrotado, mas que o capitalismo teve várias chances e fracassou em todas. Disse que nós, os revolucionários temos que seguir lutando mesmo quando há uma situação adversa e a derrota é uma possibilidade provável, pois sempre se está construindo algo, mesmo que seja para o futuro, ou nossos filhos nos perguntarão: por que vocês não lutaram? Ele finalizou a palestra conclamando: NÃO DESISTAM!
Luciana Genro e Fernanda Melchionna