Luciana Genro

Zero Hora, 19 de dezembro de 2010

19 de dezembro de 2010 10h40

NINHO TRABALHISTA
O desconforto da herdeira

Dona de um sobrenome que é sinônimo de trabalhismo, Juliana Brizola vive um momento de tensão e isolamento dentro da legenda fundada pelo avô no início dos anos 80, época em que a hoje vereadora ainda era uma criança.

A polêmica envolvendo supostas irregularidades na Secretaria da Juventude de Porto Alegre agravou o desconforto da deputada estadual eleita, que já pensa em abandonar a sigla idealizada por Leonel Brizola.

Tudo bem que ela é neta de Leonel Brizola, que é a mais votada deputada estadual do partido, que é apontada por milhares como herdeira política do avô – fundador e ícone maior do PDT em todo o Brasil. Ainda assim, Juliana Brizola é um peixe fora d’água na própria sigla.

Sua derrota envolvendo a CPI da Juventude, na Câmara da Capital, desponta como round final de uma briga interna que se arrasta faz anos. Cada vez mais isolada por colegas de partido, a neta de Brizola estuda desistir do PDT. E o destino seria o PSOL.

As afrontas de Juliana já renderam chacoalhões diversos no PDT: desde 2004, ano da morte do avô, ela enfileirou protestos contra a cúpula, despertou ciúme da memória de Brizola e protagonizou uma acusação de assédio sexual. Agora em dezembro, bateu de frente com o governo municipal de Porto Alegre – comandado pelo colega pedetista José Fortunati – ao se aliar à oposição para defender a abertura de uma CPI.

Eleita deputada estadual em outubro, Juliana está completando seu mandato de vereadora. A CPI investigará na Câmara irregularidades e desvios na Secretaria Municipal da Juventude, pasta que ela própria comandou entre 2007 e 2008. Alegando inocência, a vereadora subiu à tribuna no último dia 6 para acusar o também pedetista Mauro Zacher, que dirigiu a secretaria antes dela, de coordenar “uma quadrilha”.

A CPI da Juventude acabou acatada na sexta-feira, mas só depois que a base aliada garantiu a presidência da comissão – pela requisição de Juliana, o presidente seria o vereador Pedro Ruas (PSOL), opositor contumaz do governo municipal. A oposição e a neta de Brizola acreditam que a CPI abafará qualquer suposta irregularidade envolvendo Zacher.

– Juliana quer a investigação de tudo, inclusive da própria gestão na secretaria. Ela defende a coerência ideológica e partidária do PDT. Mas o PDT abandonou suas ideologias – prega a vereadora Fernanda Melchionna (PSOL).

Por trás do elogio de Fernanda brotam outros interesses. Na quarta-feira passada, Juliana foi ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) acompanhada de Pedro Ruas e do presidente estadual do PSOL, Roberto Robaina. Os três conversaram com o presidente da Corte, Luiz Felipe Silveira Difini, sobre a intenção da vereadora de migrar para o partido socialista.

A maior preocupação é com o mandato de deputada estadual que ela assumirá em 2011: se Juliana deixar o PDT, certamente o partido brigará na Justiça para arrancá-la da cadeira. Portanto, ela deverá ingressar na Assembleia ainda como pedetista, mas já estuda argumentos para entrar no PSOL com o mandato em andamento. O Tribunal Superior Eleitoral permite a troca de partido se o filiado provar que está sendo perseguido por líderes da sigla. Juliana acredita que está. Também fica liberada a transferência se a legenda romper com o programa partidário. Juliana acredita que o PDT fez isso.

Após a eleição ao Piratini, a neta de Brizola protestou contra a participação do partido no governo Tarso Genro (PT) – que derrotou no primeiro turno José Fogaça (PMDB), candidato com quem o PDT se coligou durante a campanha. Mas líderes pedetistas torcem o nariz para Juliana há mais tempo.

Bastou Brizola morrer para muitos deles tentarem se vender como “herdeiros” do ex-governador. Mas uma herdeira de sangue é covardia: aos 35 anos, abocanhou votos de pedetistas experientes e sagrou-se a deputada e a vereadora mais votada do partido nas últimas duas eleições.

Em 2004, meses antes da morte de Brizola, Juliana e o avô foram a público acusar o deputado federal Pompeo de Mattos, então presidente estadual da sigla. Ele teria assediado Juliana sexualmente. Um batalhão de pedetistas se incomodou com a postura dos Brizola – mas só Juliana é quem pagaria o preço da briga interna.

Porque ela até pode ser a mais votada. Mas, no PDT, só quem mandava era o avô.