Luciana Genro

G1, 27 de novembro de 2010

27 de novembro de 2010 10h12

Derrotados nas urnas se preparam para ‘atravessar deserto’ até 2012
Desafio é conseguir se manter no cenário político sem um cargo público.
Até lá, uns pretendem dar aulas. Outros vão fazer seminários pelo país.

Donos de consecutivos mandatos eletivos, parlamentares e governantes derrotados na eleição deste ano preparam-se para “atravessar um deserto” até 2012, segundo palavras de um deles.

O desafio é conseguir, sem um cargo público, se manter no cenário político e na mídia, algo fundamental para a construção de uma candidatura para a próxima eleição municipal.

Luciana Genro (PSOL-RS) pretende disputar as eleições em 2012 para a Câmara de Vereadores (Foto: Leonardo Prado/Ag. Câmara)

Até lá, uns pretendem voltar a dar aulas, advogar ou administrar propriedades rurais. Outros querem viajar pelo país, em palestras e seminários. A atuação política na direção dos partidos nos estados é um caminho comum para a maioria.

“Enfrentar uma eleição sem mandato é mais difícil que enfrentar uma eleição com mandato. A visibilidade política que a gente tem no cotidiano é bem menor”, diz a deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS), que não conseguiu se reeleger e pretende tentar uma vaga na Câmara de Vereadores de Porto Alegre em 2012.

Ela não sabe ainda se poderá concorrer porque a lei impede a candidatura de parentes de governantes. O pai dela, o ex-ministro Tarso Genro, se elegeu governador pelo PT no Rio Grande do Sul.

“O espírito dessa lei é impedir as oligarquias familiares que se sucedem no poder. No meu caso, é evidente que não há esse sentido de oligarquia familiar, até porque fui expulsa do partido do meu pai”, argumenta.

Enquanto a eleição não chega, ela diz que fará mobilizações para levantar o debate sobre sua candidatura, voltará a dar aulas de inglês e retomará o curso de direito. Além disso, manterá as atividades na direção do partido no estado e na direção nacional.

Luciana Genro teve a oitava maior votação para a Câmara dos Deputados no estado, com 129,5 mil votos, mas não se elegeu porque seu partido não atingiu o quociente eleitoral. O último dos 31 deputados federais eleitos pelo estado teve 28,2 mil.

“Eu estava bem mais empenhada em conseguir eleger um deputado estadual, que o partido não tem no Rio Grande do Sul, do que na minha própria eleição porque achava que a minha eleição estava garantida”, diz.

Para ela, houve um erro de avaliação em relação à força do PT no estado, e o partido acabou tirando votos de legenda do PSOL.

“É claro que uma derrota sempre traz lições e, nesse caso, trouxe essa lição de que a gente não pode subestimar os adversários e não pode considerar uma eleição ganha antes da hora. Não quero passar a impressão de que fiz pouca campanha pra mim mesma. Fiz muita campanha. Fiquei muito tempo em Porto Alegre, onde tinha mais potencial de transferência de votos para os nossos candidatos, e não viajei tanto ao interior, o que acabou me prejudicando.”

‘Um passo para trás e dois para frente’
Encarar a derrota como vitória política faz parte do jogo. É o que pensa o deputado federal Flávio Dino (PC do B). Apesar de ter sofrido o segundo revés eleitoral consecutivo, ele diz que termina o ano “feliz e sem dívidas”.

Dino disputou as eleições para o governo do Maranhão e teve como principal adversária a governadora Roseana Sarney (PMDB), que se reelegeu com uma margem apertada de votos: 50,08%. Por muito pouco, a disputa não foi ao segundo turno. Mas a “ressaca eleitoral”, conta o deputado, “passou em 24 horas”.

“O importante para mim era manter a trajetória de acúmulo. Na primeira eleição que disputei [em 2006, para deputado federal], tive 126 mil votos. No primeiro turno de 2008 [quando disputou a Prefeitura de São Luís], tive 169 mil. No segundo turno [de 2008], tive 215 mil e agora, 860 mil votos. Foi um prejuízo agora para recuperar adiante. É o que diz a sabedoria popular: dar um passo pra trás pra dar dois pra frente”, ensina.

Os próximos passos já estão traçados: disputar a prefeitura da capital maranhense em 2012. Até lá, voltará a dar aulas na Universidade Federal do Maranhão e a advogar. Dino também preside o partido no estado e faz parte da Executiva Nacional do PC do B, o que lhe garante “inserção política”.

A “travessia do deserto”, como define o período sem mandato, não assusta. “Meu pai sempre me disse: ‘Política não é profissão. Não viva de mandato, não se apegue a mandato’. Tanto é que ele nunca ‘permitiu’ que eu fosse candidato antes de construir uma trajetória profissional. Não tenho esse impacto de ‘e agora, o que eu faço da vida?’. Não sou um político profissional”, diz.

‘Sobrevivência política’

O ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) já cogita disputar as eleições para a Prefeitura de Maceió em 2012. Mas, em relação aos planos para o ano que vem, o pedetista está diz que “a ficha ainda está caindo”. Ele disputou o governo de Alagoas e perdeu no segundo turno para o tucano Teotônio Vilela (PSDB), que foi reeleito.

Em compasso de espera, Lessa, presidente do PDT em Alagoas, cita como possibilidades voltar a trabalhar como engenheiro civil e dar aulas ou ainda assumir um cargo em Brasília, se for convidado.

O “limbo” até as próximas eleições não o preocupa.

“Fiquei quatro anos em Brasília como secretário-executivo do Ministério do Trabalho, voltei, fui candidato, cheguei ao segundo turno contra o atual governador e tive quase 48% dos votos. Tenho um patrimônio político que está vivo na memória do povo. Então, não tenho dificuldade de sobrevivência política.”

Também está no horizonte dele a esperança de um “terceiro turno”, ou seja, a disputa na Justiça pelo mandato de governador – Lessa diz que houve abuso de poder na campanha de Teotônio Vilela. Em relação à própria campanha, reconhece que faltou politizar o discurso e marcar as diferenças em relação ao adversário.

“A ideia que foi passada de que bastava a gente fazer carreata sem fazer discurso foi um erro. Passar só de carro para o povo ver e cumprimentar não foi o suficiente. A tese era: como não tem nenhuma atração, você não coloca 5 mil pessoas na rua. Aí, vai pouca gente, e você fala para meia dúzia. Fazendo uma carreata, você cumprimenta, há contato com mais gente. Essa foi a tese do marqueteiro, e a gente e foi na onda.”

‘Reconhecimento’ de Dilma

Nem todos já miram as próximas eleições. O senador Osmar Dias (PDT), que perdeu a eleição para o governo do Paraná para o tucano Beto Richa, agora espera “reconhecimento” por parte da presidente eleita Dilma Rousseff na montagem do governo.

“Antes da campanha, eu tinha um projeto de ser candidato ao Senado e tinha uma eleição certa. Mas esse projeto foi alterado em função da pressão do meu partido e do governo para que fosse candidato a governador e, dessa forma, oferecesse um palanque forte para a Dilma”, expõe.

O senador faz a ressalva de que não está cobrando cargo nenhum.

“Se eu disser que não espero que haja um reconhecimento desse esforço que foi feito, não estaria sendo sincero. Mas não vou cobrar porque acho que é do arbítrio da presidente eleita fazer as escolhas. Não vou entrar nesse jogo de cobrança porque nunca fez parte do meu jeito de fazer política e não vai ser agora que vou fazer isso.”

A derrota não foi a primeira de Dias. Em 2006, ele perdeu as eleições para Roberto Requião (PMDB) por uma diferença de 10 mil votos. Nesta, fez aliança com o partido do ex-governador e aponta “traições” na legenda.

“Foi decepcionante porque nunca vi tanta traição numa campanha. O PMDB teria eleito seis deputados se não fosse a minha candidatura. Elegeu 13. Só que eu não tive o apoio de 30% dos deputados do partido. Eles apoiaram o outro candidato”, aponta.

A partir do ano que vem, Dias voltará a se dedicar às propriedades rurais que possui e diz que ainda não pensou em projetos para 2012 ou 2014.

“A lição que eu tiro é que a gente deve confiar nas próprias convicções. Eu tinha a convicção de que seria traído da forma que fui durante a campanha. A gente deve levar adiante as convicções que tem e não acreditar em Papai Noel.”

Erro repetido

O ex-governador do Rio Grande do Sul Germano Rigotto avalia que cometeu nestas eleições o mesmo erro de 2006, quando perdeu a disputa pela reeleição no governo para Yeda Crusius (PSDB).

“Em 2006, era pré-candidato à Presidência naquela disputa com o Garotinho [Anthony Garotinho, ex-governador do RJ e hoje filiado ao PR]. Demorei muito pra assumir uma candidatura a governador. Os partidos que estavam comigo seguiram seu caminho porque meu projeto era nacional. Quando eu assumi a candidatura, era tarde, uma situação que pode ter sido fatal. E agora também.”

Neste ano, ele foi candidato ao Senado. Apesar de ter liderado a disputa no início, perdeu para Paulo Paim (PT) e Ana Amélia (PP).

Agora, se dedica a palestras e seminários pelo país sobre reformas públicas, como a reforma tributária. Por enquanto, diz que não pretende traçar novos planos na política.