Luciana Genro

Tropa de Elite 2, por Marcos Rolim

24 de outubro de 2010 07h41

Recomendo a leitura do artigo do Marcos Rolim na ZH de hoje. Sobre o filme Tropa de Elite 2. Muito bom!

Tropa de Elite 2, por Marcos Rolim*

O primeiro filme foi um enorme sucesso e provocou uma discussão sem fim. Pela primeira vez nas telas nacionais, o cotidiano do Bope – “o batalhão que não faz prisões” – era apresentado de maneira realista sob a narração de um personagem central, o Capitão Nascimento, cuja força dramática impressionou a todos. Houve quem, apressadamente, classificasse o filme de “fascista” por, de alguma forma, permitir a identificação do público com a violência policial. Havia mesmo um problema a ser desvendado, mas ele estava mais no público que no filme.

Na sessão em que assisti ao Tropa de Elite 1, algumas pessoas aplaudiram as cenas de tortura e, ao final do filme, um cidadão que descia as escadas atrás de mim lascou: “Com uns 10 caras como este, a gente acabava com o crime em Porto Alegre”. Ilusão típica da classe média brasileira, a ideia de que a melhor resposta ao crime e à violência é o crime e a violência praticada pelos “agentes da lei” seria risível, não fosse ela mesma um dramático atestado de pouca inteligência e nenhum compromisso ético.

Tropa de Elite 2 retoma a trajetória de Nascimento, agora coronel guindado a uma posição secundária na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. A estrutura narrativa é a mesma, mas o contexto é outro. Nascimento – o personagem baseado no capitão Pimentel – contrasta com Fraga, um deputado militante dos direitos humanos – inspirado no deputado Marcelo Freixo (PSOL), que se notabilizou por dirigir a “CPI das Milícias” no Rio. Os problemas da segurança pública seguem sendo abordados desde o olhar do protagonista-narrador, com outra atuação magistral de Wagner Moura. Este “detalhe”, aliás, é fundamental: o filme é o olhar de um policial honesto, mas violento. O que ocorre, entretanto, é que este olhar – rico em suas contradições, virtudes e limites – se desloca. O personagem vai se dando conta de que todo o seu trabalho no Bope era instrumentalizado por políticos venais.

No desenrolar da trama, Nascimento se aproxima de Fraga, que é, na verdade, o mais lúcido dos participantes. Com este deslocamento, Tropa de Elite 2 conduz seu público “pela mão” para um patamar superior de consciência, sem permitir, em nenhum momento, que este efeito pedagógico autorize o tom panfletário ou o maniqueísmo. Estamos diante de um drama real contado por alguém que esteve, como seu público, encharcado por preconceitos e que, finalmente, percebe o que havia de falso e ameaçador em todo o discurso no qual havia acreditado.

Assim, se no primeiro filme o tráfico de drogas aparece como sendo um subproduto da conduta irresponsável dos consumidores – os “maconheiros” –, agora Nascimento depara com o flagrante de maconha encontrada com seu filho o que, é claro, oferece à audiência um contraste provocador.

O discurso punitivo produzido por setores da mídia está retratado na conduta de “Fortunato”, o nojento comentarista de TV que pede “porrada nos bandidos” para se eleger deputado e comandar o crime organizado pelas milícias cariocas. Hipocrisia, violência, corrupção e manipulação andam de mãos dadas, e Nascimento, agora, luta contra isto. O anti-herói se converte, mesmo que ao preço de seus sonhos. O que marca o filme pela desesperança apenas aparentemente. A esperança, afinal, mora ao lado e Fraga tinha razão. Filmaço.

Seria risível, não fosse ela mesma um dramático atestado de pouca inteligência

*Jornalista