Luciana Genro

Zero Hora, 7 de julho de 2010

07 de julho de 2010 10h19

Fotos Adriana Franciosi

Eleições 2010
As ideias estão em jogo

O PRIMEIRO DEBATE
Candidatos abrem confronto de ideias

No primeiro dia da campanha eleitoral, três candidatos ao Palácio Piratini se encontraram em estúdio da Rádio Gaúcha.

Também transmitido pela TVCOM, o debate reuniu José Fogaça (PMDB), Tarso Genro (PT) e Pedro Ruas (PSOL). Em duas horas de programa, eles lançaram as primeiras propostas para tentar conquistar o eleitor gaúcho.

Ataques calculados, uma dose de ironia e a cautela de quem ainda está conhecendo o adversário.

No primeiro debate entre candidatos ao Palácio Piratini – realizado ontem pela Rádio Gaúcha –, José Fogaça (PMDB), Tarso Genro (PT) e Pedro Ruas (PSOL) mantiveram atitudes amenas, com foco em propostas.

Ruas foi o responsável pelas investidas mais duras, e Tarso, pelas provocações sutis. Às 9h25min, no terceiro bloco, o petista sorriu para Fogaça enquanto tentava constrangê-lo. Sorriu pelo menos quatro vezes, em um minuto. Fogaça não retribuiu o sorriso, apenas ouviu a declaração do adversário:

– Me entusiasmei com as referências altamente positivas que Fogaça faz ao presidente Lula. Isso nos dá esperança de que ele esteja oficialmente conosco, apoiando a candidatura de Dilma Rousseff. Será muito bem-vindo – provocou Tarso, ciente da divisão que se abateu sobre o PMDB gaúcho, entre apoiar Dilma ou José Serra (PSDB).

O peemedebista seguiu compenetrado e, em seguida, Ruas aproveitou para criticar os dois adversários. No papel de franco-atirador, o concorrente do PSOL reservava o tom mais afiado quando o alvo era a governadora Yeda Crusius (PSDB), que se ausentou do programa (leia mais na página ao lado). Tarso e Fogaça, por sua vez, evitavam o confronto direto – ambos têm motivos para isso. Para responder à provocação do petista Fogaça disse que, de fato, sempre procurou Lula pelo bem do Rio Grande.

E foi essa estratégia – sempre pensando que o oponente poderá virar parceiro – que ditou o clima do debate. Yeda, alvo de uma pertinaz oposição do PT, foi poupada das críticas de Tarso: sem mencionar qualquer acusação contra a administração tucana, o máximo que o petista dizia é que o Piratini deixou de aproveitar recursos do governo federal.

No PT, há líderes que preferem Yeda num eventual segundo turno contra Tarso do que Fogaça. Portanto, é melhor abrandar os ataques nesta fase da campanha. Já Fogaça nunca demonstrou perfil agressivo ao fazer política e ontem evitou qualquer oportunidade de contestar a governadora. Porque, em um eventual segundo turno, o apoio do PSDB seria valioso. Só se queixou da ausência:

– É lamentável. Ela poderia trazer a este debate o depoimento, talvez enriquecedor, de quem está no comando do nosso Estado.

Com Ruas, a história era diferente. Agredia as alianças dos colegas, afirmava que aquilo poderia terminar em corrupção e dizia não respeitar “quem fugiu” do debate:

– Fazem tudo exclusivamente pelo tempo de TV, e depois acabam loteando cargos.

No primeiro embate da campanha, coube a Ruas colocar a pimenta. E, Yeda, mesmo ausente, não foi esquecida pelos adversários.

*Colaborou Juliana Bublitz
PAULO GERMANO*

Banco de promessas
JOSÉ FOGAÇA
Veja alguns dos compromissos assumidos por cada um dos três candidatos:
– Fase
“O projeto de reordenamento da Fase precisa ser continuado e vamos dar continuidade. Ele pode ser feito com recursos públicos. Não precisa vender o terreno para financiar o reordenamento.”
– Corrupção
“Estamos propondo uma lei de responsabilidade ética dos agentes públicos. Normas que possam vir a identificar passo a passo as ações de governo, na licitação de uma obra ou de um serviço. A lei não livraria nenhum agente.”

PEDRO RUAS
– Estradas
“O pedágio pode ser usado, mas como último recurso. Temos de ter capacidade de investimento e de planejamento e ter um compromisso com a população que não limite o Estado a concessões absurdas, esdrúxulas e imorais.”
– Segurança
“Darcy Ribeiro criou uma fórmula: emprego mais saúde, mais educação é igual a segurança. Temos de ter outro enfoque para a segurança. Precisamos dar prioridade ao desenvolvimento. Com essa fórmula, os índices de insegurança e violência despencam.”

TARSO GENRO
– Educação
“Reabrir escolas que estão sendo fechadas pela governadora, que são mais de 250. Também apresentar um plano de implementação de qualificação do Ensino Médio, com um processo de formação continuada”.
– Acessos municipais
“Apresentaremos uma agenda ao governo federal de investimentos em ligações asfálticas. Vamos continuar as obras em andamento e pagá-las. Estamos trabalhando num projeto ao Bird para ligações asfálticas e estradas vicinais.”

O primeiro debate

EMBATE NO DETALHE
A descontração

Antes de enfrentar o microfone, Ruas (C) fez uma brincadeira com os adversários

Faltava pouco mais de 10 minutos para o debate começar e José Fogaça (PMDB) não havia chegado à Rádio Gaúcha. Lamentando a ausência da governadora Yeda Crusius (PSDB), Pedro Ruas (PSOL) avistou Tarso Genro (PT) deixando a sala de espera e brincou:

– Agora só falta o Tarso ir embora e o Fogaça dizer que não vem…

Enquanto os assessores gargalhavam, Fogaça enfim entrava na sala, para ser recebido com cara de alívio por Ruas. Tarso retornou ao local, e, após um café e bate-papo sorridente, os três seguiram para o estúdio.

A discussão

Nas considerações finais, Ruas atacou Fogaça e Tarso. Disse que os adversários buscam alianças sem critérios ideológicos.

– Fazem uma aliança agora, visando tempo de rádio e TV, e depois concedem o controle de algum órgão no governo. Yeda, Tarso e Fogaça disputaram até o PP. Esqueceram-se que o PP esteve à frente da fraude no Detran?

O petista devolveu:

– E vocês? Propuseram uma aliança com o PV, que agora está com Cesar Maia (ex-prefeito do DEM) no Rio de Janeiro!

Enquanto André Machado interrompia a discussão, Ruas respondeu:

– Não propusemos coisa nenhuma!

Tarso virou o rosto e começou a rir.

As repetições

Sempre que podia, mesmo que a pergunta apontasse para outra direção, Ruas batia na tecla da dívida com a União.

– O nosso Estado perde anualmente 18% de sua receita líquida. É um absurdo.

Já Tarso, de olho na alta popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, repetia a todo momento que a sua candidatura “representa o projeto do presidente no Rio Grande do Sul”.

Fogaça, por sua vez, apostava no discurso conciliador que ajudou a elegê-lo prefeito de Porto Alegre:

– Queremos conclamar todos os partidos, de situação e oposição, em busca dos interesses comuns do Estado.

O sinal de paz

Nenhum participante ousou questionar o Cpers, sindicato gaúcho dos professores que afligiu o governo Yeda Crusius. Pelo contrário: enquanto Fogaça prometia que nenhum passo será dado sem consenso com os professores, Ruas ressaltava que sua vice, Marlene dos Santos, é integrante da cúpula da entidade.

Tarso falou em um plano de qualificação do Ensino Médio, que terá suas diretrizes debatidas com o Cpers, caso seja eleito. Ao responder sobre corte do ponto para grevistas, Fogaça demonstrou cautela:

– O Cpers será respeitado, será objeto de diálogo. Em uma greve legítima e legal, não há como cortar o ponto.

ROSANE DE OLIVEIRA
Estratégia duvidosa

Só Yeda Crusius (PSDB) perdeu não indo ao debate na Rádio Gaúcha, ontem. Criticada por Pedro Ruas (PSOL), não teve como se defender.

O irônico é que, ao atacar a governadora, Ruas acaba favorecendo José Fogaça (PMDB), a quem fustigou no debate por não apoiar a CPI proposta por ele para investigar denúncias de irregularidades na Secretaria Municipal da Saúde.

Pelas pesquisas conhecidas, Yeda e Fogaça disputam uma eleição à parte pela segunda vaga no segundo turno. A vantagem é do candidato do PMDB.

Aos adversários, restou uma dúvida: será que a governadora jogou a toalha antes de o jogo começar?