Luciana Genro

A Capa, 19 de julho de 2010

19 de julho de 2010 14h57

“Os partidos abrem mão de seus ideais em troca de apoio dos religiosos”, diz Luciana Genro

Por Marcelo Hailer

Reprodução

Luciana Genro, 39, iniciou sua vida política no Partido dos Trabalhadores (PT), no Rio Grande do Sul. Em 1994, foi eleita deputada estadual com 17 mil votos. Quatro anos depois, se reelegeria com o dobro de votos. Em seu segundo mandato, Luciana se tornaria uma liderança do PT gaúcho, prova disso é que se elegeu deputada federal com 100 mil votos. Em 2004, ela deixaria o PT no racha histórico que deu na fundação do Psol (Partido Socialismo e Liberdade), tarefa que a candidata realizou ao lado de Heloísa Helena.

A deputada federal está no fim de seu segundo mandato e este ano pleiteia permanecer no Congresso Nacional. Sempre ligada à questão dos trabalhadores e educadores, Luciana Genro também atua na defesa das mulheres e da comunidade LGBT.

A entrevista que você confere a seguir se dá em dois momentos. A primeira parte diz respeito a uma conversa que a deputada travou com a reportagem durante a I Marcha Nacional LGBT Contra a Homofobia, realizada no dia 19 de maio. Em seguida, Luciana voltou a conversar com A Capa, agora focada mais nas eleições e propostas para LGBT.

Com exclusividade, ela diz que será preciso “muita pressão” da comunidade gay para que o PLC 122 e a união civil sejam aprovados. A respeito da posição da candidata à presidência, Marina Silva (PV), sobre o criacionismo nas escolas, Luciana Genro classifica como “cúmulo do atraso”.

O que você acha da realização da Marcha Nacional?
Ainda existe um preconceito muito grande no Brasil com a diversidade sexual e essas marchas são fundamentais para quebrar essas concepções atrasadas e criar um clima de maior tolerância e respeito à diversidade.

O que você acha da Marina Silva defender o criacionismo nas escolas públicas?
É o cúmulo do atraso.

Qual a sua opinião sobre as bancadas religiosas?
As bancadas fazem com que o Legislativo seja o poder mais atrasado no reconhecimento dos direitos homossexuais e na luta contra a homofobia.

Você é otimista ou pessimista em relações às questões gays?
Eu sou otimista. Acredito que o caminho vai para frente e nós vamos conseguir avançar, mas a custa de muita pressão.

De que maneira você pretende abordar a questão LGBT em um novo mandato?
Como sempre abordei: apoiando as causas da comunidade LGBT, como o projeto que criminaliza a homofobia, e defendendo a livre orientação sexual.

Acredita na tese de que apoiar publicamente a questão gay faça com que o candidato perca votos?
Pode até fazer em setores mais reacionários, mas não me preocupo com isso.

Assistimos neste momento ao brutal assassinato da Eliza Samudio e ficamos sabendo que ela já havia denunciado o jogador Bruno por agressão. Também escutamos comentários dizendo que ela era “maria-chuteira” e que andava com jogadores para cima e pra baixo. Pergunto: o que você acha dessas justificativas em torno de crimes machistas e homofóbicos: “a menina mereceu porque levava uma vida de vários companheiros”, ou, “o gay mereceu apanhar/morrer porque era afeminado e dava muita pinta”?
É o fim da picada! Não tenho palavras para definir a falta de caráter de alguém que ousa dizer isso!

Acredita que na próxima legislatura avançaremos nas questões da criminalização da homofobia, união civil e adoção?
A cada ano temos pequenos avanços na sociedade, no sentido de diminuir o preconceito. Não sei se será neste ano que vem, mas tenho certeza que em breve conseguiremos. Mas será preciso muitas marchas, mobilização e pressão para dobrar o conservadorismo do Congresso Nacional.

A lei Maria da Penha foi aprovada, mas os crimes contra as mulheres ainda continuam frequentes. Caso o PLC 122 seja aprovado, pode ser que pouco ajude a diminuir os crimes homofóbicos. O que fazer além de se aprovar leis que criminalizam atos discriminatórios?
As leis são um reflexo dos avanços já conquistados na sociedade. Temos que seguir a luta, e fazer com que os direitos proclamados nas leis sejam cumpridos.

Em relação aos temas dos Direitos Humanos, que nota você dá para essa legislatura do Congresso Nacional que chega ao fim?
Me parece que a nota é zero. Não foi aprovada nenhuma lei que significasse avanços.

Partes dos setores religiosos atuam nos Parlamentos a fim de impedir que os projetos de leis ligados à questão LGBT avancem. O que você acha dos partidos políticos negociarem votos com estes setores?
Faz parte do balcão de negócios que a maioria dos partidos se submete. Abrem mão de seus ideais em troca de apoio. Sou contra isso e meu partido não faz parte desse jogo.