Luciana Genro

Zero Hora, 8 de abril de 2010

08 de abril de 2010 14h33

TÁTICA DOS RÉUS
Defesa aproveita embate polícia x MP
Advogados de suspeitos de mandar matar Eliseu Santos, segundo denúncia do MP, cogitam arrolar delegados como testemunhas

O descompasso entre as teses do Ministério Público e da Polícia Civil a respeito das circunstâncias do assassinato de Eliseu Santos será usado pela defesa dos réus. Advogados de três dos acusados de planejar a morte do secretário da Saúde de Porto Alegre cogitam arrolar policiais civis como testemunhas de defesa ou, pelo menos, usar suas declarações para beneficiar os réus no processo.

Se agentes e delegados forem convocados, serão obrigados a comparecer em juízo. Uma das declarações que todos os advogados pretendem utilizar foi dada pelo diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), Ranolfo Vieira Junior, no segunda-feira, ao refutar a tese dos promotores de que Eliseu foi vítima de execução planejada.

– Os denunciados pelo Ministério Público foram investigados, mas não encontramos nada contra eles. É possível que tenhamos inocentes presos – afirmou o policial.

Ele se referia aos acusados pelo MP de terem planejado a morte de Eliseu: Jorge Renato Hordoff de Mello e Marcelo Machado Pio (sócios da empresa de vigilância Reação, que cobrava valores devidos pela Secretaria da Saúde) e Marco Bernardes, ex-assessor de Eliseu.

O advogado de Marcelo Pio, Marco Pozzobon, acredita que terá “todo interesse”em ouvir os policiais civis que investigaram a morte do secretário da Saúde da Capital.

– Se eles têm essa dúvida, imaginem o meu cliente, um inocente que está preso na cadeia e inclusive ameaçado de morte, de tal forma que requisitei transferência de cela para ele.

Marco Stefani, defensor de Bernardes, diz que ainda não decidiu se chamará os policiais para a defesa ou se apenas usará suas declarações. O que sabe é que vai argumentar que, no inquérito policial, seu cliente sequer foi cogitado como suspeito, tanto que os policiais o inocentam.

Eliana Matté, advogada de Jorge Mello, diz que por enquanto não vê necessidade de chamar os policiais a depor no julgamento. Mas, se for o caso, pretende anexar frases deles nas quais inocentam seu cliente.

Vereadores entregam documentos a promotora

Vereadores entregam documentos a promotora

Nove vereadores da Capital entregaram uma série de documentos ontem à promotora Lúcia Helena Callegari, responsável pela denúncia contra sete pessoas acusadas de participação na morte do secretário de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos. Entre os itens entregues, estão cópias dos depoimentos de Eliseu Santos e do empresário Jorge Renato Mello na Câmara Municipal, dos contratos com a Reação, da suspensão do contrato com a empresa e da sindicância. Os vereadores acreditam que a morte de Eliseu deve impulsionar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Até ontem, o requerimento que prevê a instalação da CPI da Saúde na Câmara seguia com 11 assinaturas. O objetivo da oposição é investigar supostas irregularidades na pasta.

Suspeitos se intitulavam policiais

Gerente da Reação, Marcelo Machado Pio gozava de tanta confiança de policiais civis que costumava se intitular policial, circular com os agentes nos veículos oficiais e, eventualmente, pilotar viaturas. Tudo isso, embora fosse um ex-presidiário.

É o que asseguram pelo menos quatro depoimentos incluídos no processo judicial no qual Pio e seu chefe na empresa de vigilância, Jorge Renato Hordoff de Mello, são acusados de mandar matar o secretário Eliseu Santos.

Os testemunhos disponíveis na Justiça também afirmam que Jorge Mello se passava por policial federal, embora fosse PM. E que também era informante da Polícia Civil. Essa proximidade com alguns policiais civis, relatada por testemunhas, causou estranheza nos promotores. Eles não entendem por que a Polícia Civil deixou de ouvir Mello e Pio como suspeitos do crime.

Um dos depoimentos que envolvem Pio é de Marco Bernardes, ex-assessor de Eliseu e também apontado pelo Ministério Público como mandante do assassinato. Em 6 de julho de 2009, ele afirmou, ao ser ouvido em inquérito sobre corrupção, que Pio se apresentou a ele como “policial civil”. Em outra ocasião, o gerente da Reação – que já esteve preso por estelionato – teria colaborado na prisão de um homem envolvido em desvio de medicamentos da Secretaria Municipal de Saúde. Outros depoimentos, incluídos no processo judicial, também asseguram que Pio ajudava alguns policiais civis, em viaturas oficiais, a recuperar veículos roubados, mediante pagamento de gratificação.

Pio foi indiciado, com dois policiais civis, num inquérito por extorsão que teria praticado contra um suspeito de praticar estelionato. Eles teriam exigido R$ 100 mil para não prender o comerciante. Pio teve prisão preventiva decretada por causa desse episódio.

Ex-donos da empresa Reação serão ouvidos

O Ministério Público (MP) deverá ouvir os antigos proprietários da empresa de vigilância Reação no processo do assassinato do secretário Eliseu Santos.

Fundada em 1999, a Reação passou a pertencer em dezembro de 2007 a Jorge Renato Hordoff de Mello, acusado de ser um dos mandantes do crime. O interesse do MP é esclarecer em que condições a empresa foi vendida e qual a relação de Mello – embora oficialmente esteja em nome da mulher dele, Maria Zenira de Paula Dias – com os antigos proprietários.

A promotora de Justiça Lúcia Helena de Lima Callegari ainda não marcou a data em que deverá ouvir os antigos donos da Reação. A Reação pertencia à advogada Tânia Auler e ao contador Luiz Fernando Vieira, também indiciados em inquéritos criminais. Em 2005, com o sobrinho de Tânia, Délcio Rubenich, eles foram indiciados pela polícia por suposto desvio, em 2002, de R$ 7,3 milhões do Senac. Vieira foi presidente da entidade no período de 1997 a 2001. Ontem, Vieira disse que o caso ainda está tramitando na Justiça.

Em outro episódio, em 2001, o então supervisor de segurança da Reação, Marco Antônio Conceição Chapon e outras 12 pessoas foram presos em uma casa na Capital com armamentos e planos para roubarem malotes de dinheiro na pista do aeroporto Salgado Filho. Chapon foi condenado a cinco anos de cadeia.

Sete anos depois, já sob o comando de Mello, de janeiro a maio de 2008, os vigilantes da Reação trabalharam protegendo o prédio da PF. Este e outros fatos envolvem a empresa em mistérios. Ontem, ZH procurou o casal que comandava a Reação. Tânia havia viajado a Jaguarão, a serviço de um cliente. Não retornou as ligações. Vieira disse que não era sócio da Reação, apenas seu contador.