Luciana Genro

Mix Brasil, 22 de abril de 2010

22 de abril de 2010 21h03

Urna/RS – Maicon Nachtigall
Ativista e policial rodoviário gaúcho é candidato a deputado federal no Rio Grande do Sul

Maicon: vivência do dia-a-dia (Reprodução)

O Mix começa hoje a esquentar o clima das Eleições 2010 e dá início a sua tradicional cobertura das candidaturas LGBT. Quem abre nossa série de entrevistas é o gaúcho Maicon Nachtigall, ativista e policial rodoviário federal que é pré-candidato pelo P-Sol à disputa de uma das 31 vagas na Câmara Federal dos Deputados a que os gaúchos têm direito.

Sua candidatura já foi aprovada pelo partido em suas convenções e já é uma das principais no meio militante brasileiro. Maicon se diz pronto para representar a comunidade colorida na Câmara Federal e se apóia em sua vivência homossexual como principal norteadora de suas futuras propostas. “Aprendi muito enfrentando situações do dia-a-dia.”

Como surgiu a idéia de se candidatar?
Após me tornar um ativista político e perceber que somente homossexuais poderiam perceber e entender as necessidades da comunidade LGBT. Existem representantes heterossexuais apoiadores de nossas lutas, mas para tratar de determinados assuntos é preciso sentir na carne, estar no sangue. Também entendo que o ato de legislar é para todos, para que possamos achar o bem comum entre as pessoas, livre de crendices e mitos populares.

Por que você acha que é uma boa opção para o eleitor?
Ativista político que sou atuo em diversas frentes fundamentais para o desenvolvimento humano de nossa sociedade. Atuante em assuntos LGBT no Estado, um dos coordenadores da Parada LGBT de Pelotas e, juntamente com meu companheiro, realizo anualmente o Festival GalaGayPelotas contra a falsa moralidade, incentivando o desenvolvimento da cultura. Com graduação em Física pela UFRGS, fui professor por mais de três anos e desde 2005 sou policial rodoviário federal no Rio Grande do Sul. Não sou apenas um ativista do setor LGBT, também sou autor de vários projetos sociais desenvolvidos anualmente nas áreas de educação para o trânsito e de combate à fome, que, segundo levantamentos, são os principais motivos que levam a classe menos assistida da sociedade à criminalidade. Já morei em várias cidades do Rio Grande do Sul como Porto Alegre, Caxias do Sul, Rio Grande e hoje em Pelotas, além de já ter viajado o Brasil afora, o que me propiciou um conhecimento geográfico bastante amplo e conhecimento das necessidades de nossa população. A conquista da igualdade de direitos humanos é minha principal bandeira, mas não a única: educação e segurança pública são pré-requisitos fundamentais de desenvolvimento para o Brasil. Sigo a linha de coerência de meu partido no que diz respeito à defesa da justiça social e o combate ao preconceito e à corrupção, denunciando a banda podre da política brasileira.

Quais suas propostas para os LGBT?
Acredito no combate ao preconceito por meio de emendas na Constituição Federal e no Código Civil Brasileiro – e relembro alguns dos 37 direitos civis negados à comunidade LGBT como a união civil e a adoção, além dos direitos de ordem pecuniária como financiamentos conjuntos, direitos previdenciários e de herança, declaração em planos de saúde e imposto de renda, dentre outros, pois enquanto não conquistarmos nossa condição de igualdade de direitos junto aos heterossexuais ainda passaremos por muitas situações constrangedoras e violentas em nosso cotidiano. O combate à homofobia começa aqui. Precisamos instituir nas grades escolares de ensino assuntos de diversidade sexual. Hoje falar em homossexualidade em sala de aula ainda é tabu e o pior, tratada por muitos como se não fosse um ato natural. Precisamos formar a geração do futuro e não será apenas com paradas LGBT que faremos isso. Vou articular com o Ministério da Educação a inserção desse tema na grade, como já vem fazendo a ABGLT, além de ampliar nossa rede parlamentar de apoiadores, coisa que já venho fazendo.

Como elas foram construídas?
Homossexual assumido, aprendi muito enfrentando situações do dia-a-dia e percebendo que se tivéssemos amparo legal as maneiras de como lidar com as situações de discriminação seriam muito diferentes. Partindo daí comecei a militar, participar de inúmeros grupos de discussão sobre desigualdade social. Lendo e trocando idéias com especialistas no assunto, comecei a formatar minha percepção do que se faz necessário para promover uma justiça social para todos.

Como pretende colocá-las em prática se vencer a eleição?
Quando tivermos um representante LGBT legítimo no Congresso o tratamento dos projetos de leis que lutamos, dentre outros que proporei, serão tratados de maneira muito diferente e com mais seriedade. Hoje se os gays não se fazem representar não tem o mesmo moral de cobrar tratamento de igualdade. Em breve, teremos que ter no mínimo um representante LGBT por Estado brasileiro. Articularei esse chamado de nossa comunidade. Com a ideologia socialista que tenho acredito na manifestação popular para pressionar o governo. Uma pressão em massa, em todos os Estados ao mesmo tempo. Quem é mais politizado entende que o governo federal articula para possuir a maioria no Congresso e aprovar o que quer ou o que precisar. Estou no P-Sol justamente porque meu partido não prega isso, não realiza negociatas. Deixa seus parlamentares votarem conforme suas convicções.

Quais são as principais três coisas que o eleitor deve observar em um candidato antes de votar nele?
Caráter vinculado a sua índole, coerência entre seus discursos e atos e competência, já que os LGBT querem e necessitam de um representante para sua classe que tenha conhecimento de causa e que atue ativamente na vida política de nosso País.

Você considera importante os LGBT se envolverem na política? Por quê?
É muito importante todos os setores da sociedade se fazerem presentes nas diversas esferas da administração pública. Em especial na Câmara dos Deputados, temos que ter no mínimo um representante de cada Estado brasileiro. Temos no País 513 deputados justamente para isso, para termos representação dos mais diversos setores, e não para criar cabides de empregos. Como falam as mulheres, um homem jamais poderá saber o que é ser mãe. Se isto é verdade, analogamente, como um heterossexual saberá o que sente e as reais necessidades da comunidade LGBT? Podem ter belíssimos assessores, e alguns até tem, mas ser gay não é imaginar-se gay e isto fará toda a diferença se a comunidade LGBT me der a honra de poder representá-la.

Quem quiser saber mais pode seguir Maicon no Twitter (@MaiconNachtigal) e no Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=mp&uid=6840803233550506639