Luciana Genro

Era mesmo execução!

05 de abril de 2010 08h11

Quem acompanha o meu blog e o Twitter leu o comentário que eu fiz logo após o anúncio da Polícia de que Eliseu Santos havia sido vítima de uma gangue de roubo de carros, e que portanto a tese da execução estava descartada. Eu disse que se alguém quisesse executá-lo certamente iria contratar uma quadrilha para fazê-lo, e que disfarce melhor do que simular um roubo de carro?

Em artigo que enviei para a Zero Hora e para  o Correio do Povo, que nenhum dos dois quis publicar, sob o t ítulo “Um assassinato político?”, escrevi que “o assassinato do ex-vice-prefeito e secretário da Saúde, Eliseu Santos, pode até ter sido um latrocínio, mas tem características de crime político”.

A verdade é que a Polícia Civil se precipitou ao descartar a tese de execução, e os vínculos de um importante delegado com o suposto mandante são um indício das razões dessa precipitação. Mas vou além. A Polícia só descartou tão rapidamente a tese de execução porque sabia que o interesse do “status quo” no Estado era esse. Afinal, um secretário assassinado por envolvimento em caso de corrupção no governo Fogaça é uma bomba numa campanha eleitoral que se avizinha. Principalmente sendo o próprio prefeito em cujo governo ocorreram as irregularidades um dos principais candidatos. A própria imprensa foi rápida em jogar toda a sua força para a tese do assalto, antes mesmo da Polícia dar seu veredito. Para um dos veículos que enviei meu artigo, já no dia seguinte ao assassinato, o jornalista responsável por definir o que seria publicado na página de opinião disse que não iria publicar meu artigo porque eu estava sendo “precipitada” e que logo a Polícia descartaria a tese de execução. Por coincidência, foi exatamente o que aconteceu!

Este era o parágrafo final do meu artigo não publicado: “A política gaúcha está num momento decisivo. PC Farias, Celso Daniel e Marcelo Cavalcante estavam envolvidos com gangues corruptas. Apesar das teses de crimes comuns ou suicídio, as mortes seguem nebulosas. Isso não pode se repetir com a morte de Eliseu Santos. É preciso investigar a fundo para não permitir que assassinatos por encomenda sejam incorporados aos costumes políticos do Estado. Há várias semanas o vereador do PSOL e agora líder da oposição na Câmara, Pedro Ruas, luta pela instalação de uma CPI sobre os desvios promovidos pelo Sollus. Até a morte de Eliseu ele não havia obtido as adesões necessárias. Agora  espera-se que todos os vereadores da capital assinem a CPI. E que a Polícia realize de modo rápido e eficaz o seu trabalho.”

Ao que parece polícia não fez o seu trabalho como deveria, e não me restam dúvidas que assim foi por razões políticas. Felizmente o Ministério Público parece não ter compactuado com a operação abafa, e está cumprindo o seu papel.