Luciana Genro

Crime na Redenção

01 de março de 2010 12h38

Semana passada falei da situação da juventude neste blog. Ontem ficamos todos chocados com a violência na Redenção, onde justamente foram jovens os autores e as vítimas. Abaixo publico o depoimento da minha prima Sibele, médica em um posto de saúde da capital. Ela foi assaltada quando chegava para trabalhar, por dois jovens, brancos e bem vestidos:

“Lu. Dei uma olhada no teu blog e gostei da matéria sobre os jovens e a criminalidade. Mas vamos pensar  além das estatísticas, que são ótimas para explicar o coletivo, mas falham em discutir os detalhes. Eu fui assaltada por dois jovens, brancos, bem vestidos, e um deles , sussuram alguns,  é filho de uma professora do colégio ao lado do posto… É o crack que está entrando nas nossas vidas, deixou de ser coisa de favelado maltratado pela sociedade… Claro que a desesperança de uma vida melhor leva à droga, mas temos que lembrar que o crack entrou a pouco no RS comparativamente a Rio e São Paulo; e que não temos aqui locais de refino de cocaina e portanto do seu subproduto o crack. Isso é recente e não é noticia em jornal apreensões dessas drogas aqui…

No meu caso, abandonaram o carro num beco e me mandaram tirar logo de lá por que  p/ Brigada estava complicado ficar lá… Os brigadianos tiraram o carro do beco e deixaram em outra rua para aguardar o guincho… Eu nao tive permissão p/ entrar no beco, fiquei esperando c/ a guarda municipal na saída pois o dono da boca garantiu apenas a retirada do carro p/ acabar com a confusão que estava atrapalhando os negócios…

E enquanto isso a vida corria normalmente: casas de material, cidadãos “de bem” caminhando pela rua, mercado aberto,ruas asfaltadas, limpas, 8hs da manhã… E há alguns metros estava o barril de pólvora, nada ostensivo, nada que aparentemente denunciasse que ali é uma boca “quente”. Não sei, mas a minha leitura é que aqui a violencia é diferente, está escondida numa realidade paralela que a gente não enxerga, mas que atua lado a lado c/ a vida comum…
Volto a dizer: trabalhei no Morro da Cruz, na Vila Dique, lá sim, a miséria e a violência eram claras…E até justificáveis pelas estatísticas, mas meu fato  particular e isolado(?) não se enquadra nas estatísticas e não está aos olhos da sociedade.

Não me canso de mandar esses emails, mas é a única forma que tenho de elaborar e continuar vivendo sem me tornar paranóica ou abandonar a saude publica que eu tanto acredito!!!!

Um beijão

Sibele”