Luciana Genro

Zero Hora, 21 de fevereiro de 2010

21 de fevereiro de 2010 11h43

À MODA OBAMA
Redes sociais fisgam políticos
Ferramentas que permitem contato direto com os eleitores já são usadas e vão turbinar campanhas como ocorreu nos EUA

Manuela, Mano e Luciana colecionam milhares de seguidores nas redes sociais (ADRIANA FRANCIOSI)

Depois de impulsionarem a vitória de Barack Obama à Casa Branca em 2008 e se tornarem febre na web, os sites de relacionamento irão turbinar as eleições no Brasil. Amparados pela flexibilização no uso da internet nas campanhas, sete em cada 10 parlamentares gaúchos apostam nas redes sociais para multiplicar votos em outubro.

Levantamento realizado por ZH com a bancada gaúcha no Congresso e com os 55 deputados estaduais revelou que apenas 30% dos parlamentares ainda não estão conectados a pelo menos uma das três redes de relacionamento mais populares do país: Twitter, Orkut e Facebook. Quatro dos 89 gaúchos com mandato legislativo podem ser considerados os campeões das redes sociais: os deputados federais Luciana Genro (PSOL), Manuela D’Ávila (PC do B) e Paulo Pimenta (PT) e o deputado estadual Mano Changes (PP). O quarteto cibernético montou uma sólida rede que soma milhares de seguidores. Não satisfeito com seus sete perfis lotados no Orkut, Pimenta ainda criou perfis temáticos no site social mais popular do país.

O boom do Twitter no Brasil, verificado desde o segundo semestre de 2009, faz com que até os parlamentares resistentes às ferramentas virtuais admitam que dificilmente conseguirão ficar de fora.

– Acredito que as redes sociais terão uma grande influência na eleição, mas demandam uma disponibilidade de tempo enorme. Mas é certo que, em breve, vou ter de utilizar esses sites – assinala o deputado federal Eliseu Padilha (PMDB).

Líder nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), entrou no Twitter – microblog que permite relatos em até 140 caracteres – estimulado pelo sucesso que quase uma dezena de perfis falsos seus faziam na rede. A exemplo do âncora do Jornal Nacional William Bonner, que passou a chamar a atenção dos internautas em razão da informalidade de suas mensagens no site, Serra surpreendeu ao revelar um lado menos conhecido do público. Foi por meio do Twitter que o tucano tornou públicas suas crises de insônia, nas quais aproveita para fazer tarefas pessoais, como responder aos seguidores. O sucesso de Serra no Twitter é tão grande que, no final do ano, ele veiculou no Youtube, popular site de compartilhamento de vídeos, uma mensagem exclusiva para seus fãs no microblog:

– Me divirto com as mensagens bem-humoradas que recebo no Twitter, quando me mandam dormir, me chamam de “mano”, ou sugerem a criação da comunidade dos “indormíveis”.

Apesar de andar sempre com um laptop embaixo do braço, a principal adversária do tucano na disputa presidencial, a petista Dilma Rousseff, ainda é uma estranha nos sites como Twitter. Questionada recentemente em evento de tecnologia sobre o motivo de não ter ingressado na rede, a chefe da Casa Civil brincou:

– Agora eu vou o mais rápido possível ter o meu (Twitter). Tenho visto que o Padilha (ministro das Relações Institucionais) consegue ficar tuitando embaixo da mesa, então, talvez eu consiga também dar uma tuitada.

Apesar da pouca intimidade da candidata com a web, os estrategistas de Dilma preparam um arsenal de conteúdos em diferentes plataformas. Em 2009, os petistas chegaram a trazer duas vezes ao Brasil o guru da campanha de Obama, o marqueteiro americano Ben Self. Segundo o ex-tesoureiro nacional do PT Paulo Ferreira, que participou das negociações com a equipe de Self, os americanos se limitarão a prestar consultoria.

Com cerca de um minuto na TV, a pré-candidata do PV à Presidência, senadora Marina Silva (AC), aposta nas redes para ampliar sua visibilidade. A estratégia é usar a internet para engajar os militantes. Outro presidenciável, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), ingressou há pouco no Twitter. Ciro, que segundo assessores é aficionado por tecnologia, não costuma postar com frequência porque faz questão de abastecer pessoalmente o microblog.

* Colaborou Kelly Matos
fabiano.costa@zerohora.com.br
FABIANO COSTA

ENTREVISTA
“Twitter é uma faca de dois gumes”

Professor da pós-graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, Alex Primo é considerado um dos maiores especialistas brasileiros em redes sociais. Convencido de que esta será a eleição do Twitter no Brasil, Primo alerta que uma estratégia digital focada apenas em ganhar a eleição pode se voltar contra o candidato. A seguir, a síntese:

Zero Hora – O uso das redes sociais é um modismo da internet?

Alex Primo – Certamente, não é modismo. O que há é uma tendência de abandono do e-mail para certos usos. Muitos internautas, quando têm assuntos urgentes para resolver, mandam mensagens pelo Twitter.

ZH – O fenômeno Obama deve se reproduzir nas eleições brasileiras de outubro?

Primo – Esta vai ser a eleição do Twitter no Brasil, especialmente pelo histórico do Obama, que teve um bom uso do microblog ainda antes de se lançar candidato a presidente. Em 2006, podemos dizer que foi a eleição dos blogs, por conta da influência dos americanos. Ainda que o Obama tenha inovado com o Twitter, hoje, a maioria dos políticos já conhece muito bem essa rede. Portanto, os candidatos terão de encontrar maneiras de se diferenciarem na multidão.

ZH – Qual é o potencial dessas redes sociais?

Primo – O Twitter ainda tem sido mal aproveitado no Brasil. Quando os políticos usam o microblog apenas para divulgação de agenda, costuma não ter força. Foi a mesma coisa com os blogs nas eleições passadas: todos tinham seu diário na internet, mas eram muito sisudos ou institucionalizados. O potencial do Twitter é justamente o de ir além daquela imagem que os políticos acabam tendo, de alguém que só quer o teu voto.

ZH – É possível se criar uma rede social apenas para funcionar durante o período de campanha eleitoral?

Primo – É possível usar métodos artificiais para ampliar a rede de seguidores. Entretanto, essa estratégia é conhecida por todos os candidatos. Todos os candidatos irão ter sucesso no Twitter? Evidentemente, não. Hoje, o eleitor é diferente, ele acompanha, segue, conhece as estratégias. Ainda que alguns caiam no conto do vigário, outros são mais críticos. Tem de ficar bem claro para os candidatos que o Twitter é uma faca de dois gumes.

ZH – O que faz a diferença para alguém se tornar um sucesso nas redes sociais?

Primo – Conteúdo. Se o candidato tem uma boa plataforma, se realmente está dizendo o que o eleitor quer ouvir, aquilo vai ter sucesso. No entanto, quando se percebe facilmente que a estratégia é apenas para ganhar uma eleição, pode se voltar contra o candidato.

Aos poucos, aspirantes ao Piratini provam o microblog

Se prometem exercer papel de destaque na disputa pela sucessão de Lula, as redes de relacionamento por enquanto tem participação bem mais discreta na corrida ao Palácio Piratini. Dos seis postulantes ao governo do Estado, metade tem intimidade com as ferramentas virtuais: Beto Albuquerque (PSB), Luis Augusto Lara (PTB) e Yeda Crusius (PSDB). O trio costuma alimentar pessoalmente seus microblogs, intercalando mensagens sobre suas vidas pessoais e suas rotinas de trabalho.

Yeda revela que a iniciativa de criar um perfil no Twitter foi uma tentativa de mostrar seu lado pessoal. Por conta disso, procura falar no site sobre coisas de que gosta, como “flores e música”.

Enquanto a governadora dedica parte das madrugadas para abastecer seu blog e seu microblog, caciques tucanos do Estado estão preocupados em obstruir eventuais ataques pela internet a Yeda na disputa eleitoral. Um grupo estratégico já foi criado pelos líderes do partido para discutir como se defender das acusações que devem inundar a campanha.

No outro extremo da corrida digital, José Fogaça (PMDB), Tarso Genro (PT) e Pedro Ruas (PSOL) são considerados candidatos praticamente “analógicos”. O prefeito da Capital, que tem um perfil oficial no Twitter, está desde abril do ano passado sem atualizar sua página no site.

Tarso e Ruas, outros legítimos políticos da “velha-guarda”, penam para lidar com as inovações da internet.

O vereador do PSOL, apesar de exibir perfis no Twitter e no Orkut, admite que quem atualiza os sites é sua assessoria. Já o petista, revela sua filha, Luciana Genro, mal sabe manusear a rede mundial.

– Ele (Tarso) tem muita dificuldade em lidar com computadores. O pai aprendeu a mandar e-mails faz um ano, mais ou menos – conta. (Fabiano Costa)

O que está permitido
Em setembro, o Congresso flexibilizou as regras para o uso da internet nas eleições. Confira:
– A nova legislação eleitoral liberou a livre manifestação na web, mas vedou o anonimato nas campanhas. Outra regra assegurada pela lei aprovada pelo Congresso é o direito de resposta.
– A partir das eleições de 2010, blogs, sites e redes de relacionamento como Orkut, Twitter e Facebook poderão ser utilizados livremente pelos candidatos.
– Também estão permitidas as mensagens enviadas diretamente para os celulares e e-mails dos eleitores.