Luciana Genro

Desabafo

02 de fevereiro de 2010 16h59

A Câmara reabriu os trabalhos nesta terça-feira. O discurso enviado pelo presidente Lula é uma ode ao seu governo e quem ouve pensa que vivemos no país das maravilhas. Não existem as enchentes que, neste início de ano, já mataram muitos  dos milhares que vivem precariamente, em barracos nos morros que desabam, soterram e sufocam. O que existe é o Minha Casa Minha Vida. O desequilíbrio ambiental que gera essas mesmas enchentes e que põe em risco a vida humana na Terra também não existe. E por aí vai, passando pelas “contas em dia” quando a dívida pública consome cerca de 30% de todos os impostos pagos pelos brasileiros. Também não existem os milhares de jovens da periferia cooptados pelo narcotráfico, consumidos pelo crack, sem destino e sem perspectiva. O que existe é o Prouni, e o “fenomenal” aumento de vagas nas universidades públicas, que na verdade sequer acompanhou o crescimento vegetativo de jovens que querem estudar. Cada um sabe onde aperta o sapato, então não preciso dizer muito mais. Já o presidente da Câmara, Michel Temer, falou da alegria de vivermos a consolidação da democracia no Brasil. Sim, mas que democracia esta, hein? Está certo que se compararmos com a ditadura militar, estamos muito melhor. Mas já é mais do que hora de olharmos para a qualidade dessa democracia tão duramente conquistada. E quando olhamos, nem precisa ser muito de perto, sentimos é um cheiro de podre. Cheiro de corrupção generalizada, banalizada. Dinheiro nas cuecas, nas meias, governadores pegos no flagra que seguem governando como se nada estivesse acontecendo. Políticos, corruptos ou não, mas  que não estão nem aí para o povo, só querem “se arrumar”, ou só querem  prestígio, poder, influência para “gerenciar” seus negócios. Ah, no dia em que a maioria do povo abrir os olhos e perceber a força que tem…