Luciana Genro

Zero Hora, 6 de novembro de 2009

06 de novembro de 2009 10h50

ARTIGOS
“Todos” não defendem o SUS, por Lucio Barcelos*

Nesta sexta-feira, 6 de novembro, chega ao nosso Estado a Caravana em Defesa do SUS, cujo tema central é “Todos em defesa do SUS”.

A escolha desse tema suscita dúvidas e preocupações que, sem a pretensão de esgotar o assunto, gostaria de abordar neste artigo.

Em primeiro lugar, é importante que se defina quem são “todos” que defendem o SUS e, em segundo lugar, afinal, de qual SUS estamos falando?

Será que os “todos” incluídos no tema central da caravana têm os mesmos interesses e defendem uma mesma concepção de SUS?

Em minha opinião, caso “todos” inclua o conjunto dos setores e classes representadas em nossa sociedade, essa hipótese, a da defesa comum do SUS, não se sustenta.

O SUS que os trabalhadores e setores médios da sociedade defendem e necessitam é substancialmente diferente do SUS que o empresariado que “investe” na área da saúde defende e quer.

O SUS que interessa à imensa maioria da população brasileira (os 80% que dele dependem diretamente) é um SUS universal, integral, de qualidade e executado diretamente pelo Estado. É um SUS em que o Estado deveria assumir diretamente a responsabilidade pela produção de “todos” os insumos, equipamentos e serviços que dizem respeito ao complexo industrial da saúde e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade pela prestação direta desses mesmos serviços. É um SUS em que a presença do setor privado é residual, tal como determina a Constituição Federal.

O SUS dos empresários é um outro tipo de SUS.

É um SUS que vive de incentivos, subsídios, filantropias e benesses patrocinadas pelo Estado, com os recursos dos impostos retirados dos trabalhadores.

É um SUS que oferta atendimento diferenciado, de acordo com as posses de cada cidadão. É um SUS que discrimina desde a porta de entrada da instituição até a prestação dos serviços, sejam eles quais forem. É um SUS que vive das terceirizações, da precarização dos contratos de trabalho e da apropriação de locais de trabalho pertencentes ao Estado em benefício próprio.

Nós somos defensores incontestes do SUS universal e executado diretamente pelo Estado.

A manutenção da bandeira do “Todos em defesa do SUS”, que se recusa a enxergar a existência de interesses opostos na construção do SUS, configura-se em um equívoco irreparável, que contribui para perpetuar a situação de abandono em que se encontra a população que dele depende.

*Médico sanitarista