Luciana Genro

Zero Hora, 2 de julho de 2009

02 de julho de 2009 10h25

FICAR OU RENUNCIAR
Futuro de Sarney nas mãos de Lula

Sarney está cada vez mais solitário. Aos poucos vem perdendo o apoio dos aliados, que consideram sua permanência no comando do Congresso insustentável diante do tamanho do escândalo que envolve sua gestão no Senado. Apesar de acuado, até a noite de ontem o parlamentar ainda depositava em Lula suas esperanças de ficar no cargo.

Sem apoio dos principais partidos e com a pressão da opinião pública crescendo a cada dia, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), emparedou ontem o PT e tornou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sócio de sua crise.

Lula chegou a antecipar em duas horas a volta de uma viagem à Líbia na noite de ontem a fim de amparar seu fiel aliado.

A pedido do presidente, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, transmitiu a Sarney ontem pela manhã um apelo para que não tomasse nenhuma decisão até a noite. A cúpula do PMDB no Senado insiste em manter Sarney na cadeira de presidente, com o argumento de que o fundamental para isso é o apoio do presidente da República e do governo, com o qual ele vem contando. A sustentação política no Senado, entretanto, diminui a cada dia, e as baixas não pararam ontem.

Depois de ter sido abandonado pelo DEM e pelo PDT, de ter virado alvo de uma representação do PSOL no Conselho de Ética e de um pedido de afastamento do PSDB, Sarney ainda teve de ouvir a sugestão do PT para que se licenciasse.

Mas o clima na bancada do PMDB não é de desânimo, e sim de revolta com a “traição” do DEM e de vingança. Além de escalar uma tropa de choque para revidar aos adversários que entoaram o “fora Sarney”, o PMDB vai operar para que toda a artilharia contra o partido se volte para o DEM e a 1ª secretaria, comandada pelo democrata Heráclito Fortes (PI). O partido entende que a crise do Senado é de natureza administrativa, e quem tem de responder por ela é o partido que comandou a 1ª secretaria na última década: o DEM.

Numericamente, Sarney já acumula contra si a oposição de cinco partidos – DEM, PSDB, PDT, PSOL e PT – que somam 44 dos 81 votos, sem contar os três dissidentes do PMDB. Mas a matemática política de Sarney é outra. Seu grupo contabiliza, a seu favor, pelo menos três votos do DEM e dois do PSDB, além de contar com a metade dos 12 petistas e outras traições, facilitadas pelo voto secreto no caso de um eventual processo de cassação.

Senador disse ao PT que a licença estava fora de seus planos

Diante da sugestão de afastamento por 30 dias do comando da Casa, apresentada por senadores petistas ontem, Sarney ameaçou renunciar ao cargo, fato que desencadearia um processo sucessório fratricida na Casa e abalaria a aliança PT-PMDB em 2010.

A conversa com o PT ocorreu logo cedo, quando Sarney recebeu em sua casa o líder da bancada Aloizio Mercadante (SP) e a líder do governo no Congresso, senadora Ideli Salvatti (SC). Diante da proposta para que se afastasse do cargo durante a apuração das denúncias contra ele, o presidente foi taxativo:

– Licença eu não aceito. Ou me afasto de vez, ou fico no cargo com o apoio de vocês.

Dois fatores devem pesar na decisão de Sarney sobre a permanência ou não no cargo. O senador, segundo um interlocutor, ficou “muito abalado” com a decisão tomada na terça-feira pelo DEM, de propor que ele se licenciasse do cargo enquanto durar a investigação que está sendo feita na Casa, com acompanhamento do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União. O outro fator, segundo o mesmo interlocutor, seria uma recomendação médica.

O médico do presidente do Senado teria recomendado a sua saída do cargo diante do desgaste que a crise vem causando em seu estado de saúde. Amigos do senador disseram que ele está muito abatido e teria confidenciado que tem vontade de se afastar da presidência do Senado. Em conversa com os seus filhos, Sarney teria manifestado a disposição de se afastar da presidência. Além de muito cansado, ele não quer ser identificado como um símbolo da crise no Senado, dizem as fontes.

– Acredito que meu pai esteja sendo um bode expiatório. Acho que a crise é responsabilidade de todos os senadores. Eu me incluo porque já fui senadora – afirmou Roseana Sarney.

ROSANE DE OLIVEIRA

A viúva do ex-representante do Piratini em Brasília Marcelo Cavalcante, Magda Koenigkan, chamou a imprensa para anunciar a intenção de comparecer à Assembleia Legislativa. Ao lado do ex-ouvidor da Secretaria de Segurança Adão Paiani, Magda anunciou que planeja desembarcar na Capital na próxima quinta-feira, atendendo a convite do deputado Paulo Azeredo (PDT).

A viúva afirmou que não apresentará documentos: apenas confirmará a autenticidade de denúncias que estão em posse de Paiani e Azeredo.