Luciana Genro

Zero Hora, 17 de julho de 2009

17 de julho de 2009 11h27

CASA SITIADA
“Há uma repressão no Estado”
Rejane de Oliveira, Presidente do Cpers-Sindicato

Detida pela BM em meio ao protesto, a presidente do Cpers diz que quebrou um dente, foi arrastada e algemada:

ZH – O que ocorreu em frente à casa da governadora?

Rejane de Oliveira – Fomos fazer uma manifestação pacífica. Levamos um símbolo da política da governadora, que é a escola de lata. Fomos empurrados, agredidos. Quando havíamos terminado o ato houve uma ordem para que os brigadianos me prendessem. Caímos no chão e eu fui arrastada e algemada. Acabei me machucando nas mãos, nas costas e quebrei um pedaço do meu dente. O que mais atingiu a governadora é que fomos mostrar a mansão que ela comprou e fizemos um comparativo com as escolas de lata.

ZH – Por que a senhora foi presa?

Rejane – Há uma repressão no Estado. Um governo envolvido em denúncias de corrupção e que tenta calar a voz do movimento. É uma governadora autoritária, que não dialoga e negocia.

ZH – Em algum momento vocês forçaram os portões da casa?

Rejane – Não. Os netos da governadora entraram para dentro do carro e saíram com a maior tranquilidade. A governadora quer criar comoção pública sobre o tema dos netos.

Por que escola de lata

– Porque os alunos estudam em módulos habitáveis revestidos externamente por chapas metálicas e, internamente, por PVC ou compensado, com portas, janelas e instalação elétrica e/ou hidráulica. Por fora, essas estruturas se assemelham aos contêineres.
– Os módulos são instalados no terreno da escola até que os prédios dos colégios passem pelas reformas necessárias. Das 2,6 mil escolas estaduais existentes, cinco funcionam como escolas de lata atualmente.

Reações contrárias

O protesto do Cpers provocou reações ao longo do dia. Na oposição ao governo, pesaram as críticas à ação da Brigada Militar.

– Ocorreram prisões desnecessárias que só acirram os conflitos e não contribuem para pacificar o Estado – disse o deputado Raul Carrion (PC do B).

Pelo menos um integrante da oposição condenou o ato. O deputado estadual Miki Breier (PSB) disse que o protesto ultrapassou os limites:

– Não concordamos com um protesto que invade a privacidade.

Entre os governistas, o deputado estadual Pedro Pereira (PSDB) teve uma das reações mais duras:

– O que fizeram foi criminoso. O Cpers usa professores e alunos para incitar e fazer bagunça.

O comandante da BM, João Carlos Trindade, disse que houve tentativa de forçar as grades da casa de Yeda, negou excessos e admitiu falha da Brigada ao não prever a ação. Segundo o delegado Alexandre Vieira, cinco manifestantes foram indiciados por desobediência. A vereadora Fernanda Melchionna (PSOL), também detida, não foi indiciada por faltar clareza na sua atuação.

O Sindicato dos Jornalistas e a Associação Riograndense de Imprensa repudiaram as ações da BM, apontando o cerceamento ao trabalho da imprensa.

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Ação e reação
Com o extremo a que chegou o episódio de ontem em frente à casa da governadora Yeda Crusius, o Cpers conseguiu seu objetivo de chamar atenção para protestos que nos últimos tempos vinham recebendo poucos ouvidos na Praça da Matriz.

Ao mirar na casa da governadora, porém, o sindicato contribuiu para o que o governo mais quer neste momento: reduzir os protestos e denúncias de corrupção a uma mera disputa eleitoral.

PT e PSOL saíram em defesa do Cpers, afirmando que a ação dos professores e estudantes é fruto de uma postura do governo de pouco diálogo e transparência e condenaram o que chamaram de “vitimização de Yeda”. De fato, as imagens da governadora, visivelmente atordoada na porta de casa, ajudam-na a passar de alvo de críticas a vítima da oposição.

Politicamente, a ação do Cpers municia os partidos da base a relativizar dúvidas sobre o governo e a justificar o apoio à governadora. Movimento semelhante ocorreu em março, quando os deputados mantiveram o veto da governadora ao abono do ponto de servidores grevistas. A discussão na Assembleia ocorria justamente quando o Cpers e outros nove sindicatos de servidores finalizavam uma campanha repleta de teasers publicitários e associavam o rosto da governadora à face da destruição e da corrupção. O caráter de ofensa pessoal deu elementos para aproximar uma base governista de DNA frágil.

Mesmo que informalmente os deputados continuem reclamando da condução do Executivo e do relacionamento com a governadora, a maior preocupação dos parlamentares, agora, é percorrer o Estado e angariar apoios para garantirem mandatos em 2010. Boa parte depende da estrutura do governo para isso.

Ontem, o líder Pedro Westphalen (PP) avaliava que a estratégia adotada pelo governo de atribuir a interesses eleitorais as denúncias contra a governadora tem funcionado:

– Todos os últimos movimentos uniram os aliados porque o desgaste da governadora atinge a todos nós.

Com os olhos dos partidos voltados para as urnas, quanto maior a conotação eleitoral dada às críticas da governadora daqui para frente, maior será o escudo para rebater a oposição.

Eu sou você amanhã
Após a repressão à manifestação do Cpers, policiais militares comentaram com colegas que se colocavam no lugar dos professores.

– O pessoal me disse “daqui a uns dias, nós estaremos na situação deles” – reproduziu o presidente da Associação de Servidores de Nível Médio da BM, soldado Leonel Lucas, que acredita em possibilidade de greve da categoria se o governo não acenar com reajuste salarial.

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Era esperada a negativa da juíza Simone Barbisan Fortes diante do pedido do PSOL para bloquear contas bancárias e bens da governadora, de Carlos Crusius e do ex-secretário Delson Martini.

Aliás

A forma como o protesto do Cpers foi dispersado, ontem, demonstra que o governo perdeu a oportunidade de dar um tapa de luva nos manifestantes, se não tivesse reagido a provocações e tivesse demonstrado disposição para o diálogo.