Correio do Povo, 17 de julho de 2009
Correio do Povo, 17 de julho de 2009

| Saiu na Imprensa

BM usou a força contra os manifestantes
PMs do BOE atacaram professores, sindicalistas e jornalistas. Depois, tentaram impedir o trabalho da imprensa na área judiciária

A Brigada Militar usou da força contra os manifestantes e sindicalistas ontem, em frente à residência da governadora Yeda Crusius. Além de prenderem a presidente do Cpers/Sindicato, Rejane de Oliveira, a vice-presidente da entidade, Neida de Oliveira, e outros quatro manifestantes, os policiais tentaram impedir o trabalho da imprensa. A repórter da Rádio Guaíba, Fernanda Bagatini, e o repórter fotográfico do Correio do Povo, Eduardo Seidl, foram empurrados.

Às 8h33min, houve indício de descontrole da tropa. Enquanto um grupo de PMs atacava os manifestantes, outros agiam contra os cinegrafistas e repórteres fotográficos para tentar impedir a captação de imagens das agressões, que prosseguiram depois nas dependências do Palácio da Polícia, ocasião em que Seidl e a repórter do CP, Luciamem Winck, foram retirados aos empurrões do saguão da Área Judiciária por um grupo de PMs do BOE.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, José Maria Rodrigues Nunes, que estava na Área Judiciária em busca de informações sobre a prisão do repórter fotográfico freelancer Antônio Carlos Argemi, testemunhou o cerceamento do exercício profissional da equipe do CP e decidiu intervir. Os jornalistas só tiveram acesso à área judiciária quando agentes do Grupamento de Operações Especiais assumiram o controle da situação e após a chegada dos deputados Luciana Genro (PSol) e Elvino Bohn Gass (PT).

O diretor da Divisão Judiciária e de Operações, delegado Alexandre Vieira, lamentou que os jornalistas tenham sido hostilizados por PMs do BOE nas dependências de uma repartição da Polícia Civil. ‘Ninguém pode proibir o exercício profissional da imprensa, que tem seus direitos assegurados na Constituição’, enfatizou. Os advogados Carlo Antonio Ferrão, do PSol, e Carlos Nascimento, do SindiCaixa, também foram impedidos de trabalhar. O comando da BM afirmou, entretanto, que não houve ‘enfrentamento’ e que poderá revisar a estratégia de ação.

Yeda ataca os professores: ‘Vocês torturam crianças’
Indignada com o protesto, Yeda foi ao portão da casa enfrentar os sindicalistas

Professores, sindicalistas e militantes de partidos políticos ocuparam no início da manhã de ontem a rua em frente à residência da governadora Yeda Crusius, no bairro Vila Jardim. Liderados pelo Cpers/Sindicato, os manifestantes exigiram o impeachment da governadora e colocaram, no acesso ao estacionamento da casa, um módulo metálico improvisado, simbolizando uma sala de aula da Secretaria Estadual de Educação. ‘Enquanto utilizam o dinheiro da corrupção para comprar uma casa como essa, os alunos estudam em escolas de lata’, repetia a presidente do Cpers/Sindicato, Rejane de Oliveira.

Em meio às palavras de ordem, a governadora deixou a casa e, do pátio, tentou negociar a saída dos netos, de oito e 11 anos, para a escola. Não obtendo êxito, retornou para dentro de casa e voltou com um cartaz com uma mensagem aos docentes que participavam do ato: ‘Vocês não são professores. Torturam crianças. Abram alas que minhas crianças têm aula!’. Depois de assegurar a saída dos netos, a governadora voltou para a residência, onde permaneceu durante toda a manhã. Os vizinhos reclamavam do barulho, que denominaram de ‘perturbação da tranquilidade’.

Por volta das 8h, PMs do Batalhão de Operações Especiais (BOE) passaram a expulsar os manifestantes, atendendo à determinação do comandante-geral da Brigada Militar. Houve pelo menos cinco conflitos até às 9h, incluindo agressões físicas envolvendo pessoas que participavam do protesto, jornalistas e cinegrafistas. Em meio aos empurrões, alguns caíram no chão e foram pisoteados pelos demais que tentavam escapar dos golpes de cassetete. Durante os confrontos, os PMs prenderam a presidente do Cpers/Sindicato, Rejane de Oliveira, a vice-presidente da entidade, Neida de Oliveira, o diretor do SindiCaixa, Miguel Chagas, o repórter fotográfico freelancer Antônio Carlos Argemi, o caminhoneiro Miguel Ramos Leiria e a vereadora Fernanda Melchiona (PSol).

Os detidos foram apresentados na 14ª Delegacia de Polícia e depois levados à área judiciária, no Palácio da Polícia. Após ouvir os relatos de PMs e dos detidos, o delegado plantonista Leonel Baldasso libertou a vereadora, porque ela chegou ao local no final do protesto. Os demais foram indiciados pela prática de desobediência e resistência e liberados após serem submetidos a exame de lesões corporais no Departamento Médico Legal.

Nenhum deles foi responsabilizado pelos prejuízos causados aos jardins da casa da governadora, danificado pela presença do contêiner de lata. Para que isso ocorra, há necessidade de uma representação direta da vítima, a governadora Yeda Crusius.

Rejane diz que foi agredida

Após ser libertada, a presidente do Cpers/Sindicato, Rejane de Oliveira, reclamou da Brigada Militar. ‘Fomos para a frente da casa da governadora para uma atividade pacífica. Os PMs do Batalhão de Operações Especiais primeiro nos retiraram da calçada, depois da rua. Nos empurraram, agrediram, fui algemada e colocada em uma viatura’. Ela teve ferimentos nas mãos e braços e um dente quebrado. A vereadora Fernanda Melchiona (PSol) também criticou a corporação. ‘Nem sei porque fui detida e levada de viatura’, comentou. Segundo ela, os manifestantes foram reprimidos de maneira violenta pela BM.

O diretor do SindiCaixa, Miguel Chagas, também afirmou que não sabia porque foi detido. ‘Fui juntar a minha bandeira que caiu no chão e me acusaram de lançar uma pedra na direção de um PM’, disse. O delegado plantonista Leonel Baldasso ressaltou que as prisões foram motivadas por desobediência e resistência dos manifestantes. ‘Ainda serão apurados os crimes de perturbação do sossego e dano a um jardim da propriedade da governadora’, explicou. Segundo ele, o comando do BOE apresentou um PM ferido, com um corte no rosto, durante a detenção.

Última sessão da Assembleia debateu protesto polêmico
Antes do recesso parlamentar, deputados da oposição criticaram governadora

A última sessão na Assembleia Legislativa, antes do recesso, teve como principal tema a polêmica manifestação do funcionalismo em frente à casa da governadora. Deputados de oposição e da base aliada se revezaram na tribuna, entre defesas e ataques. Para os petistas, houve um movimento orquestrado para transformar a governadora em uma vítima. ‘A governadora é vítima do mais escandaloso governo, do qual também é construtora principal, onde tenta governar com mão de ferro e outros instrumentos, para manter uma base de sustentação ao seu lado. Essa governadora é vítima, mas é vítima de si mesma’, afirmou Stela Farias.

O líder da bancada do PT, Elvino Bohn Gass, se disse espantado com a atitude da governadora e voltou a aconselhar ‘que ela tente recobrar o equilíbrio’. Para ele, o que sobra de truculência no governo falta em transparência. ‘Os professores cobravam o que toda a sociedade quer saber. O que há por trás das perguntas sem respostas?’, provocou.

O deputado Fabiano Pereira, embora considere que a frente de uma residência não é o melhor local para protestos disse que, no caso da mansão da governadora, é diferente por se tratar de um dos principais símbolos da crise. ‘E a falta de informações e de transparência reforçam isso’, salientou. O vice-líder da bancada, Raul Pont também criticou a ‘inabilidade’ de Yeda para enfrentar situações adversas. ‘A governadora tem que ter noção e postura compatível com o cargo que ocupa’, declarou, atribuindo a proliferação de protestos à falta de disposição da governadora em dialogar.

A crise repercutiu também na Câmara dos Deputados. O deputado federal Pepe Vargas (PT), em pronunciamento, classificou de arbitrária e ilegal a prisão dos manifestantes, ações comparadas por ele às que ocorriam no tempo da ditadura militar. ‘O estado democrático de direito foi atingido’, acusou o petista.

Para Lang, atitude de Yeda foi ‘fora do normal’

O deputado Marcos Lang (Dem) não aprovou a manifestação em frente à casa da governadora, mas também repudiou o ato de confronto do governo. ‘As reações da Yeda sempre são muito complicadas’, lembra Lang. Para o parlamentar, que é do partido do vice-governador Paulo Feijó, a governadora provou mais uma vez que tem dificuldade para enfrentar situações adversas. ‘Mas a atitude de ontem foi fora do normal’, avaliou.

ARI e Sindicato dos Jornalistas criticam a BM

Em nota oficial, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul e a Associação Riograndense de Imprensa (ARI) repudiaram, ontem, a atitude da BM no trato com a imprensa e cobraram providências do Comando da BM. Segundo a nota, várias equipes de reportagens tiveram seu trabalho cerceado na manhã de ontem. Ressaltam que esse tipo de ocorrência atinge a todos os profissionais da imprensa gaúcha.

Rosário critica violência contra educadores

A deputada Maria do Rosário (PT) repudiou o uso de violência ‘comandada pela governadora Yeda Crusius contra trabalhadores da educação’. Para ela, esta não é a forma adequada de de um governo relacionar-se com seus funcionários. ‘O governo já envergonha a história do Estado ao colocá-lo como o que menos investe em educação no país e colocando crianças em situações precárias de ensino, como em salas de lata’, atacou.

Loureiro afirma que professores exageraram

‘O protesto é justo, mas o Cpers exagerou ao fazer manifestação em frente à casa da governadora’. A ponderação é do deputado do PDT, Adroaldo Loureiro, que tem defendido na Assembleia a instalação da CPI da Corrupção para investigar supostas irregularidades no governo do Estado. Exagerada, para Loureiro, também foi a reação da governadora: ‘Ela perdeu a oportunidade de ficar quieta e, talvez, capitalizar em seu favor’, concluiu.

Pompeo prevê final de governo melancólico

O deputado Pompeo de Mattos (PDT) disse, ontem, que a situação da governadora Yeda Crusius cada dia se complica mais. Para ele, as denúncias e as investigações da Polícia Federal sobre irregularidades no governo, levam a uma única conclusão: ‘Yeda arrasta-se para um fim de governo melancólico e o quadro é tão delicado e imprevisível que novas denúncias podem encurtar seu mandato’, prevê o parlamentar.

TALINE OPPITZ

Juíza nega bloqueio de bens
O pedido do PSol, de bloqueio dos bens e contas da governadora, de seu marido, Carlos Crusius, e do ex-secretário Delson Martini, foi negado pela juíza Simone Barbisan Fortes. A manifestação foi enviada a Pedro Ruas. No documento, a juíza destacou que nenhum deles figura como réu no inquérito gerado pela Operação Rodin, que não há investigação criminal pendente na 3ª Vara da Justiça Federal de Santa Maria e que Yeda só poderia ser julgada pelo STJ. O PSol não se deu por vencido e terça-feira solicitará que o MPF apresente novo pedido com o mesmo teor.