Luciana Genro

Correio do Povo, 1 de julho de 2009

01 de julho de 2009 10h10

Dem, PSDB e PDT pedem que Sarney deixe o cargo
Pressionado, presidente do Senado preferiu não aparecer no plenário à tarde

Depois de o PSol ter procotolado representação na Mesa Diretora propondo a abertura de processo por quebra de decoro contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), mais três partidos – Dem, PSDB e PDT – defenderam formalmente sua licença do cargo. Para se contrapor à pressão pelo afastamento de Sarney, a bancada do PMDB divulgou uma nota, assinada 17 de seus 19 representantes, reiterando apoio ao presidente do Senado. Acuado, Sarney preferiu não aparecer no plenário à tarde, o que reforçou as dúvidas sobre sua capacidade de enfrentar a pressão e continuar no comando da Casa.

Mesmo com o apoio declarado do PMDB e do PT, Sarney demonstrou abatimento. Pela primeira vez nos últimos dias, a possibilidade de afastamento do cargo chegou a ser cogitada no seu grupo mais restrito, inclusive na família. O que mais abalou Sarney foi a decisão do Dem de pedir sua licença da presidência até a conclusão das investigações sobre a participação da empresa de seu neto José Adriano Cordeiro Sarney em contratos de empréstimos consignados a servidores da Casa.

A decisão da bancada, anunciada pelo líder do Dem, José Agripino (RN), não foi unânime, mas Sarney sentiu o golpe, já que o Dem apoiou sua candidatura. Além de Heráclito Fortes (PI), primeiro-secretário da Casa, foram contra a proposta os senadores Antonio Carlos Magalhães Júnior (BA) e Eliseu Rezende (MG).

PSol pede apuração de denúncias

O PSol protocolou ontem representação contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o ex-presidente da Casa Renan Calheiros (PMDB-AL), para que sejam apuradas as denúncias de irregularidades durante a gestão dos dois no cargo. ‘Entramos com representação contra dois presidentes do Senado cujos atos secretos estão em suspeição relevante’, afirmou a presidente do partido e ex-senadora, Heloisa Helena.

Ela protocolou as representações na Mesa Diretora, acompanhada do senador do PSol, José Nery (PA), e dos três deputados do partido, Chico Alencar (RJ), Ivan Valente (SP) e a gaúcha Luciana Genro. ‘Só precisa de ato secreto quem privilegia o banditismo do submundo’, afirmou. Diferentemente do que havia anunciado na semana passada, o PSol não entregou representação contra outro ex-presidente da Casa, Garibaldi Alves (PMDB-RN). O deputado Chico Alencar afirmou que Garibaldi enviou uma carta à bancada e à executiva do partido com explicações, afirmando que, se algum ato secreto foi realizado durante o período de sua presidência, foi à revelia de seu conhecimento. ‘Ele teve um gesto de esclarecimento’, disse Alencar.

Como se trata de uma representação de um partido político, a Mesa tem de encaminhar o pedido ao Conselho de Ética. No entanto, desde maio, quando terminou o mandato dos integrantes do colegiado, o conselho está desativado. O PMDB e o PSDB ainda não fizeram as indicações de seus representantes para o conselho.

Sarney dá sinais de que vai renunciar

Apesar da nota divulgada ontem à noite, na qual afirma que seu afastamento da presidência do Senado ‘sequer está em análise’, o comportamento do senador José Sarney ao longo do dia mostrou o contrário. Nos bastidores, comentários de aliados indicavam que Sarney começa a dar sinais de que poderá se licenciar para reduzir a pressão sobre si e a família, a despeito do apoio do PMDB, do PT e do governo Lula.

Sarney consultou aliados políticos. À noite, pretendia se reunir com o núcleo mais próximo, além dos filhos, para tomar uma decisão. Seus aliados avaliam que o afastamento seria a melhor opção, pois ele pode ser obrigado a fazer isso com a abertura de um processo no Conselho de Ética por quebra de decoro, possibilidade agora prevista no regimento interno. ‘A família está solidária e o apoiará no que ele decidir. Ele não vai tomar uma decisão por emoção’, disse a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, filha do senador.

O clima na família é de preocupação, especialmente com a saúde do senador, de 79 anos. A avaliação do núcleo familiar é de que Sarney está no foco do tiroteio há cinco meses e que, enquanto ele não se afastar, a pressão continuará.

Em conversas ao longo do dia, Sarney avaliou que a crise ameaça a governabilidade do Senado. Estiveram em sua residência senadores como Renan Calheiros (PMDB-AL), Gim Argelo (PTB-DF) e Fernando Collor (PTB-AL). Em um desabafo, demonstrou mágoa com o Dem, que pediu seu afastamento. Ele acreditava que o partido não recuaria no apoio, já que o comando administrativo da crise foi repassado ao primeiro-secretário, senador Heráclito Fortes (Dem-PI).