Luciana Genro

Zero Hora, 13 de maio de 2009

13 de maio de 2009 11h58

PF vê necessidade de aprofundar apuração

Depois de repassar ao Ministério Público Eleitoral (MPE) informações sobre suposto uso de caixa 2 na campanha de Yeda Crusius ao governo do Estado e suspeitas de irregularidades na compra da casa da governadora, a Polícia Federal (PF) aguarda pronunciamento do órgão e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para iniciar a investigação. Por ser governadora, Yeda só pode ser investigada com autorização do STJ.

Segundo a PF, há elementos que indicam a necessidade de aprofundar as investigações sobre as suspeitas, surgidas durante a CPI do Detran, no ano passado, e reforçadas pelo PSOL, em fevereiro deste ano.

– Os indícios nos mostram que as investigações têm de ser aprofundadas. Toda investigação tem de ter começo e fim com autorização do poder competente para evitar nulidade – afirmou o superintendente da Polícia Federal, delegado Ildo Gasparetto.

Se entender que os indícios coletados pela PF procedem, o procurador regional eleitoral Vitor Hugo Gomes da Cunha terá de encaminhar o material ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pedindo que seja solicitada autorização ao STJ.

O que a PF fez até o momento foi um trabalho preliminar, com base no voto em separado do PT na CPI do Detran e nas denúncias do PSOL. Não houve nova investigação. Para que um inquérito seja instaurado, o STJ terá de dar aval à apuração. Por intermédio da assessoria de imprensa, Vitor Hugo confirmou que não passaram pela Procuradoria Eleitoral as fitas que o PSOL sustenta existirem. Ele não entrou em detalhes sobre o encaminhamento da apuração.

PSDB nacional adota cautela na defesa de Yeda
Governadora fará hoje um périplo por Brasília

Fábio Schaffner, Brasília
*Colaborou Rodrigo Orengo

Ao circular por Brasília, hoje, a governadora Yeda Crusius espera angariar apoio do PSDB para rebater novas denúncias sobre irregularidades na campanha eleitoral. A direção nacional do partido, porém, reluta em fazer uma defesa incondicional do governo gaúcho.

– Nós estamos solidários e temos confiança nela, mas a tarefa da defesa é da governadora e de seus auxiliares. Nós não estamos sendo acusados. Não estamos sendo vitimados com nenhum tipo de denúncia – disse ontem o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Yeda tomará o café da manhã com líderes tucanos. Guerra já conversou com a governadora por telefone na sexta-feira, mas pretende esperar pelas explicações. A mesma precaução foi registrada durante uma reunião da bancada do partido na Câmara, cujo objetivo era debater as estratégias para as eleições presidenciais do ano que vem. Aliados da governadora já identificaram um certo distanciamento do governador de São Paulo, José Serra, considerado favorito para liderar a chapa tucana na corrida ao Planalto.

Os mais aguerridos defensores da governadora junto à bancada são dois deputados ligados ao governador de Minas Gerais, Aécio Neves, adversário de Serra na disputa pela candidatura presidencial: José Aníbal (SP) e Claudio Diaz (RS). Eles articulam uma reunião de Yeda com o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), para a manhã de hoje. O objetivo é pedir rapidez na conclusão do inquérito da Polícia Civil que apura a morte do ex-assessor do governo do Estado Marcelo Cavalcante.

A governadora já havia conversado ontem com o senador Pedro Simon (PMDB) e telefonado para o gabinete da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Yeda não conseguiu marcar uma audiência com Dilma, que havia viajado para São Paulo. A Simon, ela comunicou a intenção de visitá-lo no Senado.

– Ela estava tensa. Depois do telefonema, pedi ao Ministério Público Federal que diga se afinal existe alguma fita com essas denúncias. O Rio Grande não pode ficar vivendo esse clima – disse Simon.

Hoje à tarde, Yeda começa a organizar um contra-ataque jurídico. Ela irá se reunir com um dos mais famosos advogados de Brasília, o gaúcho Eduardo Ferrão. Pretende discutir a possibilidade de acionar judicialmente a empresária Magda Koenigkan, viúva de Cavalcante, e integrantes do PSOL, autores das denúncias de caixa 2 na campanha tucana ao Piratini.

A contratação de Ferrão foi sugerida pela executiva nacional do PSDB. Para a cúpula da legenda, até agora Yeda não demonstrou contundência ao rebater as acusações. No entendimento dos dirigentes, a falta de firmeza estaria alimentando o surgimento de novas suspeitas.

– Ela precisa ir para o enfrentamento. Não basta apenas negar eventuais irregularidades – comenta um parlamentar tucano.

A governadora deverá se encontrar ainda com a bancada do PSDB no Congresso.

ROSANE DE OLIVEIRA

Pelo caminho judicial

Convencida de que não conseguirá reverter a onda de denúncias contra seu governo pelo caminho da comunicação, a governadora Yeda Crusius decidiu recorrer à Justiça, providência que rejeitou quando foi acusada pela deputada Luciana Genro e pelo vereador Pedro Ruas, em fevereiro. O tipo de ação que vai mover contra seus acusadores será definido a partir de hoje, com a banca de advogados que o PSDB nacional vai colocar a sua disposição. Em princípio, será uma interpelação judicial à revista Veja e às pessoas que a acusaram.

– Vou buscar a verdade pelo meio judicial em nome do Rio Grande. Tenho o direito e o dever de pedir que tudo seja esclarecido.

Quem também mudou de postura foi o professor Carlos Crusius, ex-marido da governadora. Ela revelou ontem que Crusius vai processar o vereador Pedro Ruas, do PSOL, que no programa Conversas Cruzadas, da TVCOM, segunda-feira, o acusou de “furtar dinheiro da campanha”.

A orientação de Yeda Crusius aos membros do seu governo acusados de envolvimento em irregularidades, como Walna Vilarin Meneses, é para que contratem advogado:

– Já avisei que mamãe não protege mais. Cada um cuida do seu nome. Temos de nos defender e atacar.

A ofensiva judicial da governadora será combinada com uma ofensiva política e um périplo pelos meios de comunicação apresentando cópia da prestação de contas da campanha e das conclusões do Ministério Público, que em dezembro de 2008 arquivou a investigação sobre a compra da casa.

Yeda disse que está trabalhando contra a abertura de uma CPI porque no Rio Grande do Sul a CPI não tem regras:

– Se tiver regras claras, oriento meu pessoal a assinar.

Interlocutor era Feijó

É o vice-governador Paulo Feijó o interlocutor de Alexandrino de Alencar, executivo do Grupo Odebrecht, nos e-mails divulgados pelo PSOL.

O nome do autor das mensagens encaminhadas por Alexandrino, tratando de financiamento de campanha, foi apagado nas cópias distribuídas à imprensa, assim como do receptor daquela em que no dia 12 de setembro de 2006 o executivo da Braskem diz (sobre uma “encomenda”): “Deverá ser feito hoje com o marido, boa sorte”.

A prestação de contas de Yeda registra duas doações da Braskem (controlada pela Odebrecht), no valor de R$ 100 mil cada uma, em 4 de setembro e 10 de outubro.

Mesma fonte

Sem citar o nome de seu vice, Paulo Feijó, Yeda Crusius disse ontem que a fonte das denúncias publicadas pela revista Veja é a mesma que fornece informações a conta-gotas para o PSOL:

– Na véspera daquela coletiva, o carro de Pedro Ruas estava lá na frente do Palacinho. É curioso que depois da divulgação dos e-mails, o vice viaje, mas não vou ser irresponsável de acusar sem provas.

BRASÍLIA

No ataque

Um dos mais badalados advogados de Brasília, o gaúcho Eduardo Ferrão está sendo sondado pela governadora Yeda Crusius para processar criminalmente o PSOL e Magda Koenigkan, autores das denúncias de caixa 2 na campanha ao Piratini. Se aceitar a empreitada, Ferrão muda de postura. O advogado é conhecido por defender políticos. Desta vez, seria acionado para atacar.