Luciana Genro

Zero Hora, 11 de maio de 2009

11 de maio de 2009 14h31

“Nunca vi R$ 400 mil na minha vida”
ENTREVISTA: CARLOS CRUSIUS

Adriana Irion e Dione Kuhn

Vinte e quatro horas depois de Yeda Crusius rebater, em entrevista coletiva, denúncias contidas na matéria da revista Veja, Carlos Crusius também decidiu se manifestar. Ressaltando o fato de sempre ter se preservado por entender que “marido” de governadora não deve falar, negou ter recebido dinheiro de campanha. Lançou dúvidas sobre quem estaria por trás de denúncias que o governo enfrenta desde 2007.

Vestindo jeans, camiseta e tênis, Crusius falou por cerca de 90 minutos na manhã de ontem. Disse querer descobrir que interesses Magda Koenigkan – viúva do ex-assessor de Yeda Marcelo Cavalcante – teria para confirmar declarações que chama de falsas. Perguntado, afirmou que segue casado com Yeda. Abaixo, trechos da entrevista:

Zero Hora – Como o senhor avalia as denúncias de que teria recebido dinheiro de caixa 2?
Carlos Crusius – Sempre evitei falar, aparecer, dar entrevista. Por uma razão muito simples: marido não fala. Primeira-dama não fala. Mas sou professor, tenho amigos, alunos. De repente, começam insinuações. É um custo pessoal altíssimo. Eu sei que a governadora paga um custo maior ainda. Não estou reclamando, só dizendo que a situação é ruim. Agora, com esse negócio da Veja, ultrapassou todos os limites, porque bateu em mim direto. Mas claro que não sou o visado, é a governadora. Tenho aguentado com Yeda, com a família, toda essa lama, essa coisa inacreditável que está acontecendo no Rio Grande do Sul. Desde o começo do governo, tem sempre uma denúncia.

ZH – O que motivaria essas denúncias?
Crusius – Se vocês fizerem um retrospecto, vão ver que sempre vem de um determinado lado. É um negócio meio selvagem, irracional, sempre tentando atingir a pessoa da governadora. Mas tem uma lógica, que está aparecendo cada dia mais. Não é simplesmente desestabilizar o governo. Vocês têm capacidade para depois começar a juntar peças e ver o que está acontecendo no país.

ZH – O senhor acha que tem a ver com algo nacional?
Crusius – Acho, mas isso é meu, não estou fazendo teoria de conspiração nenhuma.

ZH – O que o senhor tem a dizer sobre as supostas gravações que a revista Veja cita?
Crusius – Não é que eu negue que existam fitas e provas. Nego uma coisa mais fundamental, nego o fato. Os fatos não existiram, não recebi um tostão do Marcelo (Cavalcante, ex-assessor de Yeda). Não recebi R$ 400 mil do Marcelo (dinheiro que, segundo a viúva de Cavalcante, Magda Koenigkan, seria recebido por meio de caixa 2), aliás eu nunca vi R$ 400 mil juntos assim na minha vida. Isso não aconteceu, como não aconteceu aquela denúncia do PSOL, de que teria ocorrido uma reunião com empresários e um cara passou não sei quantos mil na mesa. É absoluta loucura. Aí tu vais dizer: “Ah, mas tem uma fita”. Me mostrem a fita. É impossível ter uma fita onde eu esteja recebendo R$ 400 mil do Marcelo. Se isso existir, é tão falso como uma nota de três pilas, é montado.

ZH – A reportagem da Veja não cita fitas com imagens, mas áudios de uma conversa entre Cavalcante e o lobista Lair Ferst.
Crusius – Não sei o que existe. Agora, o que não tem é eu passando dinheiro. Vão dizer: “Mas olha aqui, tem um vídeo do Crusius lá na campanha falando com não sei quem”. Pode ser que tenha, falando, sei lá, com o Marcelo.

ZH – O senhor tinha contato com Cavalcante na campanha?
Crusius – Nós chegamos lá. É claro que tu não sabes se eu recebi ou não o dinheiro, tens direito a essa desconfiança, assim como todo mundo. O que não pode é prejulgar. Sobre as denúncias do PSOL, não quero nem falar. Tem uma diferença. São parlamentares, então se tu processas, dois dias depois o tribunal encerra o caso e recobre com o manto da imunidade parlamentar. No caso atual, eu repito 50 mil vezes, nunca recebi dinheiro do Marcelo, nunca recebi dinheiro de caixa 2 nenhum, mas este especificamente nunca recebi. Esses tais de R$ 400 mil das fumageiras, vocês me desculpem, mas quando eu li a descrição que essa moça (viúva de Cavalcante) fez, achei cômica. É uma sala cheia de fornecedores e credores enlouquecidos, aí o cara entra com R$ 400 mil. Em vez de pagar os caras, em vez de dar o dinheiro ao tesoureiro, ele dá para mim. Aí eu entro numa sala, saio e digo: “Ó, pessoal, no money today (não tem dinheiro hoje)”. Pelo amor de Deus, o que é isso? É uma loucura.

ZH – Quem era o tesoureiro?
Crusius – O Rubens Bordini. Havia uma regra: quem lidava com dinheiro, fazia arrecadação, pagamento, era o Bordini. Eu podia chegar e dizer: “Dá uma colaboração para campanha”. Tu dizias: “Vou te dar”. Eu respondia: “Não, para o Bordini”.

ZH – Era normal alguém ir ao comitê e oferecer dinheiro por fora?
Crusius – Não, para mim não. Tem gente que chega lá insinuando coisas, tem oportunista, vigarista.

ZH – Lair Ferst seria um deles?
Crusius – Vamos falar da questão da Veja. O pobre do Marcelo não é mais fonte. Existem as fitas? Parece que existem as fitas, onde é que estão, elas foram gravadas por quem? Precisa fazer perícia. Onde foram gravadas? Parece que foi num barzinho, mas era uma gravação como? Ambiental? Era um gravador em cima da mesa, como estamos aqui às claras? Vamos pegar a fita e vamos periciar, vamos ver se tem corte, porque eu quero a conversa toda. Eu gostaria muito que o Marcelo estivesse vivo, porque eu tenho certeza de que o Marcelo seria o primeiro a desmentir. Quero saber como foi a conversa, induzida, preparada, combinada?

ZH – O senhor já tinha ouvido falar que o Lair fazia gravações?
Crusius – Já. Agora, tu tens uma fonte: a moça. Quem é essa moça? Nunca ouvi falar nela.

ZH – A governadora disse que chegou a conhecer Magda. O senhor a conhecia também?
Crusius – Parece que a Yeda viu e não gostou muito. Um bom trabalho jornalístico é saber quem é a moça.

ZH – A tentativa de desqualificar a fonte não pode passar ideia de que há algo a esconder? O que pesa mais: a veracidade da fita, a fonte ou o fato de o senhor garantir que os fatos não existiram?
Crusius – Estou fazendo tudo. A primeira coisa que fiz foi garantir que o fato não aconteceu. Agora, tu vais me pedir uma prova? Como é que eu posso provar, é uma prova negativa? Entendeu? É um ardil lógico, é por isso que é uma situação torpe, uma coisa diabólica.

ZH – Depois da morte de Cavalcante, Magda teve contato com o governo ou com o senhor?
Crusius – Comigo não, sei que há umas entrevistas meio contraditórias dela. Agora, vou ver que medidas judiciais posso tomar. Não estou dizendo que a moça seja isso ou aquilo. Estou dizendo que o que ela está declarando é falso. E ninguém mais do que eu tem essa verdade. E o Marcelo, esteja onde estiver, sabe disso.

ZH – Em e-mail que circulou no dia da morte de Cavalcante, o senhor culpava a oposição. Na entrevista de sábado, a governadora falou em suicídio induzido, numa referência à viúva. Há contradição?
Crusius – Acho que não. A Yeda pode ter informações que eu não tenho. Não sei nada sobre a morte. Tudo indica que foi suicídio. Sei que, com a CPI do Detran (quando foram divulgados áudios da conversa entre Cavalcante e Lair), ele, que era frágil, fragilizou-se mais. Tinha grande orgulho de ser o embaixador do Estado em Brasília, sentiu muito.

ZH – A decisão da governadora de demiti-lo pesou nesse sentido?
Crusius – Não sei. Mas ele encontrou essa moça, que fez gato e sapato dele. Os relatos que se tem são muito ruins. Ele degringolou. Não sei se foi porque saiu do governo, se foi por que encontrou a moça, se foi o conjunto.

ZH – Não intriga o senhor o fato de a polícia não ter descoberto a causa da morte de Cavalcante?
Crusius – Eles simplesmente estão politizando. Eles já sabem.

ZH – Qual seria o interesse da Polícia Civil de Brasília em politizar o assunto?
Crusius – Sabem que foi suicídio, estão alongando. Eu acho isso.

ZH – O que fazia Cavalcante na campanha de Yeda em 2006?
Crusius – Ele era do gabinete da Yeda em Brasília e veio para cá porque tinha relações com os políticos, veio para fazer esse meio-de-campo. Quem coordenava a campanha eram os presidentes dos partidos.

ZH – Qual era o seu papel?
Crusius – Era o mais irrelevante do mundo, mas que eu acho que era fundamental. Em 2005, a Yeda disse: “Olha, eu não vou mais me candidatar a deputada, eu vou encarar um troço aqui”. Nós tínhamos um grupinho que se reunia para examinar a situação do Rio Grande, do qual fazia parte o Aod Cunha (ex-secretário da Fazenda), que tinha todos os dados sobre a economia do Estado. O Aod vinha, abria os números e a gente botava as mãos na cabeça: “Quebrou”. Acho que foi em novembro de 2005, num almoço, estávamos o Daniel Andrade (secretário de Infraestrutura), o Fernando Schüler (secretário de Justiça), o Aod e eu. Falei que ela queria se candidatar. E disse: “Vamos ser sinceros, o Rio Grande do Sul é viável, tem saída?”. Porque de repente a gente entra numa campanha e pode perder, mas pode ganhar. E daquele almoço saiu o embrião das ideias. Começamos a montar o projeto, o famoso livrinho azul, e foi nisso sempre que eu trabalhei.

ZH – O senhor tinha a visão geral do que ocorria na campanha?
Crusius – Não. É muito grande.

ZH – Um personagem que surgiu nas denúncias do PSOL reaparece na matéria da Veja, a Walna (Vilarins Meneses, assessora pes- soal da governadora). Qual o papel dela na campanha? De onde vem?
Crusius – Quando Yeda foi eleita na primeira vez, ela herdou o gabinete do Luis Roberto Ponte e ficou com Walna. Era secretária, pessoa muito eficiente. Foi Yeda que a trouxe para auxiliar na organização de agenda.

ZH – Tinha ligação com questões de dinheiro?
Crusius – Não sei, acho que não.

ZH – Qual era o papel do Lair na campanha?
Crusius – Acompanhava o Marcelo na maioria das vezes. O Lair não tinha uma atribuição. Ficava por lá.

ZH – Ele recebia por algum serviço?
Crusius – Acho que não. Ele ficava por lá, assim como várias pessoas.

ZH – Ele pode ter recebido dinheiro em nome da campanha?
Crusius – Não me pergunta isso. A primeira preocupação da Yeda, quando começou a campanha, foi dizer: “Olha aqui, eu vou avisar a todos os empresários que só quem pode pegar dinheiro é fulano, e com recibo”.

ZH – Como ficou a relação do Lair com o governo depois da Operação Rodin (que desvendou a fraude do Detran)?
Crusius – Nunca mais o vi. Aliás, só o vi uma vez, e o cumprimentei. Eu estava com Yeda no velório da filha do Feijó (vice-governador).

ZH – O senhor soube se Lair tentou procurar pessoas do Piratini depois do escândalo do Detran?
Crusius – Comigo nunca tentou. Vocês podem não acreditar, porque eu mesmo não acredito, mas eu só soube que o Lair tinha firmas, tinha empresas, quando deu esse troço aí (da Rodin).

ZH – No auge da Rodin e da CPI do Detran, a governadora definia o Lair apenas com a palavra “festeiro”. No sábado, a governadora disse que Lair deve ter vendido por alto valor as fitas, o que seria, segundo ela, típico dele. Por que não falou isso desde o começo?
Crusius – O Lair realmente é um cara muito festeiro.

ZH – A governadora foi criticada na CPI por ter dado essa declaração, de que o Lair era um festeiro. Por que não disse antes o que realmente pensava dele?
Crusius – Nunca perguntaram a ela. Deixa eu dizer, esse negócio de fitas, tem muita gente por trás disso.

ZH – Na reportagem de Veja, Magda afirma que a governadora teria dito a Cavalcante durante a campanha: “Marcelinho, o Crusius quer pagar uma dívida antiga nossa”. Vocês estavam naquele momento, no segundo turno, tratando de quitar o financiamento de um apartamento em Brasília?
Crusius – O apartamento já estava quitado há horas. Em relação à compra da casa, ninguém nesse Estado fez o que a governadora e eu fizemos como casal. Ninguém fez, como nós, abrir tudo, todas as nossas contas. Quem é que fez isso, qual foi o político? Nós tivemos a coragem, a honestidade, a transparência de abrir tudo. Estão lá, não só a declaração de imposto de renda, mas as transações bancárias. Não há o que falar do raio dessa casa, não há mais o que falar. O Ministério Público examinou tudo.

ZH – Quando começou a procura pela casa, foi no segundo turno?
Crusius – A Yeda e eu, no tempo em que ela foi deputada, sempre vivemos num apartamento pequeno (em Porto Alegre). Em Brasília, ela vivia também num apartamento. Esse apartamento de Porto Alegre servia para ela receber duas, três pessoas, mas no momento em que ela foi eleita, teve um problema. Ela não pôde mais utilizar como morada, como residência da governadora, porque é pequeno demais.

ZH – O senhor usou as suas economias na compra dessa casa (localizada na Vila Jardim, na Capital). Por que não mora lá?
Crusius – É uma questão pessoal em que não vou entrar, mas é uma certa comodidade, uma certa funcionalidade do casal, só isso. Eu tenho a chave da casa e ela tem a chave do meu apartamento.

ZH – Hoje, o senhor é marido ou ex-marido da governadora?
Crusius – Não quero entrar nesse assunto. Nós somos casados e continuamos casados, é isso.

ZH – Não estão separados?
Crusius – Não. Até hoje eu não fui comunicado de nenhum processo de separação e nem eu pedi.

ZH – O senhor não tem namorada nem ela tem namorado?
Crusius – Que eu saiba, ela não tem namorado, eu também não tenho namorada, embora digam que eu tenha milhares de namoradas, cada semana me aparece uma. Ainda bem que não apareceram namorados.

ZH – Como foi o episódio da extinção e sua demissão do Conselho de Comunicação em janeiro?
Crusius – Não era um órgão de execução. Quando mudou a estrutura da comunicação, eu disse para Yeda que tinha de acabar com o conselho, não tinha mais sentido. Deveria ter sido extinto há muito tempo.

ZH – Como foi de fato o episódio em que o senhor discordou, diante de todos os secretários, das ideias apresentadas pela GAD, empresa contratada pelo governo para definir uma nova marca de gestão?
Crusius – Não houve uma discordância minha com a linha que o cara (Luciano Deos) estava sugerindo, só disse que devíamos pensar mais um pouco sobre aquela sugestão.

ZH – A governadora chegou a dizer na ocasião, na frente de todos, que parecia uma discussão como as que vocês têm nos churrascos de domingo?
Crusius – Ela tem o direito de dizer assim: “Vamos discutir isso depois”. Acho que ela fez bem, porque ela imediatamente percebeu que tinha de fazer outro negócio na comunicação.

ZH – Secretários comentam que o senhor dava um certo equilíbrio na hora das discussões mais tensas do governo e que agora está afastado. O senhor era uma pessoa influente?
Crusius – Existe um problema de gênero. Isso eu senti muito, principalmente no primeiro ano de governo. As pessoas não estão acostumadas, não sabem como tratar com uma governadora, com uma mulher no governo. Às vezes, os caras me procuravam porque achavam que era mais fácil falar com um homem. Eu dizia: “Não, isso aí não tem nada a ver comigo”. É verdade.

ZH– O senhor tem frequentado o Palácio Piratini?
Crusius – Quando é que tu me vês no palácio? Em cerimônias, mas não tenho mais nenhuma função no palácio. Ainda tenho uma função no partido (presidente do Instituto Teotônio Vilela).

Oposição se arma para deflagrar CPI

Divididos em diferentes linhas de ação, os adversários do governo Yeda Crusius vão agir com rapidez nos próximos dias para recolher as 19 assinaturas necessárias para abrir uma nova CPI na Assembleia.

Ontem, a bancada do PT decidiu reescrever um requerimento para incluir as novas suspeitas no pedido de CPI. O novo texto será encaminhado a todas as bancadas do Legislativo ainda hoje e, amanhã, os petistas recomeçam a colher assinaturas. A intenção é aproveitar o impacto produzido no fim de semana, uma vez que alguns fatos revelados pela Veja eram conhecidos. Os principais alvos são parlamentares de PMDB, PP e PTB, partidos da base que já apresentaram dissidência em outros momentos, e PDT e DEM, bancadas que se declaram independentes.

– Esperamos que o senador Simon, que tem sido um arauto do combate à corrupção, oriente os peemedebistas a apoiar essa CPI – disse o líder da bancada do PT, Elvino Bohn Gass.

A principal barreira a ser vencida pelos petistas é convencer os colegas da existência de fatos novos que justifiquem uma CPI. Eles trabalham com três eixos: o envolvimento de uma assessora de Yeda, Walna Vilarins Meneses, na Operação Solidária, as ligações entre as operações Solidária e Rodin e as denúncias de caixa 2 da Veja.

– A revista disse ter ouvido uma hora e meia de gravação. Queremos ter acesso às 10 horas de áudio. Outra questão é a carta de Lair para Yeda. Só conhecemos o teor de três das oito páginas – disse Bohn Gass.

O partido também quer esclarecer o destino dos R$ 400 mil dados por duas empresas fumageiras à campanha de Yeda. Os petistas afirmam que as doações não aparecem na prestação de contas e suspeitam que as companhias tenham sido beneficiadas durante a gestão. A bancada do PT afirma esperar há mais de 30 dias por uma resposta do Executivo a um pedido de informações sobre compensação de créditos de exportação a empresas fumageiras.

Hoje, a bancada petista se reúne com a direção da OAB-RS e também tem encontro com deputados de PSB, PC do B e PDT. O líder da bancada do PSB, Miki Breier, disse que a tendência do partido é assinar o requerimento:

– Há elementos novos que faltavam para que a Assembleia também faça papel de investigação.

Em outra linha de ação, o PSOL promete novas revelações para hoje em uma entrevista coletiva. Em fevereiro, o partido apresentou uma lista de suspeitas sobre Yeda.

– Teremos uma semana forte – disse ontem o vereador Pedro Ruas.

Piratini desqualifica autores de denúncia

Da sua trincheira, o Palácio Piratini pretende colocar em xeque a credibilidade de Lair Ferst, pivô do escândalo do Detran e suposto autor das fitas que têm tirado o sono da governadora Yeda Crusius desde fevereiro, quando o PSOL fez as primeiras denúncias contra o governo estadual.

Lair teria gravado conversas de bar com o ex-assessor Marcelo Cavalcante, de quem era amigo. Nos últimos meses, integrantes do Piratini monitoraram os movimentos de Lair e sabiam que ele buscava produzir provas a seu favor e usá-las no processo da Operação Rodin, que tramita na Justiça Federal de Santa Maria. Ele é um dos 33 réus da ação.

Lair teria tentando, sem sucesso, convencer no mínimo três membros do governo a participar de gravações. Na interpretação do Piratini, ele teria alcançado seu objetivo com Cavalcante, um homem fragilizado pelas acusações sofridas durante a CPI do Detran e rodeado de problemas financeiros desde a perda do cargo de chefe da representação do Estado em Brasília, em junho. Cavalcante foi encontrado morto em 17 de fevereiro, em Brasília, e as suspeitas são de suicídio.

– Cavalcante estava deprimido, mal. Andava bebendo, instável. Foi induzido a fazer uma bobagem e depois se deu conta disso – diz um integrante do governo.

Outro alvo é a empresária Magda Koenigkan, ex-companheira de Cavalcante. O governo quer mostrar que ela está sob suspeita e é questionada até pelos familiares do ex-assessor. As novas declarações dela, 70 dias após a descoberta do corpo, seriam uma tentativa desesperada, na interpretação de governistas.

– Não considero as declarações dessa moça (Magda Koenigkan). É uma versão que ela está criando para se livrar da hipótese de suicídio induzido, o que é muito grave. Ela disse ter ouvido de uma pessoa que não pode mais falar. Marcelo está morto – disse Yeda no sábado.

Para ele, uma CPI seria apenas um palco para a oposição. Troca acredita que PDT e DEM não devem assinar o requerimento, uma vez que têm feito uma “oposição responsável”. O líder da bancada do PPS, Paulo Odone, diz não ver elementos novos na denúncia:

– Essa investigação passou pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e agora está na Justiça Federal. Vamos fazer uma CPI para apurar o que a polícia já está apurando?

O governo também pretende oferecer uma resposta à revista Veja. Ontem, Yeda cogitou ir até a sede da publicação, em São Paulo, mas a viagem foi transferida para outro dia.

ROSANE DE OLIVEIRA

Tudo outra vez

A crise em que o governo mergulhou no fim de semana tem potencial para ser mais devastadora do que as anteriores, apesar de as denúncias publicadas na revista Veja não virem acompanhadas de provas. Mais devastadora, porque vem depois das denúncias do PSOL e agora atinge diretamente a governadora ao acusar Carlos Crusius de usar dinheiro de caixa 2 na compra da casa que tantas dores de cabeça trouxe em 2008.

Depois de exibir o atestado de idoneidade do negócio conferido pelo Ministério Público Estadual, Yeda vê o caso renascer e precisa lidar com a possibilidade de desarquivamento do que considerava página virada. Os promotores sempre disseram que diante de fatos novos a investigação da compra da casa poderia ser desarquivada. Se for, haverá pedido de quebra de sigilos bancário e fiscal, inclusive do pai do ex-secretário Delson Martini, que comprou o apartamento de Capão da Canoa, imóvel usado para pagar a casa. Na entrevista, a viúva de Marcelo Cavalcante, Magda Koenigkan, disse que a venda do apartamento foi forjada para justificar a compra da casa.

A crise de agora pode ser mais grave porque pega o governo em um momento de fragilidade política, com dificuldade de articulação, um secretariado pouco experiente na administração de conflitos de grande potencial explosivo e os deputados mais preocupados com a sobrevivência na eleição de 2010.

Com perspectiva de retomar o poder em 2010, o PMDB não hesitará em abandonar o barco se perceber que há risco de afundar com Yeda. Os demais aliados também não demonstram comprometimento absoluto com o governo, e o PSDB tem uma bancada que já se mostrou pouco hábil no enfrentamento com a oposição.

Nos próximos dias, o Ministério Público Federal deve divulgar as providências que adotou em relação à representação encaminhada pelo PT ao final da CPI do Detran. A conclusão do trabalho estava prevista para logo depois da Páscoa, mas atrasou. Para complicar a situação do governo, a Assembleia é presidida pelo PT e ninguém há de esperar que o presidente Ivar Pavan dê guarida a qualquer manobra para retardar a instalação de uma CPI, se a deputada Stela Farias conseguir as 19 assinaturas necessárias.