Luciana Genro

Correio do Povo, 12 de maio de 2009

12 de maio de 2009 14h11

Denúncias comprometedoras
PSol mostra documentos contra governadora. Viúva diz que prova acusações

Novos documentos divulgados ontem pelo PSol reforçam a denúncia sobre o suposto caixa 2 na campanha eleitoral da governadora Yeda Crusius em 2006. A deputada federal Luciana Genro, o vereador e advogado Pedro Ruas e o presidente do partido Roberto Robaina apresentaram documentos que indicam que o marido de Yeda, Carlos Crusius, seria um arrecadador informal da campanha e controlava parte dos recursos. O partido apresentou e-mails revelando que teria havido pressão para arrecadação de recursos até mesmo depois da realização das eleições.

A governadora, que chamou de ‘requentação’ o teor dos áudios citados pela revista Veja, edição desta semana, não se manifestou ontem. A deputada Luciana Genro, porém, reafirmou, que foi com o dinheiro do caixa 2 que Yeda e seu marido compraram, em dezembro de 2006, casa avaliada em R$ 750 mil.

Em Brasília, a empresária Magda Koenigkan, viúva do ex-chefe da representação do governo do Estado Marcelo Cavalcante, contra-atacou as acusações que recebeu do governo gaúcho e disse que entrou nesta briga porque tem ‘cartas na manga’. Na Assembleia, a formação de CPI para investigar o caso poderá ser confirmada hoje.

PSol volta ao ataque e renova acusações de prática de caixa 2
Partido divulga e-mails que teriam sido trocados depois da campanha

Joanna Ferraz

O PSol apresentou ontem cópias de e-mails que, segundo o partido, lançam mais suspeitas sobre a prática de caixa 2 na campanha de Yeda Crusius ao governo do Estado, em 2006. As mensagens, que a sigla diz terem sido cedidas por uma fonte que ‘ainda não pode ser revelada’, não fazem parte dos autos de nenhum processo. ‘A informação que temos ainda não é prova. Mas pediremos que elas sejam anexadas aos processos que investigam a conduta da governadora e do governo’, afirma o advogado da sigla, vereador Pedro Ruas. Entre as empresas citadas nos e-mails como doadoras de campanha, duas delas (Renner e Tumelero) não constam da prestação de contas nem do partido nem da candidata Yeda, segundo Luciana.

Segundo o presidente estadual do PSol, Roberto Robaina, o material, somado às informações publicadas na última edição da revista Veja, reforçam as denúncias feitas pelo partido em fevereiro. ‘Toda essa situação não é nova para nós. A CPI do Detran já havia fornecido farto material para o pedido de impeachment da governadora. Os fatos novos reforçam esse pedido.’

Para Robaina, nova CPI não será suficiente. ‘Está claro que a governadora e o governo obstruem as investigações’, afirma. Robaina, Pedro Ruas e a deputada federal Luciana Genro se reúnem hoje com o presidente da Assembleia Legislativa, Ivar Pavan (PT), para obter informações sobre o pedido de impeachment protocolado pelo PSol em 10 de junho de 2008. À época, o então presidente do Legislativo, Alceu Moreira (PMDB), arquivou o pedido. Depois de recurso apresentado pelo PSol, a solicitação passou para análise da CCJ da Casa. Parecer contrário do deputado Paulo Odone (PPS), emitido em novembro, ainda não foi votado. Em fevereiro deste ano, integrantes do PSol havia denunciado que gravações em poder do Ministério Público Federal comprovariam irregularidades na campanha e na gestão da tucana. ‘O Estado não pode continuar sob o comando dessa quadrilha que aí está. O povo do Rio Grande não pode mais conviver com isso’, disse Luciana.

Lamachia requereu a quebra do sigilo das investigações

O presidente da OAB, Claudio Lamachia, requereu ontem à Procuradoria Regional da República a quebra do segredo de Justiça, que estaria protegendo as investigações dos processos denunciados – em fevereiro, pelo PSol, e pela revista Veja, neste final de semana –, de uso de caixa 2 na campanha da governadora Yeda Crusius. Na sua opinião, se não houver uma resposta rápida das instituições, a CPI poderá ser o caminho para elucidar os fatos. ‘O clima de permanente suspeição não é mais possível. Os nomes de suspeitos já se tornaram públicos. Temos que investigar.’ Hoje ele vai à Polícia Federal com o mesmo objetivo.

Renner: MPE deve reabrir processo

O ex-procurador-geral do Ministério Público Estadual, Mauro Renner, afirmou ontem que o processo que apurou denúncias sobre irregularidade na compra da casa da governadora Yeda Crusius pode e deve ser reaberto. Os novos fatos e provas trazidos pela matéria da revista Veja são, segundo ele, argumentos sufientes e fortes para a retomada do expediente. ‘O arquivamento nunca é definitivo. Não é um atestado de indoneidade eterno’, sentenciou.

Renner explicou a recomendação pelo arquivamento do processo, oriundo de representação do PT, por não conter elementos suficientes para comprovar os repasses financeiros ‘ilícitos’, segundo o partido. Mais tarde, com as denúnicas do PSol, revelou, tentou reabrir o processo. ‘Informei à Procuradoria-Geral da República que estava investigando aqueles fatos e pedi que, se tivessem informações, me enviassem. Não recebi qualquer manifestação’, disse Renner, atestando, com isso, que sua sugestão, agora, é técnica.

Ontem à noite, a procuradora-geral do Estado, Simone Mariano da Rocha, que substituiu Mauro Renner por determinação da governadora Yeda Crusius, já adiantou que não reabrirá o processo.

Cairoli explica troca de e-mails

O presidente da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul), José Paulo Dornelles Cairoli, citado ontem em entrevista coletiva do PSol e em um dos e-mails apresentados pela deputada federal Luciana Genro e pelo vereador Pedro Ruas, distribuiu nota à imprensa esclarecendo a sua participação na campanha tucana. No texto do documento, o presidente da Federasul diz que desconhece valores arrecadados para a campanha da governadora Yeda Crusius e a forma como foram repassados ao comitê eleitoral tucano em 2006.

A íntegra da resposta de José Cairoli: ‘O presidente da Federasul, José Paulo Dornelles Cairoli, esclarece que o e-mail respondido ao diretor da Federasul, Juarez Molinari, informava apenas que as empresas citadas não complementariam as contribuições à campanha, considerando que a eleição já estava encerrada. Cairoli informa ainda que desconhece os valores arrecadados e a forma como foram repassados ao comitê eleitoral.’ Procuradas pelo Correio do Povo, outras empresas citadas não quiseram responder ou não foram encontradas para apresentar a sua versão dos fatos.

TALINE OPPITZ

Nas mãos do MPF

Insustentável é a melhor palavra para definir o quadro político no Estado. Em silêncio desde fevereiro, quando o PSol se manifestou pela primeira vez, o Ministério Público Federal (MPF) deveria agora prestar esclarecimentos à sociedade. Tem razão o presidente da OAB, Cláudio Lamáchia, que oficializou pedido para que o MPF se manifeste, ao defender que o argumento de que o inquérito está sob segredo de Justiça se tornou inválido quando trechos dos diálogos vazaram, aumentando a instabilidade política e atingindo em cheio a governabilidade. ‘As pessoas investigadas e as provas já estão publicamente expostas. A manutenção do segredo de Justiça não se justifica mais nesta situação.’

Apartes

O PSol cumpriu a promessa de apresentar novidades e divulgou cópias de e-mails que comprovariam o envolvimento de Carlos Crusius, marido da governadora Yeda Crusius, na arrecadação de recursos da campanha. Ele nega a participação na área financeira. É mais um episódio com duas versões que precisa ser tirado a limpo.