Luciana Genro

Jornal do Comércio, 20 de fevereiro de 2009

20 de fevereiro de 2009 16h55

P-Sol faz denúncias contra governo

Líderes do P-Sol no Rio Grande do Sul apresentaram nesta quinta-feira denúncias contra a governadora do Estado, Yeda Crusius. Em coletiva de imprensa na sede estadual do partido, em Porto Alegre, a deputada federal Luciana Genro, o advogado e vereador Pedro Ruas e o presidente estadual do P-Sol, Roberto Robaina, disseram ter obtido acesso a nove provas de um conjunto de 28 que estão sendo investigadas pelo Ministério Público Federal (MPF), relacionadas à fraude no Detran.

Entre elas estariam gravações em vídeo e áudio de reuniões de membros da campanha de Yeda ao Piratini com possíveis doadores de recursos, e encontros de representantes do governo do Estado com empresários. O tema das conversas seria partilha de dinheiro, caixa-dois no pleito de 2006 e pagamentos de contas pessoais de Yeda por agências de publicidade.

Os dados documentados teriam sido gravados por Lair Ferst (réu na Operação Rodin). Segundo Pedro Ruas, Ferst fez as gravações para se salvaguardar de qualquer ameaça. “Ele queria se proteger. São oito horas de gravações. Houve um momento em que ele não tinha mais credibilidade. Então iria negociar e essa era a moeda de troca. São provas muito fortes. Sabemos os termos da delação (premiada), mas não os revelaremos”, afirmou.

O P-Sol afirma ter chegado às provas a partir de uma investigação paralela feita pelo próprio partido. O trabalho incluiu conversas com envolvidos no esquema de corrupção. “Falamos com dezenas de pessoas, mas 100% das gravações foram feitas por Lair”, disse Ruas.

Luciana Genro afirmou que a morte do ex-representante do Rio Grande do Sul em Brasília Marcelo Cavalcante fez com que o P-Sol antecipasse a apresentação das informações que vinha apurando.

Segundo a deputada, a exposição das denúncias estava prevista para março, após o depoimento de Cavalcante ao MPF. “São informações graves e importantes. Marcelo (Cavalcante) estava prestes a ser ouvido sobre o caso Detran e negociando sua delação premiada, pois também se tornaria réu”, salientou.

No depoimento de Lair Ferst ao MPF, haveria a citação de um encontro em que a própria governadora negociaria a partilha do dinheiro desviado do Detran. Seriam interlocutores o ex-diretor do Detran Flávio Vaz Netto e o ex-diretor da CEEE e ex-tesoureiro do PP Antônio Dorneu Maciel.

O P-Sol também aponta a existência de diversas gravações de doação de recursos para a campanha eleitoral de Yeda Crusius em 2006, que comprovariam o uso de caixa-dois. Empresários teriam feito a entrega de recursos a integrantes da campanha que depois participaram do governo – Aod Cunha de Moraes, Marcelo Cavalcante, Delson Martini e Carlos Crusius. Lair Ferst e o ex-secretário de governo de Canoas Chico Fraga também teriam presenciado os encontros.

Também foi mencionado o registro de uma reunião, na presença de Cavalcante, Ferst e Yeda, em que o deputado federal José Otávio Germano (PP) teria doado R$ 400 mil para a campanha. A ação serviria para obter “crédito político”.

Haveria ainda um vídeo que detalha a distribuição mensal de dinheiro, por integrantes do governo, a diversas pessoas que o P-Sol não identificou. “É em 2007. Aparecem Lair, o Marcelo, a secretária da governadora e o Delson Martini. Eles dizem ‘esse pacote é para fulano, esse pra beltrano’, mas tem pouca gente conhecida”, comentou Ruas.

Outra acusação feita pelo P-Sol se refere à compra da casa da governadora e sua reforma. Segundo os líderes da sigla, haveria vídeos evidenciando repasse de recursos para compra e reforma da residência, através de empresas e de Lair Ferst.

Mais um dado levantado é o registro em áudio e vídeo de um encontro no qual são identificados pelos interlocutores pagamentos de contas pessoais da governadora por agências de publicidade. Ferst e Cavalcante estariam no encontro.

Os líderes do P-Sol não responderam se têm cópias das gravações nem revelaram as fontes que as repassaram. Apenas admitiram que entre as pessoas com quem conversaram estão Lair Ferst, Marcelo Cavalcante e o vice-governador Paulo Feijó (DEM).

Através de sua assessoria de imprensa, o Ministério Público Federal nega que o P-Sol tenha tido acesso ao inquérito e que desconhece a existência das provas mencionadas. Também negou que Marcelo Cavalcante e Lair Ferst tenham assinado acordo para delação premiada.

O governo do Estado reagiu às denúncias com uma nota oficial de uma frase: “Em resposta às demandas recebidas da imprensa, o Palácio Piratini informa que as declarações do P-Sol, em entrevista coletiva, nesta quinta-feira, foram desmentidas pelo Ministério Público Federal”.

Questionado pela reportagem, Lair Ferst negou ter tido encontro com integrantes do P-Sol e disse desconhecer as provas – gravações e vídeos – mencionadas pelo partido e a delação premiada junto ao MPF. “Nunca falei com ninguém do P-Sol. É muita cara de pau”, disse.

Contatado pela reportagem, o ex-secretário Aod Cunha não deu retorno às ligações.

O deputado José Otávio Germano enviou nota em que considera “repugnante a tentativa rasteira de fazer politicagem utilizando a morte de um ser humano. A nojenta declaração é mentirosa”, conclui.