Luciana Genro

Agência Carta Maior, 19 de fevereiro de 2009

19 de fevereiro de 2009 17h03

Gravações provam corrupção no governo Yeda Crusius, diz PSOL

Deputada federal Luciana Genro, vereador Pedro Ruas (de Porto Alegre) e presidente estadual do partido, Roberto Robaina, dizem, em entrevista coletiva, que existem áudios e vídeos que comprovariam práticas de corrupção e crimes eleitorais cometidos por Yeda Crusius. Sem apresentar tais áudios e vídeos, representantes do PSOL afirmam que decidiram fazer a denúncia após morte de ex-assessor de Yeda, Marcelo Cavalcante.

Marco Aurélio Weissheimer

PORTO ALEGRE – Três representantes do PSOL do Rio Grande do Sul afirmaram na tarde desta quinta-feira (19), durante entrevista coletiva na sede do partido, na capital gaúcha, que existem provas documentais (áudios, vídeos e testemunhos) que comprovariam crimes eleitorais e de corrupção na campanha eleitoral de Yeda Crusius (PSDB) e também no governo. A deputada federal Luciana Genro, o vereador Pedro Ruas e o presidente estadual do PSOL, Roberto Robaina, apresentaram nove denúncias, que fariam parte de um conjunto de 29 itens, que seriam do conhecimento do Ministério Público Federal.

A decisão de tornar públicas essas denúncias, segundo os representantes do PSOL, surgiu após a morte de Marcelo Cavalcante, ex-representante do Estado do Rio Grande do Sul em Brasília. O corpo de Cavalcante foi encontrado na manhã de terça-feira no lago Paranoá, na capital federal. Cavalcante, segundo informações de sua esposa, iria depor no MP Federal nos próximos dias. Luciana Genro e Pedro Ruas disseram que a governadora Yeda Crusius reuniu-se com Marcelo, semana passada, em Brasília, informação confirmada pela esposa do mesmo. Segundo a deputada, o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, teria participado da conversa que não teria sido nada amigável, o que foi negado no final da tarde pelo senador tucano.

A base das denúncias feitas pelo PSOL são gravações em áudio e vídeo, feitas pelo próprio Lair Ferst, e que mostrariam distribuição de dinheiro de caixa dois durante a campanha eleitoral de Yeda Crusius, em 2006, conversas sobre pagamentos de despesas pessoais (inclusive da governadora), sobre dinheiro proveniente da fraude no Detran e também uma conversa detalhando a operação da compra da casa da governadora.

Em uma destas reuniões, a empresa Mac Engenharia (citada na Operação Solidária que investiga fraude em contratos públicos na Região Metropolitana) teria entregue R$ 500 mil para a campanha da candidata tucana. Estariam presentes neste encontro Lair Ferst, Delson Martini, Carlos Crusius, Aod Cunha, Chico Fraga e Rubens Bordini. Outra gravação mostraria o deputado federal José Otávio Germano (PP) entregando R$ 400 mil (de caixa dois) para o segundo turno da campanha de Yeda. Também haveria uma gravação em vídeo, onde Lair Ferst detalha como se daria a operação para a compra da casa da governadora. Nesta reunião, ele teria entregue R$ 400 mil para um corretor. “Todo detalhamento da compra da casa aparece neste vídeo”, garantiu Pedro Ruas. Um vídeo com ótima qualidade de imagem e áudio, acrescentou.

Ele, Luciana Genro e Robaina não apresentaram provas das denúncias, mas garantiram que tiveram acesso a parte desse material, não via Ministério Público Federal, mas sim por meio de fontes que eles preferem manter em sigilo, por enquanto. Admitiram, por outro lado, que mantiveram conversas com vários dos envolvidos, entre eles o próprio Lair Ferst, Marcelo Cavalcante e o vice-governador Paulo Feijó (DEM). Lair Ferst, asseguraram, já teria feito um acordo de delação premiada.

“Não tivemos contato com o MPF. Decididos fazer isso em função da morte de Marcelo Cavalcante. Não podíamos ter tal nível de informações sem apelar para a sociedade. Não queremos que, daqui a pouco, outras testemunhas desapareçam, disseram Pedro Ruas e Luciana Genro. Após a entrevista coletiva, os integrantes do PSOL dirigiram-se ao Ministério Público de Contas para uma reunião com o procurador Geraldo Da Camino.

“Ele começou a ficar muito apreensivo, muito nervoso”
Pedro Ruas e Luciana Genro conduziram a coletiva fazendo questão de destacar que a decisão de apresentar as denúncias foi tomada a partir da morte de Marcelo Cavalcante, em Brasília. Um depoimento que o ex-assessor de Yeda Crusius prestaria, depois do Carnaval, estaria causando dor de cabeça para muita gente, inclusive, obviamente, para o próprio. Em entrevista ao jornal Zero Hora, Magda Koenigkan disse que Marcelo estava muito angustiado em função desse depoimento. “Ele começou a ficar apreensivo, muito nervoso”.

Magda confirmou o encontro de Marcelo com a governadora, semana passada, em Brasília. A conversa teria ocorrido na “embaixada” do RS na capital federal. Segundo os representantes do PSOL, Marcelo Cavalcante aparece em várias das gravações em áudio e vídeo que teriam sido feitas por Lair Ferst em encontros envolvendo recebimento ou repasse de dinheiro.

O ônus da prova, como se sabe, é de quem acusa. Durante a coletiva, Luciana Genro, Pedro Ruas e Roberto Robaina foram indagados se não temiam as conseqüências de fazer acusações tão pesadas sem apresentar provas materiais. Pedro Ruas deu detalhes sobre a qualidade de áudio e vídeo de algumas das gravações, enfatizou que o contato que tiveram com esse material não foi através do Ministério Público e deixou aberta a possibilidade de ter cópias do mesmo.

Os acusados não têm outro caminho a não ser exigir judicialmente que os acusadores apresentem as provas das acusações. O prato servido hoje pelo PSOL tem alto teor explosivo. No frigir dos ovos, há duas alternativas: ou Pedro Ruas, Luciana Genro e Roberto Robaina inventaram as denúncias que apresentaram hoje, ou não…

Resposta do governo
No início da noite, a assessoria de imprensa da governadora Yeda Crusius divulgou uma nota lacônica sobre o caso:

“Em resposta às demandas recebidas da imprensa, o Palácio Piratini informa que as declarações que o PSOL deu em entrevista coletiva foram desmentidas pelo Ministério Público Federal”.

Na verdade, a nota divulgada pela assessoria de imprensa do procurador da República, Adriano Raldi, não se refere propriamente ao conteúdo das denúncias. Na referida nota, Raldi nega que o PSOL tenha tido acesso a qualquer informação do processo junto ao órgão (o que foi confirmado pelo próprio PSOL, que alega ter outras fontes). Além disso, nega que tenha ocorrido um acordo de delação premiada com Lair Ferst e Marcelo Cavalcante no inquérito da Operação Rodin, que investigou a fraude no Detran (os integrantes do PSOL sugeriram que esse acordo se deu após a conclusão do inquérito). Também afirma desconhecer as provas que o PSOL diz estarem em poder do MPF. Por fim, nega que estava marcado um depoimento de Marcelo Cavalcante. Já a esposa do mesmo disse que ele estava muito apreensivo e nervoso com um depoimento que deveria prestar no dia 27 de fevereiro.