A dor da perda e a denúncia de uma cultura institucional baseada na exaustão e no assédio marcaram a audiência pública realizada pela deputada estadual Luciana Genro (PSOL) na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Convocado em parceria com o SIMPE-RS, o debate abordou o severo adoecimento psicológico e físico dos servidores do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS), impulsionado pelo trágico falecimento recente da assessora Laura Emília Nunes.
Mesmo diante da gravidade das denúncias e do apelo dos trabalhadores, a administração do MP-RS não enviou nenhum representante à audiência, ausência que foi duramente criticada pelos presentes. “A Laura morreu de trabalhar, essa é a realidade. O avanço tecnológico deveria servir para melhorar a vida das pessoas, e não para piorar. Por que o MP não envia um projeto para a Assembleia para criar mais cargos e aliviar essa pressão?”, questionou Luciana Genro após ouvir os relatos de servidores, dos sindicatos e dos familiares de Laura.
O momento mais impactante da audiência foi o depoimento de Lucas Ribeiro, filho de Laura Emília. Ele relatou a rotina extenuante da mãe, que trabalhava de madrugada, em fins de semana e feriados, e continuou trabalhando ativamente mesmo estando oficialmente afastada por licença-saúde.

“Teve uma sexta-feira, onze horas da noite, e ela estava trabalhando. Parou para comer uma pizza por dez minutos e voltou. Eu disse: ‘Mãe, não dá, tu vai morrer assim’. E infelizmente foi o que aconteceu. Ela trabalhou no dia anterior, acordou cedo no dia seguinte e teve um ataque cardíaco. A resposta que obtivemos do MP quando entramos em contato após a morte da minha mãe foi vergonhosa, nojenta. Se o MP não mudar, mais pessoas vão morrer”, desabafou Lucas.
O marido de Laura, Luís Ribeiro, completou denunciando que a instituição utiliza mecanismos de coerção para silenciar os trabalhadores: “Ficavam ameaçando que se reclamasse, iriam tirar a gratificação. Chegaram a tirar da Laura. Ameaçavam colocar em outro setor, as pessoas têm medo de falar”, revelou.
Sobrecarga e falta de resolutividade: Carga de trabalho subiu 420%
Representantes sindicais e de associações demonstraram que o caso de Laura não é isolado, mas o ápice de um cenário crônico. Alberto Ledur, coordenador executivo da FENAMP, apresentou dados alarmantes sobre a realidade da categoria, relatando que a carga de trabalho dos servidores aumentou 420% nos últimos cinco anos, enquanto a força de trabalho permaneceu praticamente inalterada no mesmo período.
Uma pesquisa de saúde mental realizada há dez anos já apontava que 85% dos servidores tinham risco alarmante de adoecimento e 31% já utilizavam medicamentos psiquiátricos. Atualmente, dados do SIMPE-RS apontam que mais de 40% têm risco de desenvolver a Síndrome de Burnout.
Jodar Prates, dirigente do SIMPE-RS, criticou as medidas adotadas pela administração do MP sobre o adoecimento de servidores, classificando-as como “superficiais”. “O problema não está na ausência formal de programas, mas na falta de resolutividade. O sistema não foi automatizado para facilitar a vida do servidor, a tecnologia só veio para trazer mais tarefas. Se o MP funciona hoje, é à custa de sacrifícios desses servidores”, apontou Jodar, lembrando que muitos colegas não compareceram à audiência por medo de perseguições.

Carmen Pasquali, representante da Aprojus (Associação dos Servidores do MP), reforçou que a pressão por metas é generalizada. “Colegas nossos estão perdendo suas vidas e enfrentando sequelas físicas e emocionais por conta de um ambiente de pressão por produtividade. Nenhuma meta batida vale uma vida”, pontuou.
O superintendente regional do Trabalho e Emprego no RS, Claudir Nespolo, trouxe dados técnicos e legais que apontam a falta de canais seguros para apurar as denúncias. Ele garantiu que cobrará dos gestores públicos um fluxo de denúncia sério, confiável e com retorno efetivo, além de avisar que vai buscar informações com técnicos que atuam em espaços compartilhados com o Ministério Público e examinar possibilidades de o Ministério do Trabalho ter mais autonomia para fiscalizar e acessar as instituições públicas.
Diante do silêncio e da ausência de representantes do Ministério Público no debate, a deputada Luciana Genro afirmou que a mobilização não irá parar. As notas e depoimentos colhidos na audiência serão compilados para fundamentar novas ações físicas e institucionais. “Não é transformar o luto em problema político, é demonstrar que é um problema real que está atingindo outras famílias. Diante disso, nós vamos buscar, formalmente, uma reunião direta com a administração do Ministério Público para exigir respostas e mudanças estruturais imediatas”, concluiu a parlamentar.