A deputada estadual Luciana Genro (PSOL) levou à Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul a denúncia de uma mãe que perdeu o seu filho em uma ação policial em Uruguaiana. Além de relatar a profunda dor e luto que hoje enfrenta, Sandra Helena de Jesus narrou ao grupo quais foram as circunstâncias que levaram Guilherme Moisés de Jesus, seu filho, à morte. Segundo ela, o que deveria ser uma ação do Estado para proteger a população terminou com o jovem morto, versões contraditórias e uma família dilacerada.
Segundo Sandra Helena, na madrugada da ação, policiais teriam invadido a casa de seu filho sem apresentar qualquer mandado ou documento que justificasse oficialmente a entrada no local. Poucos minutos depois, vizinhos relataram ter ouvido gritos e pedidos de socorro vindos do interior da residência. Vídeos das câmeras de monitoramento dos vizinhos mostram Guilherme sendo levado ao hospital logo em seguida, onde acabou não resistindo. O atestado de óbito do jovem registra a causa da morte como indeterminada, mas a classifica como violenta. Desde então permanece uma sucessão de lacunas, contradições e perguntas que seguem sem resposta.
“A dor de uma mãe que perde seu filho exige do Estado respostas concretas. Não podemos aceitar silêncio, intimidação ou versões contraditórias quando há indícios de violência. Nosso compromisso é com a verdade e com a garantia de direitos”, afirmou Luciana Genro sobre o caso ainda sem esclarecimentos.
Sandra também denunciou o que considera perseguição e intimidação após o assassinato do filho, com viaturas circulando com frequência nas proximidades da casa da família. Para além da dor irreparável, soma-se o medo. “Nenhuma mãe deveria ter que enterrar um filho e ainda conviver com o silêncio e a pressão”, afirmou Luciana.
A deputada criticou duramente a falta de transparência e a ausência de respostas formais aos pedidos de informação encaminhados pela Comissão. Sendo assim, Luciana Genro solicitou o envio de ofício ao Ministério Público relatando o ocorrido para que o órgão acompanhe o caso e adote as providências cabíveis. “Quando o Estado mata, o Estado precisa explicar. E explicar com provas, não com versões”, declarou.
A parlamentar também reforçou a urgência da implementação e regulamentação do uso de câmeras corporais nas fardas policiais. “Se houvesse imagens claras de toda a ação, talvez essa Sandra Helena não estivesse hoje implorando por respostas. Câmeras salvam vidas, preservam provas e fortalecem a verdade”, pontuou.
Luciana Genro é autora do projeto de lei que determina a instalação de câmeras corporais em uniformes de policiais e viaturas da segurança pública. Foi ela que coordenou, na Assembleia Legislativa, a subcomissão que acompanhou a instalação das câmeras nos uniformes da Brigada Militar e, posteriormente, um comitê externo dedicado ao tema. A parlamentar vem defendendo a importância de se transformar a política das câmeras corporais em uma política de Estado.
A deputada ainda destacou que a violência policial atinge, de forma recorrente, jovens das periferias e famílias que já convivem com a ausência histórica do Estado em políticas públicas, mas sentem sua presença pela força. “Não podemos naturalizar que operações terminem em morte e que, depois disso, a regra seja o silêncio. A vida de cada jovem importa. A justiça só é possível com transparência, controle externo e compromisso real com os direitos humanos.”
Para Luciana Genro, transformar a dor em luta é também exigir mudanças estruturais que impeçam que outras mães passem pelo mesmo sofrimento. “Enquanto houver uma mãe sem respostas, nós não vamos nos calar”, finalizou. A Comissão seguirá acompanhando o caso e cobrando esclarecimentos.