Luciana Genro

Carol Anchieta: “Se Conceição Evaristo tivesse sido eleita…”

04 de setembro de 2018 13h17

Carol Anchieta: “Se Conceição Evaristo tivesse sido eleita…”
O que poderia significar a escolha da primeira escritora negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras

Texto originalmente publicado no site de Zero Hora, em 03/09/2018.

O que não ter Conceição Evaristo na Academia Brasileira de Letras (ABL) significa? Na última quinta-feira, o cineasta Cacá Diegues, de 78 anos, foi eleito o mais novo imortal da ABL. Cacá, logicamente com uma importante trajetória, é autor de mais de 20 filmes, ganhador de vários prêmios e viveu o Cinema Novo. Será agora mais um entre 40 homens brancos imortais.

Dos 35 votos que definiram a disputa pela Cadeira 7, Pedro Corrêa do Lago, colecionador de manuscritos e pesquisador, levou 11, e a escritora mineira e negra Conceição Evaristo, apenas um. Um voto. Pense mais um minuto sobre isso…

Seria Conceição, mas é como se fôssemos todas nós. Mulheres negras que não têm a “persona literária” e intelectual reconhecida. Eu, como muitas das minhas iguais, só li a minha primeira escritora negra depois dos 30 anos, e isso porque faço parte de um grupo de estudo focado no pensamento de mulheres negras. Se esperarmos as escolas e a Academia, nossas “escrevivências”, termo criado por Conceição sobre “um jogo acadêmico com o vocabulário e com as ideias de escrever, viver e se ver”, nunca sairia dos nossos cadernos, bloquinhos e diários. Concordo quando ela diz que a escrevivência das mulheres negras “não é para ninar os filhos da Casa Grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”. Escrevivência tem a ver com autobiografia, com a ideia de escrita de si.

Apesar da implementação da Lei 10.639/2003, que diz respeito à obrigatoriedade da inclusão da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da rede de ensino, a educação formal brasileira ainda precisa ampliar a discussão sobre questões raciais na educação e isso inclui autores negros e autoras negras.

Jarid Arraes, com versos fortes e engajados em seus cordéis. Ana Maria Gonçalves, que com seu segundo romance, Um Defeito de Cor, de 2006, conquistou o Prêmio Casa de las Américas na categoria literatura brasileira. Mel Duarte, poeta e slammer que declama nossas dores e alegrias com maestria e reconquista para a leitura jovens negros com pouca ou nenhuma referência de seus iguais na poesia. Somos tantas, pensando, escrevendo, filosofando, criando. E onde estamos? Dá uma olhada na tua estante. Dá uma olhada na lista de livros pedidos pela escolha dos teus filhos. Como respeitar a intelectualidade negra quando a única referência na escola é a figura do escravo. E na universidade, nenhuma?

Universidades, que de maneira hipócrita refletem sobre diversidade e inclusão e suas leituras não incluem nenhuma pensadora negra, nenhum filósofo negro. E quando é questionada, diz que “mas não estamos voltando o olhar para as comunidades neste momento”. Porque nossos pensamentos são sempre encaixotados na pobreza? Não podemos ser romancistas ou escrever ficção científica como a autora negra Octavia E. Butler?

Como disse a escritora Chimamanda Ngozi Adichie em sua palestra no TED Talks, The Danger of a Single Story: “O problema com estereótipos não é que eles sejam falsos, mas sim que eles são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história”. Nossa história não é só sobre pobreza, pensamos sobre tudo e escrevemos sobre tudo. Merecemos uma imortal. Mas deixa quieto, Conceição. Eles não te merecem, tu já és imortal dentro de nós. Seria Conceição na ABL, mas já é Conceição em todas nós.

#LeiaMulheres #LeiaMulheresNegraS

* Jornalista