Luciana Genro

Laura Carvalho: “O que torna Marielle um símbolo global é seu tamanho”

23 de Março de 2018 10h40

O que torna Marielle um símbolo global é seu tamanho*

Passada uma semana de sua morte, já está claro que a vereadora continuará presente

Permanece sem resposta a pergunta que não vai calar: quem executouMarielle Franco e Anderson Gomes na quarta passada (14), sem nem mesmo fingir que se tratava de um crime comum? Mas, passada uma semana de sua morte, já está claro que a vereadora continuará presente. Tal como descreveu a reportagem de capa do jornal The Washington Post de terça-feira (20), Marielle tornou-se “símbolo global”.

Diante do tamanho que ganhou Marielle nas ruas e nas redes —tamanho esse que é proporcional à amplitude e importância do que ela representava e das causas que ela encampava em vida—, não surpreende que haja uma tentativa das atuais estruturas de poder de esvaziar sua morte de sentido político.

Como destacou o jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer Glenn Greenwald em artigo sobre os 45 minutos dedicados ao assassinato da vereadora do PSOL pelo “Fantástico”, da Globo, no domingo (18), no único trecho em que a cobertura tratou da vida política de Marielle, sua luta pelos direitos humanos foi associada a uma declaração pouco controversa sobre seres humanos nascerem livres e merecerem tratamento igual.

“Não há maneira de compreender a vida e o assassinato de Marielle sem uma sincera e clara discussão de sua vida política. O que faz de seu caso tão jornalisticamente relevante é sua política”, escreveu o jornalista americano. Em outro trecho do texto, Greenwald chegou a comparar a despolitização da morte de Marielle à feita com Martin Luther King nos EUA.

Embora denunciasse “os males do capitalismo” e o “imperialismo americano” e conclamasse “populações oprimidas ao levante”, King “é tratado como símbolo de concepções vagas e elementares sobre igualdade racial que poucas pessoas rejeitariam”. “Ele foi reduzido ao menor denominador comum, e as partes verdadeiramente subversivas de sua visão de mundo foram deliberadamente apagadas da história”, alerta o jornalista.

A dor e a revolta com o assassinato de Marielle estão sendo compartilhadas por todos os que não se encontram do lado da barbárie, e assim deve ser. Tanto melhor que a grande mídia tenha dado grande atenção e que continue cobrando a revelação dos culpados pelo atentado. Mas as hashtags “Marielle Presente” e “Marielle Vive” evocam a memória de Marielle Franco. E essa memória é também a memória de suas ideias, que não podem ser drenadas de sua imagem.

Marielle lutava contra a opressão das populações negras, de favela, LGBT e das mulheres. Lutava contra a brutalidade das polícias e sua militarização. Lutava contra os mecanismos de reprodução das desigualdades sociais.

Em uma das diversas vezes em que estivemos juntas, dividimos uma mesa do eixo de “Economia” da plataforma “Vamos” na Cinelândia, em setembro de 2017. Marielle presidia a Frente Parlamentar em Defesa da Economia Solidária, que se define como  uma iniciativa para promover “uma economia em que se respeita a escala humana no processo produtivo e o ambiente”, que “quer o sustento, não o lucro”.

Em sua fala na Cinelândia, Marielle defendeu a construção de um programa econômico voltado para os mais vulneráveis. “Se as mulheres negras estão na base da pirâmide, é a partir dessa base da pirâmide (…) que a gente vai mexer com a construção do Orçamento”. “Todas as pesquisas apontam que as mulheres negras estão no trabalho precarizado, no trabalho doméstico, no trabalho terceirizado, então é sobre nós que recaem as reformas”, alertou.

A vereadora combateu também o que chamou de “naturalização” das isenções para grandes empresas e dos privilégios do 1% mais rico da população.

Vã será toda tentativa de diminuir o tamanho de sua ousadia. Marielle, presente.

*Laura Carvalho

Professora do Departamento de Economia da FEA-USP, tem doutorado na New School for Social Research.

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 22 de março de 2018.