Luciana Genro

“As mulheres são as que fazem a revolução”, diz militante curda em debate da Fundação Lauro Campos

21 de janeiro de 2016 14h26
Militante curda Melike Yasar participou de debate ao lado de Fernanda Melchionna e Juliano Medeiros

Militante curda Melike Yasar participou de debate ao lado de Fernanda Melchionna e Juliano Medeiros

Redação #Equipe50

Na noite desta quarta-feira (20/01) a Fundação Lauro Campos e o PSOL gaúcho realizaram o debate “A luta do povo curdo e a revolução das mulheres”, que contou com a presença de Melike Yasar, militante do Movimento de Mulheres Livres do Curdistão. A mesa ainda teve a participação do dirigente nacional do PSOL Juliano Medeiros e da vereadora de Porto Alegre Fernanda Melchionna, anfitriã do evento, que ocorreu na Câmara Municipal. O evento reuniu diversas organizações de esquerda e ainda contou com a presença de quem está na cidade para acompanhar as atividades do Fórum Social Mundial.

Melike Yasar centrou sua fala em três aspectos principais: o protagonismo das mulheres no processo revolucionário curdo, a contextualização histórica e política da região e a explicação a respeito do modelo político adotado pelo povo curdo no norte da Síria, chamado de “confederalismo democrático”.

O protagonismo das mulheres

Sempre que é questionada a respeito do “papel das mulheres” na revolução curda, Melike Yasar já sabe o que responder – e foi exatamente isso que ela disse ao iniciar sua fala: “As mulheres não têm papel nenhum na revolução. Elas são as que fazem a revolução. Os homens é que têm um papel nela e precisam aprender que sem a autolibertação feminina eles também não irão se libertar”.

Melike Yasar recebeu o apoio do coletivo Juntas!

Melike Yasar recebeu o apoio do coletivo Juntas!

Melike falou a respeito das já conhecidas imagens de mulheres curdas do norte da Síria lutando militarmente contra o Estado Islâmico e contra as forças do governo turco. Ela considera que essas fotografias estão “carregadas de romantismo”, mas informa que não representa a complexidade do que está em jogo na região. “A dimensão puramente militar representa apenas 10% da luta das mulheres curdas. Os outros 90% da luta são por democracia e contra atrasos de caráter feudal”.

A militante explicou que, inicialmente, muitas mulheres curdas não se juntaram à luta movidas apenas pela causa de libertação nacional do seu povo. “O motivo principal era fugir da violência dos homens e dos casamentos forçados. As montanhas e as armas se tornaram um lugar seguro para as mulheres, que viram na guerrilha uma esperança”, disse. Para Melike, a luta pelo empoderamento feminino na região, que já tem mais de 40 anos, foi uma luta “contra os próprios companheiros” mais difícil do que a causa de libertação do povo curdo.

Confederalismo democrático

Outro eixto da intervenção de Melike foi a explicação do sistema político-administrativo adotado pelo povo curdo no norte da Síria, que se organiza em três regiões chamadas “cantões”, cada um governado por um regime de “co-presidência” exercida por um homem e uma mulher. O modelo confederalista democrático pressupõe a inexistência de um Estado nacional nos moldes até hoje conhecidos pela humanidade.

“Nos orgulhamos muito de nunca termos tido um Estado, que é um dos últimos instrumentos patriarcais da civilização”, criticou. Ela comentou que é possível radicalizar a democracia, construir um sistema de governo baseado em conselhos populares e criar forças de autodefesa sem a necessidade de se criar um Estado.

Público do Fórum Social Mundial e diversas organizações de esquerda compareceram ao debate

Público do Fórum Social Mundial e diversas organizações de esquerda compareceram ao debate

Para Melike, o “modelo curdo” adotado em Rojava mistura tradições do socialismo e do anarquismo em suas diversas correntes – tudo sob uma perspectiva radicalmente feminista, ecológica e anticapitalista. Ela ressalta que salto para esse modelo ocorreu após intensos debates com o povo curdo e uma certa reformulação no interior do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla original), que “começou com uma perspectiva marxista-leninsta e hoje não nega essas origens, mas ao mesmo tempo as critica”.

Melike Yasar entende que o Estado nacional possui quatro forças ideológicas que o sustentam: o sexismo, o nacionalismo, o fundamentalismo e ciência de matriz positivista. Contra todos estes eixos, explica, o povo curdo está fazendo sua luta e implementando uma alternativa prática. Isso está ocorrendo, inclusive, a partir da formulação de uma nova filosofia de vida, chamada de “Jinealoji”, expressão que em curdo significa “mulher” e “vida”.

Solidariedade internacional

Melike se reuniu com Roberto Robaina, dirigente nacional do PSOL, e Israel Dutra, presidente do partido no Rio Grande do Sul

Melike se reuniu com Roberto Robaina, dirigente nacional do PSOL, e Israel Dutra, presidente do partido no Rio Grande do Sul

A vereadora Fernanda Melchionna ressaltou que o debate promovido pela Fundação Lauro Campos “é parte da defesa internacionalista do povo curdo e do protagonismo exercido pelas mulheres”. Já o dirigente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, informou que estará representando o partido na Turquia, no domingo (24/01), onde acompanhará como observador e apoiador o congresso do HDP, o partido de esquerda pró-curdos que está angariando apoio popular no país e expressando demandas históricas de populações oprimidas.

Melike Yasar disse que o HDP já conquistou mais de 100 prefeituras nos territórios curdos da Turquia e que “40% delas são dirigidas por mulheres”. Ela também aproveitou a oportunidade para agradecer a receptividade que vem tendo no Brasil e reforçar o chamado do povo curdo por solidariedade internacional. “Nossa revolução é global. A luta contra o Estado Islâmico é uma luta contra o patriarcado, o facismo, o racismo e toda forma de violência. Eles atacam Rojava porque lá está se construindo um sistema que representa um perigo enorme a eles e às forças imperialistas que os apoiam.