Luciana Genro

Decisão do STF foi uma derrota de Cunha

18 de dezembro de 2015 09h56
Eduardo Cunha sofreu derrota no STF mas foi aliviado com decisão de Teori de analisar somente em fevereiro seu afastamento | Valter Campanato/Agência Brasil)

Impeachment sofreu derrota no STF, mas Cunha foi aliviado com decisão de Teori de analisar somente em fevereiro seu afastamento | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Por Luciana Genro

Eduardo Cunha e seu “golpe paraguaio” sofreram uma grande derrota no STF. Gilmar Mendes mostrou mais uma vez que é um “juiz-político” de direita, e que já não tenta mais disfarçar isso.

Impeachment precisa de povo nas ruas, e as manifestações de domingo foram um fracasso. Mesmo 70% do povo rejeitando Dilma, poucos estão dispostos a ir para as ruas em apoio a um processo conduzido pelo corrupto Cunha e que levará ao poder o vice Michel Temer, que tem apenas 2% de popularidade e defende uma agenda cruel para o povo.

O PSDB também sofreu um abalo político importante. O tucano Eduardo Azeredo foi condenado a 20 anos de prisão, e uma nova operação da Polícia Federal está desbaratando o esquema de propinas na Petrobrás desde 1997, governo FHC. Como eu mesma disse a Aécio durante a campanha eleitoral, era o sujo falando do mal lavado. Está provado que no caso do mensalão o PT esteve mais para aluno do PSDB do que inventor da obra.

O PMDB está dividido, mas isso não é novidade. Fica claro, entretanto, de que lado está Michel Temer. Trabalhando para levar o poder na “mão grande”. Mas a derrota de Cunha é sua também, e o Senado deu aval para investigar se ele também não deu as tais “pedaladas”.

Por outro lado Cunha ganhou fôlego com a lamentável decisão de Teori de deixar para fevereiro a análise do pedido de perda de seu mandato – finalmente – feito por Janot.

O cenário ainda é incerto pois a crise econômica tende a se agravar no ano que vem. A luta do povo contra o ajuste, por salário, emprego, moradia e serviços públicos decentes vai ser mais necessária do que nunca.
Por fim, copio um trecho do artigo publicado por Vladimir Safatle na Folha de SP hoje:

“É certo que este álbum de fotografias inacreditável de um golpe primário mostra muito mais do que a inanidade da oposição e a inépcia do governo. Ele mostra que as saídas para a crise não estão dadas nos marcos postos pela crise atual. Se o governo conseguir sobreviver a este golpe, será difícil imaginar o que restará depois. Este é um governo sem rumo, governo de uma ‘conciliação’ que nunca houve, vítima de suas próprias escolhas. Ele continuará sem rumo e sitiado. Se, por sua vez, a oposição der o golpe, este será só o começo de uma das mais profundas crises institucionais e sociais que o país conhecerá. No poder, estará a mais crassa casta oligárquica à frente de um governo ilegítimo, com poderes policiais e repressivos reforçados.

O que se coloca a nós é a tarefa enorme de pensar saídas a partir do reconhecimento da verdadeira extensão dos problemas e do esgotamento das práticas de governo da nossa república.

Como costumamos dizer em psicanálise, a primeira condição para sair do problema é reconhecer seu verdadeiro tamanho.”