Luciana Genro

Em entrevista ao Terra, Luciana Genro propõe lavar o Brasil com “banho de participação popular na política”

17 de setembro de 2014 22h54

Por Redação #Equipe50

Luciana com Kitty, Edson e Jeff/Instagram

Luciana com Kitty, Edson e Jeff/Instagram

A candidata do PSOL à Presidência da República, Luciana Genro, foi sabatinada nesta quarta-feira (17) por jornalistas e leitores do portal Terra. A presidenciável, que já havia recebido destaque nas redes sociais na noite anterior, durante o debate da CNBB, voltou a ocupar os Trending Topics do Twitter ao longo da entrevista do Terra.

No início da sabatina, um repórter lembrou uma ação de 2010, em que Luciana e outros parlamentares e membros de movimentos sociais lavaram a rampa do Congresso Nacional para cobrar a aprovação da Lei da Ficha Limpa, e em seguida perguntou à candidata que prédio ela lavará se for eleita presidenta. “Precisamos lavar o Brasil e não só as instituições. Precisamos fazer uma mudança profunda. Lavar é dar um banho de participação popular na política, fazer com que as instituições reflitam a vontade das pessoas”, afirmou a presidenciável.

Para fazer essa mudança, explicou, é preciso contrariar interesses poderosos e realizar reformas estruturais como a democratização da mídia. “Temos uma falta absoluta de liberdade de imprensa. Acho hipócrita esses grandes meios falarem em liberdade de imprensa quando na verdade o que existe é a liberdade para os donos dos veículos definirem o que vai ser publicado.Quem assiste apenas ao Jornal Nacional acha que só tem três candidatos. Isso é aviltante para a nossa democracia. De vez em quando, eles nos colocam, e ainda assim num bloco separado dos demais, uma coisa premeditada para passar ao espectador que aqueles outros candidatos estão fora do jogo. É necessário que a gente construa uma verdadeira liberdade de imprensa. Isso significa uma imprensa muito mais plural”, disse Luciana, reconhecendo que hoje a internet ajuda a furar o bloqueio da grande imprensa para chegar ao eleitor, mas ressaltando que a televisão ainda tem um poder maior.

Veja as propostas e opiniões de Luciana sobre outros temas tratados na entrevista:

Ofensas de Danilo Gentili

Luciana também comentou a repercussão da piada grosseira do humorista Danilo Gentili, que postou em seu Facebook uma montagem comparando-a ao ditador alemão Adolf Hitler. “Eu me manifestei nas redes sociais, dizendo que eu não admito esse tipo de comparação, até porque apologia ao nazismo é crime, minha família tem origem judia e o Holocausto foi uma tragédia da humanidade, não pode servir para piadas. Assim que eu me manifestei, ele retirou a publicação e eu também dei o caso por encerrado”, disse ela.

A candidata também afirmou que não se sentiu desrespeitada durante a entrevista no programa de Gentili. “Acho que ele desrespeita um pouco a inteligência do telespectador. Demonstrou falta de conhecimento da minha história e da luta socialista, mas eu encarei com naturalidade, faz parte do jogo”, ponderou a presidenciável.

Manifestações e pressão popular

“As manifestações de junho foram um momento histórico, em que se destravou um processo de reivindicação por mais direitos. As lideranças do PSOL estiveram presentes nas manifestações. Eu, inclusive, tomei bomba de gás lacrimogêneo em Porto Alegre. Foi um momento espontâneo, que mostrou que o PT, que por muito tempo controlou os movimentos sociais, perdeu esse controle. Ninguém mais controla, o que é muito positivo porque a autenticidade do povo se expressa de forma muito mais forte. Nós, do PSOL, queremos contribuir no processo de organizar a indignação da população, queremos ser parte desse processo”, disse Luciana.

Questionada se se sente uma porta-voz do povo que foi às ruas em junho, a candidata respondeu: “Seria muita pretensão da minha parte querer ser a porta-voz. Eu quero ser uma das vozes, poder expressar e dizer o que as pessoas gostariam de dizer e não podem porque não têm esse holofote que um candidato à Presidência tem. Quero ser uma expressão das milhares de vozes de Junho, que reivindicaram direitos e não foram atendidas.”

Segurança pública e repressão de manifestantes

Ao responder a uma pergunta sobre como o seu governo lidaria com manifestantes violentos e black blocs, Luciana analisou o tema por uma perspectiva mais ampla, considerando a causa dos protestos com violência. “Os black blocs são uma expressão da falta de condições e de espaço para a juventude. Num governo como o do PSOL, não haveria esse tipo de manifestação de violência gratuita”, afirmou ela.

Em seguida, a candidata propôs uma mudança radical na estrutura e no modo de operação da polícia. “Defendo uma polícia voltada para a proteção. Por isso, defendo a desmilitarização, o que não significa que a polícia não teria armas. Hoje, o que a polícia faz é uma verdadeira guerra, principalmente aos pobres. Meia dúzia de jovens quebram vidraças e a polícia vem com tudo nas manifestações. Temos que assegurar uma polícia voltada para a garantia dos direitos humanos, não para a promoção da violência”, defendeu a presidenciável.

Desigualdade de condições na campanha

Luciana criticou a concentração de poder econômico e de cobertura da mídia dos três candidatos alinhados aos interesses do capital (Dilma, Marina e Aécio) e afirmou que o PSOL precisa superar grandes barreiras para dialogar com o eleitor e divulgar suas propostas: “Enfrentamos uma grande dificuldade, na campanha, para chegar até o povo. No lado de lá, tem milhões de reais, e nós, até agora, gastamos R$ 200 mil, o que deve ser o custo de uma hora de campanha da Dilma, do Aécio ou da Marina. Além dessa desproporção de recursos, o tempo de propaganda é muito desigual e a cobertura da mídia é muito desigual. Se eu tivesse o mesmo tempo de exposição na mídia que têm os três irmãos siameses, o PSOL cresceria muito.”

Reforma política

“Temos muito acordo com a proposta da CNBB, que dá mais valor e mais espaço para a realização de plebiscitos e referendos”, disse Luciana, que destacou a necessidade de apoio e pressão popular para articular a aprovação de matérias importantes no Congresso. “Mesmo as mobilizações em menor escala, e eu participei de votações na Câmara em que categorias se organizavam, lotavam as galerias, pressionavam os deputados e mudavam a correlação de forças. Eu tenho muita convicção de que é possível quando há essa pressão externa”, explicou a candidata.

Experiências socialistas exitosas em outros países

Ao responder a uma pergunta sobre que país melhor representaria o tipo de sociedade que o seu programa deseja construir, Luciana disse não haver um modelo pronto, embora haja alguns acertos em algumas nações que optaram pelo caminho oposto aos interesses dos mais ricos. “Nenhum país até hoje conseguiu construir o socialismo nos moldes que defendemos. Socialismo e liberdade têm que andar juntos. Não temos um modelo pronto, temos que construir nosso próprio modelo. Um modelo para o Brasil teria que ter um pouco de cada lugar e ser construído de forma coletiva. Eu acho que há avanços em alguns países, do ponto de vista democrático. Na Venezuela, temos o referendo revogatório, em que a população decide, na metade do mandato, se o presidente deve continuar. Do ponto de vista econômico, Cuba tem avanços. Lá, saúde e educação são um direito real”, disse a candidata, explicando que as propostas do PSOL nestas eleições não são propriamente socialistas, mas sim o projeto de reformas estruturais profundas.

Pesquisas de intenção de voto

“Eu não acredito que o PSOL tenha apenas 1% da intenção de voto. Acredito que tem mais que isso e muito mais do que isso em simpatia. Mas o partido não tem muito mais que isso porque essas pesquisas induzem a intenção do eleitor. Se todos que gostam das nossas propostas votassem em nós, teríamos condições de ir ao segundo turno”, afirmou Luciana

Direitos para LGBTs

“É algo medieval nós ainda julgarmos a pessoas pela sua orientação sexual ou pela sua identidade de gênero. É por isso que defendo e temos que levar essa discussão para dentro das escolas. Muitas crianças sofrem um bullying terrível. Acredito que por isso foi tão criminosa essa desistência da presidenta Dilma de levar adiante o projeto de combate à homofobia nas escolas”, disse Luciana.

Dívida pública

“Esses R$ 3 trilhões que devemos não são reais. Não é uma dívida real. Eu defendo uma auditoria nessa dívida. Na origem de toda essa dívida, já está o processo de especulação, que não tem fundamento real”, afirmou a candidata, que defendeu uma auditoria pública para reduzir o endividamento do país: “O Equador fez uma auditoria e concluiu que 75% de sua dívida não era legítimo. Os credores tiveram que aceitar.”

Descriminalização da maconha

“A guerra às drogas fracassou na tentativa de acabar com o narcotráfico e diminuir o consumo de drogas. Precisamos mudar essa política de segurança que gera uma guerra aos pobres, encarcerando jovens pobres e negros. A maconha é uma realidade, é uma droga que tem um potencial lesivo semelhante ao do álcool e do cigarro e deve ser tratada nesse patamar. A juventude, principalmente, usa, e a melhor maneira de tratar a maconha não é criminalizando. A criminalização da maconha não possibilita que o tema seja discutido de forma franca”, afirmou a candidata.

Ao ser questionada sobre a entrevista em que admitiu ter consumido drogas na juventude, a presidenciável disse: “Eu não era uma usuária dependente de maconha. Fumei eventualmente na fase da adolescência. Muitas pessoas usam assim. Eu bebo, quase todas as noites, um vinhozinho, e isso não faz de mim uma alcoólatra.”

Regulamentação da prostituição

“Sou a favor da regulamentação da prostituição. A prostituição é uma realidade. As mulheres que optam pela prostituição precisam ter seus direitos respeitados. Garantir direitos às prostitutas é a melhor forma de fazer com que essas mulheres não sejam vítimas dos cafetões”, ponderou Luciana.

Descriminalização do aborto

“O aborto é uma realidade. Temos 800 mil mulheres que morrem por ano, vítimas de abortos clandestinos. Cabe ao Estado garantir o direito de essas mulheres fazerem um aborto em segurança. Inclusive quem paga por um aborto corre risco. E quem não tem condições usa medicamentos perigosos, é uma tragédia. Eu fui mãe com 17 anos, não foi uma gravidez planejada, mas eu tive apoio da minha família. Muitas mulheres não têm. Descriminalizar o aborto e garantir acesso pelo SUS assegura uma rede de apoio e proteção às mulheres”, disse a candidata do PSOL.

Racismo no futebol

“O Brasil inteiro viu que havia uma manifestação racista em parte da torcida. O Aranha foi muito corajoso. Tivemos outros jogadores e juízes que tiveram coragem de se expor e bradar contra o racismo. Precisamos combater o racismo velado que existe na sociedade brasileira e se expressa nas brincadeiras, nas piadas e no futebol. Precisamos combater isso”, disse a presidenciável.

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